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O Paraguai como sintoma do custo financeiro do Brasil

Juros elevados, crédito caro e perda de competitividade empurram empresas brasileiras a enxergar o país vizinho como alternativa de sobrevivência.

domingo, 21 de junho de 2026

Atualizado em 19 de junho de 2026 16:53

Durante muito tempo, o Paraguai foi observado pelo empresariado brasileiro quase exclusivamente sob a lógica da fronteira comercial, do consumo ocasional e da diferença pontual de preços, como se o país vizinho ocupasse, no imaginário econômico nacional, um espaço restrito às compras, ao turismo rápido e às oportunidades episódicas de arbitragem entre mercados próximos. Essa leitura, contudo, tornou-se insuficiente diante de um movimento mais profundo, no qual empresários brasileiros passaram a enxergar o Paraguai não apenas como destino de conveniência, mas como alternativa concreta de reorganização produtiva, preservação de margem e busca por um ambiente econômico menos hostil à atividade empresarial.

A questão, portanto, não se resume à carga tributária, embora ela tenha peso evidente na tomada de decisão. Tampouco pode ser explicada apenas por preferência ideológica, planejamento patrimonial ou simples internacionalização empresarial. O que se percebe, em muitos casos, é uma reação prática de empresas pressionadas por juros elevados, crédito caro, margens comprimidas, sucessivas renegociações bancárias e perda progressiva de previsibilidade operacional. O empresário brasileiro não olha para o Paraguai somente porque deseja pagar menos impostos; olha porque, no Brasil, muitas vezes, produzir, vender e empregar já não são movimentos suficientes para recompor o caixa, preservar capital de giro e sustentar a continuidade da operação.

A dívida empresarial deixou de ser, para parcela relevante do setor produtivo, instrumento de expansão e passou a funcionar como mecanismo de sobrevivência. Empresas recorrem a capital de giro para pagar fornecedores, antecipam recebíveis para honrar folha, renegociam contratos bancários para evitar a inadimplência imediata e, não raro, substituem uma dívida cara por outra ainda mais complexa, com prazos mais longos, garantias mais pesadas e custo financeiro que se torna progressivamente incompatível com a geração operacional do negócio. O passivo, nesse contexto, deixa de financiar crescimento e passa a financiar a própria permanência da atividade econômica.

É justamente nesse ponto que o custo Brasil revela a sua face financeira, pois o debate público, embora costume concentrar suas críticas na carga tributária, na burocracia estatal e na insegurança jurídica, muitas vezes deixa em segundo plano um componente igualmente decisivo para a sobrevivência empresarial: o custo do dinheiro. Em um ambiente de juros estruturalmente elevados, a empresa que depende de crédito para atravessar ciclos de baixa liquidez passa a disputar espaço não apenas com seus concorrentes naturais de mercado, mas com o próprio serviço da dívida, que consome margem, reduz capacidade de investimento e transforma faturamento em mera recomposição de passivos.

Os dados recentes sobre o Paraguai ajudam a dimensionar esse contraste. Levantamentos divulgados pela imprensa econômica apontam que o país já atraiu 232 empresas brasileiras desde 2007 para atuar no regime de maquila, modelo voltado à produção para exportação, com tributação reduzida e incentivos à importação de máquinas, matérias-primas e insumos. O número é expressivo porque as empresas brasileiras representam aproximadamente 70% das mais de 320 maquiladoras estrangeiras instaladas no país vizinho, o que demonstra que o movimento deixou de ser episódico e passou a integrar a estratégia concreta de reorganização produtiva de parte do empresariado nacional.

A diferença de custo explica parcela relevante dessa escolha. Enquanto empresas enquadradas no regime de maquila suportam, em média, custos combinados de impostos e encargos trabalhistas próximos de 12%, no Brasil esse percentual pode alcançar cerca de 80%, a depender do setor e da estrutura operacional. Além disso, o regime paraguaio permite, em regra, tributação de 1% sobre o valor agregado, prevê benefícios relacionados à importação de máquinas e matérias-primas e se combina a um ambiente trabalhista de menor onerosidade, no qual o custo do empregado formal pode ser de 30% a 40% inferior ao brasileiro.

