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Sucessão em escritórios de advocacia e departamentos jurídicos: Por que não deve haver futuro sem mulheres na liderança?

A ausência de mulheres liderando não apenas limita o crescimento institucional, mas também impede a realização de uma igualdade plena no campo jurídico.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Atualizado em 11 de maio de 2026 17:58

O mercado jurídico brasileiro atravessa um momento de inflexão. Transformações tecnológicas, novos modelos de negócios, clientes mais exigentes e padrões cada vez mais elevados de eficiência, governança e impacto estão pressionando, mais do que nunca, escritórios e departamentos jurídicos. 

Nesse contexto, a sucessão deixou de ser apenas uma discussão de governança interna para se tornar uma questão de sobrevivência institucional. Contudo, há um ponto que segue sendo tratado com cautela: não há sucessão sustentável sem a presença consistente de mulheres em posições de liderança. Até porque, durante décadas, o debate sobre a liderança feminina esteve concentrado na questão da representatividade. Contudo, hoje, é necessário elevá-lo a outro patamar: o da sustentabilidade do próprio negócio jurídico.  

Organizações que mantêm estruturas decisórias homogêneas tendem a limitar a sua capacidade de renovar visão, estratégia e cultura. Historicamente, a sucessão no direito foi marcada por trocas de nomes nos mesmos lugares. Mudam-se sócios, diretores ou líderes locais, mas frequentemente permanece o mesmo perfil, a mesma mentalidade e, em muitos casos, os mesmos vícios de gestão. Nesse formato, a sucessão torna-se mais administrativa do que estratégica. 

Porém, as demandas atuais exigem algo diferente, pois bancas jurídicas precisam de lideranças capazes de conectar excelência técnica com visão de negócios, gestão de pessoas e construção de reputação. E vai além: precisam de profissionais que compreendam o risco não apenas como um tema jurídico, mas como um elemento sensível da estratégia empresarial.  

É nesse ponto que a presença de mulheres emerge como uma vantagem competitiva. Experiências de mercado mostram que mulheres em posições de liderança frequentemente ampliam o repertório das decisões estratégicas, incorporando perspectivas de longo prazo, maior atenção aos impactos reputacionais, à gestão de pessoas e à consistência da governança.  

Não se trata de estilo individual, mas de repertório. De trajetórias profissionais construídas, muitas vezes, em ambientes que historicamente não foram desenhados para elas.  

Quando processos de sucessão negligenciam esse capital humano, o risco é claro, pois perpetua-se um modelo de liderança que já não responde às demandas contemporâneas e as consequências tendem a ser previsíveis: perda de talentos, dificuldade de inovação, distanciamento do cliente e, no limite, fragilização da cultura organizacional.  

Há, ainda, um componente simbólico e estrutural importante. A ausência de mulheres na liderança transmite às novas gerações a mensagem de que existe um teto invisível e isso enfraquece o desenvolvimento de lideranças, desestimula talentos e compromete o próprio pipeline de sucessão. Portanto, não se trata apenas de equidade, mas de inteligência organizacional. 

Planejar a sucessão, hoje, exige identificar e desenvolver lideranças femininas, estruturar trajetórias de carreira reais e garantir espaço efetivo de tomada de decisão. Sem isso, a sucessão torna-se apenas um exercício de continuidade formal e não de evolução. 

O futuro do mercado jurídico não será definido apenas por tecnologia, novos modelos de precificação ou eficiência operacional. Ele será determinado, sobretudo, pela qualidade das lideranças que ocuparão os espaços de decisão nos próximos anos. 

E esse futuro não pode ser construído sem mulheres na liderança. Não por ser uma pauta de tendência, mas por ser um imperativo estratégico. Sucessão sem diversidade é repetição. Sucessão sem mulheres é estagnação. Para que o campo jurídico permaneça relevante, competitivo e conectado às transformações dos negócios e da sociedade, é preciso reconhecer que a liderança feminina é parte do debate sobre o futuro e, principalmente, parte essencial da solução.

Dóris Castelo Branco

Dóris Castelo Branco

Sócia do escritório Martorelli Advogados.

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