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A solução certa precisa do tempo certo

Correios enfrentam crise estrutural entre missão social e concorrência digital; exigem reforma, regulação e novo financiamento para se sustentar.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Atualizado às 16:38

Os Correios atravessam um dos momentos mais delicados de sua história recente. O debate público sobre a empresa tem oscilado entre o alarme com os números do balanço e a busca por responsáveis. É por isso que quero contribuir, neste artigo, em outra direção, a das soluções que estão ao alcance hoje e que dependem menos de gestos heróicos do que de decisões estruturais bem executadas e respeitadas em seu tempo de maturação. Falo a partir da experiência de quem presidiu a estatal entre fevereiro de 2023 a setembro de 2025 e que segue comprometido com a a reconstrução da empresa e do país.

A empresa carrega uma dualidade estrutural intransferível. Precisa operar como uma grande empresa logística, com eficiência e competitividade num setor sem barreiras de entrada, e, ao mesmo tempo, garantir o serviço postal universal nos 5.570 municípios brasileiros, mantendo mais de 10 mil agências, das quais cerca de 85% operam com prejuízo para assegurar atendimento em regiões onde nenhuma operadora privada chegaria.

A esse desafio somam-se pressões acumuladas ao longo das últimas décadas: ciclo de desinvestimento que envelheceu frota e sistemas, sucessivos programas de demissão voluntária sem reposição adequada e passivos trabalhistas insuficientemente provisionados que, ao se materializarem como precatórios, viraram uma das maiores pressões de caixa da empresa: apenas em junho de 2025, esse passivo já alcançava R$ 1,6 bilhão.

Esse modelo se sustentou por décadas com base em um subsídio cruzado: a receita do monopólio das cartas financiava as agências deficitárias. Quando a comunicação migrou em definitivo para o digital, e cartas e documentos passaram de 55% para apenas 14% do faturamento, esse arranjo ruiu silenciosamente. Não é um problema brasileiro. Operadoras postais públicas dos Estados Unidos, do Canadá e da Europa enfrentam o mesmo desafio. O modelo do século XX acabou. Um novo desenho de financiamento da universalização precisava, e ainda precisa, ser construído.

Foi nesse cenário que veio a chamada “taxa das blusinhas”. É preciso registrar, com honestidade, que essa medida não foi um ato do Executivo Federal. Houve apoio amplo e unânime de todos os partidos políticos na Câmara e Senado Federal, dos governadores de todos os estados, de todos os partidos, sob o argumento legítimo de proteger o varejo nacional e equilibrar a tributação no comércio internacional e aumentar a arrecadação de tributos estaduais, em especial o ICMS. O consenso político era transversal. O que não se levou em conta, naquele momento, foi o impacto sobre a logística pública. A portaria que instituiu o Programa Remessa Conforme quebrou a exclusividade que os Correios detinham no segmento de remessas internacionais de até US$ 50. Até então, apenas a estatal podia operar esse fluxo; com o programa, abriu-se o mercado para operadoras de courier nacionais e internacionais.

A combinação desse movimento com o Imposto de Importação de 20% sobre compras de até US$ 50 nivelou a tributação entre os Correios e operadores privados, permitindo que empresas sem qualquer obrigação social capturassem o mercado internacional de e-commerce, com gigantes globais do varejo digital estruturando operações logísticas próprias nos principais centros urbanos e praticando preços subsidiados, sob suspeita de dumping.

A participação dos Correios nesse segmento despencou de 98,7% em 2023 para pouco mais de 31% em 2025, com uma frustração de receita estimada em R$ 5 bilhões por ano. Em 2024, os Correios registraram R$ 3,9 bilhões em receitas com encomendas internacionais; em 2025, o valor caiu para R$ 1,3 bilhão. Essa fonte, que chegou a representar 22% da receita total em 2023, passou a responder por apenas 7,8%. No primeiro trimestre de 2026, o segmento caiu mais 60,3% em relação ao mesmo período do ano anterior.

É justo registrar, no entanto, um ponto que importa para a leitura honesta do episódio: nenhum desses efeitos foi imprevisto. Ao longo de 2024 e do primeiro semestre de 2025, percorri pessoalmente gabinetes parlamentares na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, ministérios da área econômica e pastas setoriais, em uma agenda regular que reuniu dezenas de reuniões.