Esse ambiente produz efeitos econômicos concretos e não pode ser tratado como fenômeno marginal. As empresas brasileiras instaladas sob o regime de maquila empregam cerca de 25 mil pessoas no Paraguai, enquanto as dez maiores maquiladoras brasileiras em operação no país vizinho alcançaram receita de exportação de aproximadamente US$ 1,3 bilhão em 2025. O dado é relevante porque revela que a discussão não envolve apenas pequenos empreendedores em busca de redução pontual de despesas, mas cadeias produtivas organizadas que passaram a enxergar o Paraguai como plataforma industrial, logística e exportadora.

Nesse contexto, não se trata de atribuir às instituições financeiras a condição simplista de vilãs da atividade produtiva, pois bancos e cooperativas operam sob critérios de risco, capital, inadimplência e regulação. A questão é mais profunda e está na assimetria sistêmica que se forma quando o empresário chega à mesa de renegociação já fragilizado, com caixa pressionado, garantias comprometidas e baixa capacidade de escolha, aceitando encargos elevados e alongamentos sucessivos que, embora aliviem a urgência do mês, muitas vezes preservam uma dívida que continua crescendo em velocidade superior à geração operacional da empresa. O resultado é uma empresa formalmente ativa, com funcionários, contratos e faturamento, mas economicamente sufocada por uma estrutura financeira que lhe retira oxigênio.

É daí que surge a força simbólica do Paraguai nesse debate. O país vizinho passou a ser percebido por parte do empresariado brasileiro como um ambiente de menor complexidade, menor custo operacional e maior previsibilidade para determinadas estruturas produtivas, especialmente quando se considera a lei de Maquila, os incentivos voltados à exportação, os encargos trabalhistas reduzidos e uma lógica tributária mais simples. Esses fatores, por si só, já seriam suficientes para explicar parte do movimento, mas, para o empresário brasileiro endividado, há algo que ultrapassa a planilha comparativa de custos: há a percepção de que o ambiente de negócios pode permitir alguma recomposição de fôlego, em vez de apenas prolongar o estado permanente de sobrevivência.

O fenômeno também aparece na movimentação de pessoas físicas. Em 2025, o Paraguai concedeu 40,6 mil autorizações de residência a estrangeiros, das quais 23,5 mil foram destinadas a brasileiros, número muito superior ao de argentinos, segundo grupo mais representativo. Apenas nos três primeiros meses de 2026, já haviam sido emitidas 9,2 mil autorizações para brasileiros. Ainda que parte desse movimento seja influenciada por fatores políticos, ideológicos ou pessoais, ele reforça uma percepção econômica objetiva: há um contingente crescente de brasileiros que passou a enxergar o Paraguai como alternativa concreta de vida, renda, investimento e reorganização patrimonial.

Esse movimento, contudo, não pode ser romantizado como se a simples transferência de operação, abertura de filial, constituição de empresa no exterior ou reorganização de uma etapa da cadeia produtiva fosse capaz de corrigir problemas estruturais internos. Uma empresa excessivamente alavancada, sem governança financeira, sem controle real de caixa ou dependente de renegociações bancárias sucessivas não se torna saudável apenas porque muda de jurisdição. O Paraguai pode reduzir custos e ampliar competitividade em determinados modelos, mas não corrige contratos mal negociados, expansão sem planejamento, ausência de gestão financeira ou dependência crônica de crédito caro.

Por isso, qualquer decisão empresarial séria exige diagnóstico prévio e não pode ser conduzida apenas pelo entusiasmo da comparação tributária. Antes de atravessar a fronteira, é indispensável compreender a composição do endividamento, o custo efetivo das operações financeiras, a qualidade das garantias prestadas, a dependência de fornecedores, a estrutura societária, os riscos tributários, a logística, a aderência do modelo produtivo ao novo ambiente e a viabilidade operacional da mudança. Sem essa leitura, a internacionalização deixa de ser estratégia e passa a ser apenas deslocamento geográfico de um problema que continuará existindo.

O ponto central, portanto, não está em saber se o Paraguai se tornará ou não o novo destino de parte da indústria brasileira, mas em compreender por que tantos empresários passaram a enxergar a saída do Brasil como alternativa racional de preservação da própria atividade.

Quando o empresário precisa considerar a mudança de país para voltar a respirar, o problema já ultrapassou a esfera empresarial e passou a revelar uma deficiência estrutural do próprio ambiente de negócios brasileiro.

Paulo Bernardino

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