Levei a cada um desses interlocutores estudos técnicos, projeções de receita e simulações que dimensionavam, com precisão considerável, o impacto que a quebra da exclusividade dos Correios no segmento internacional de até US$ 50 teria sobre o caixa da empresa e, por consequência, sobre sua capacidade de sustentar a universalização postal. Os números observados em 2025 e no primeiro trimestre de 2026 não trouxeram surpresa: confirmaram, com pequena margem, as projeções que haviam sido apresentadas.

O Brasil já dispõe do instrumento para corrigir essa distorção. A lei 15.071/24, de iniciativa do Poder Executivo, por meio da Secretaria da Receita Federal e do Ministério da Fazenda, autoriza alíquotas diferenciadas para produtos transportados via rede postal pública, permitindo aos Correios recuperar competitividade no fluxo internacional e financiar sua missão social. A edição da lei demonstrou a clara preocupação do governo com a competitividade da estatal. Mas a lei segue sem regulamentação. Não há, aqui, antagonismo a se cultivar. Há uma decisão politica pendente cujo custo aumenta a cada mês.

Acabar com a taxa das blusinhas tem o mérito de combinar dois objetivos legítimos: proteger o consumidor de menor renda, que faz pequenas compras internacionais e foi o mais penalizado pela tributação atual, e devolver aos Correios o protagonismo no segmento de baixo valor que historicamente sustentou o subsídio cruzado.

Há, ainda, um argumento de equidade tributária pouco lembrado: a legislação brasileira já permite isenção de bagagem de até US$ 1.000 mensais para viajantes internacionais, benefício que, na prática, alcança sobretudo as famílias de maior renda, que têm condições de viajar ao exterior. Garantir um patamar de isenção para remessas postais é oferecer às classes que não viajam um tratamento equivalente.

É fundamental que os Correios recuperem esse importante segmento de encomendas internacionais, que historicamente esteve dentro da empresa, para que continuem a cumprir sua função social, viabilizada pelo subsídio cruzado entre as receitas competitivas e as agências deficitárias. Tanto a regulamentação da lei 15.071/24 quanto a aprovação do projeto de lei em trâmite na Câmara dos Deputados que devolvem a exclusividade aos Correios caminham nessa direção e, juntas, formam o eixo regulatório mínimo para que a estatal volte a disputar, em condições justas, um mercado em que sempre teve vantagem competitiva natural. Sem uma revisão mais ampla do modelo regulatório e concorrencial do setor, a tendência é que os ganhos econômicos decorrentes do fim imposto de importação e do aumento do fluxo de mercadorias continuem sendo apropriados majoritariamente pelas plataformas internacionais e seus operadores logísticos; e não pelos Correios.

Em resumo, é fundamental que a isenção de ate US 50 (cinquenta dólares) seja exclusiva para remessas postais. Isso traria estabilidade e segurança para que a estatal pudesse dar sequência ao projeto já iniciado de modernização e diversificação de suas atividades.

A gestão que conduzi entre 2023 e 2025 não ficou paralisada à espera de solução vinda de fora. Construímos, com a equipe da empresa, um plano de reconstrução em múltiplas frentes. É importante registrá-lo agora, não como vitrine, mas como contexto necessário para entender o que se passou e o que está em curso.

A primeira decisão estratégica foi reposicionar os Correios como o braço logístico do Estado brasileiro, movimento consolidado por decreto presidencial que priorizou a contratação da estatal por órgãos federais. Em paralelo, um esforço comercial intenso resultou em 553 novas negociações e R$ 895 milhões em receitas adicionais. Lançamos um ecossistema de novos negócios para diversificar a base de receita: o marketplace Mais Correios, a estruturação de um banco digital e soluções logísticas dedicadas à saúde, agronegócio e educação, segmentos em que a capilaridade da estatal é vantagem competitiva, não passivo e ainda, parceria com empresas multinacionais para que a estatal desenvolva sistema modernos e de ponta na entrada e rastreamento dos objetos. Isso tudo já é realidade.

No corte de despesas, o plano de otimização gerou R$ 471 milhões de economia até julho de 2025, com projeção de alcançar R$ 1 bilhão por ano em regime, concentrado em transportes e contratos terceirizados, que sempre foram as maiores rubricas evitáveis. Revertemos o ciclo de desinvestimento, elevando a média anual de investimentos em mais de 77%, e estruturamos a inclusão dos Correios no Novo PAC, somada a um plano de R$ 4,4 bilhões em negociação com o Banco dos BRICS, voltado a novos centros operacionais e à modernização tecnológica.

No capital humano, depois de treze anos sem concurso, realizamos uma seleção pública com cotas pioneiras para mulheres, negros, indígenas e pessoas com deficiência, porque uma empresa que entrega o Brasil precisa parecer com o Brasil. Em paralelo, um PDV estratégico, calibrado para readequar a força de trabalho sem comprometer a operação, teve adesão de 3.763 empregados. Para garantir liquidez, foram realizadas operações de crédito que totalizaram R$ 2,35 bilhões, recursos essenciais para sustentar investimentos e evitar colapso operacional em meio à crise.

Houve ainda uma agenda que considero, pessoalmente, a mais importante de todas: a do Brasil que costuma ser invisível. O programa CEP para Todos, idealizado e impulsionado neste período, levou endereçamento postal a 100% das favelas e comunidades do país, beneficiando 17,1 milhões de brasileiros.

Para quem nunca pensou no assunto, é difícil dimensionar o que significa ter um endereço: significa receber boleto, cadastrar-se em programas sociais, abrir conta em banco, fazer compras pela internet, ser localizado por uma ambulância, cadastrar os filhos nós pagamos sociais. Significa dar dignidade aos que mais precisam dos serviços públicos no Brasil. Esse foi um marco histórico de inclusão, e nenhum operador privado o teria executado, porque não havia retorno financeiro a se esperar dele. Apenas o retorno, mais difícil de medir, da inclusão social.

E houve as missões, que são, talvez, a melhor resposta a quem questiona se vale a pena manter os Correios públicos. Em 2024, a Operação Solidariedade Expressa, em resposta às enchentes no Rio Grande do Sul, foi a maior operação logística da história da empresa e do Brasil: mais de 10 mil agências mobilizadas, 33 mil toneladas de doações transportadas, 500 empregados e 150 veículos dedicados. Os Correios auxiliaram e coordenaram toda a rede logística em parceria com as nossas Forças Armadas. Tratou-se da maior operação de solidariedade já feita no país.

Anualmente, a empresa distribui 150 milhões de livros didáticos para 140 mil escolas, beneficiando 35 milhões de estudantes. Aplicamos a logística de 8,7 milhões de provas do ENEM em mais de 11 mil locais, com janela de operação de três horas e índice de erro zero.

No Concurso Nacional Unificado, o maior concurso público da história do Brasil, foram 4,2 milhões de provas em 4,3 mil locais de aplicação, em uma janela de duas horas, sem falhas. Entregamos medicamentos em muitas regiões do território nacional.

Em 2025, atuamos como operador logístico oficial da COP30, gerenciando o transporte de quase 25 toneladas de cargas internacionais. Nada disso sai em manchete de balanço. Mas é o que justifica a existência da empresa pública e o que torna seu colapso impensável para a população.

Avançamos também na agenda ESG, com renovação da frota incluindo veículos elétricos e bicicletas, o que resultou em redução de 17% nas emissões de gases de efeito estufa. Aderimos a pactos de integridade e melhoramos os indicadores de governança. É um trabalho que não substitui a equação financeira (ninguém paga conta com bicicleta elétrica), mas que constrói reputação, e reputação, em estatal, é ativo de longo prazo.

Tudo isso convivia, simultaneamente, com a deterioração financeira que os números deixaram visível ao longo de 2024 e do primeiro semestre de 2025. As receitas das encomendas internacionais despencaram, os precatórios se materializaram em ritmo acelerado, e o caixa começou a apertar.

Foi nesse momento que apresentamos, internamente, o desenho do que precisava ser feito a seguir: uma nova fase, mais profunda, com a vendas de imóveis ociosos, revisão da rede de atendimento, ampliação do PDV, monetização sistemática de imóveis, parceria com plataforma de marketplace para escala competitiva no e-commerce e, sobretudo, a regulamentação da lei 15.071/24 como peça central da reequação do modelo de negócio. Esse era o plano desenhado com os Ministérios envolvidos no controle e supervisão das empresa.

Em gestão pública de empresas estratégicas, há uma tentação recorrente, e muito humana, de procurar a solução milagrosa: o nome certo, o gesto certo, a manchete certa. A turbulência política em torno da presidência dos Correios ao longo de 2025 não foi exclusividade desta gestão; é uma constante na história da empresa.

Mas, enquanto se procura o milagre, o relógio continua andando, e as obrigações continuam correndo. As soluções estruturais (regulamentar a lei 15.071, equacionar o passivo previdenciário do Postalis, redesenhar o modelo de financiamento da universalização, executar com firmeza a otimização de despesas, modernizar a infraestrutura, diversificar receitas em logística para saúde, agronegócio e governo) são lentas por natureza. Não rendem manchetes nem resolvem trimestres. Mas são as únicas que, no horizonte de três a cinco anos, recolocam os Correios em pé.

É justo reconhecer que o atual ciclo de decisões caminha nessa direção. O Plano de Reestruturação aprovado em novembro de 2025 prevê, em três fases, medidas de ajuste imediato, reorganização logística e revisão mais profunda do modelo de negócios, com apoio de consultoria externa. Há expectativa de recuperação do lucro até 2027.

A LDO de 2026 abriu espaço para desconsiderar até R$ 10 bilhões em despesas ligadas a planos de reequilíbrio de estatais do cálculo da meta fiscal, e o Ministério da Fazenda já admitiu a possibilidade de aporte direto da União, condicionado à execução do plano. São passos importantes, e quero acreditar que serão executados com a paciência e a constância que a tarefa exige. Repito: a solução certa precisa do tempo certo. Mais do que isso, precisa que se respeite o tempo das soluções certas, mesmo quando a pressão por respostas rápidas é enorme.

Há ainda um ponto que não pode ser silenciado. Nenhum plano de reestruturação dos Correios será sustentável se a missão social da empresa continuar sendo financiada exclusivamente pela própria empresa. Garantir que o serviço postal chegue ao último vilarejo da Amazônia, ao sertão mais distante, à fronteira mais remota, é uma escolha civilizatória do Estado brasileiro, prevista na Constituição.

Em um país de dimensões continentais e desigualdades regionais profundas, essa capilaridade é o principal elo de integração nacional. É o que permite o transporte de urnas eletrônicas, a entrega dos livros didáticos, a aplicação simultânea do ENEM e do CNU, o Remédio em Casa, a resposta humanitária às enchentes. Nenhum operador privado fez isso, e nenhum fará. E o custo de manter essa capacidade, que é um ativo soberano, não pode recair apenas sobre o caixa de uma estatal que disputa o mercado de encomendas com gigantes globais sem nenhuma obrigação de universalização.

A regulamentação da lei 15.071/24 e o fim da taxa das blusinhas com a consequente restiutuição aos Correios da exclusividade no segmento internacional, é o primeiro passo concreto, de baixo custo fiscal e alto impacto, que ainda está disponível ao governo para reequilibrar essa equação. O segundo é desenhar, com calma e com técnica, um financiamento estável da universalização postal, que não dependa do humor do mercado de encomendas internacionais nem do preço do tempo perdido em decisões adiadas.

Saí dos Correios. Não saí da causa pública, e não saí do governo do qual continuo a fazer parte com a mesma convicção com que o integrei desde o primeiro dia. Por isso me permito esta análise com a tranquilidade de quem já não tem nada a defender além do interesse do país. Os Correios não pertencem a um partido, a um ministério ou a uma gestão. Pertencem aos brasileiros. Todos os brasileiros, inclusive os que vivem onde nenhuma outra estrutura logística chega. Salvar essa empresa é menos uma questão de balanço contábil do que de soberania logística. E salvá-la exige: tempo, foco e disposição para executar o plano até o fim, mesmo quando a manchete do dia seguinte não for tão boa quanto se gostaria.

A solução certa, repito, precisa do tempo certo. Que desta vez, finalmente, ela o tenha.

Fabiano Silva dos Santos

Fabiano Silva dos Santos

Advogado e ex-presidente dos Correios.

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