MIGALHAS DE PESO

  1. Home >
  2. De Peso >
  3. O apagão jurídico: Quem sustentará a tese quando a internet cair?

O apagão jurídico: Quem sustentará a tese quando a internet cair?

A escada sem degraus: o risco da erosão cognitiva e o futuro da advocacia na era da inteligência artificial.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Atualizado às 15:23

Não há como negar: a inteligência artificial é fascinante. Estamos cruzando o portal da Quarta Revolução Industrial, e essa tecnologia deixou de ser um mero acessório de produtividade para se tornar o motor do nosso progresso. A IA já salva vidas ao diagnosticar doenças com uma precisão cirúrgica, nos liberta de tarefas burocráticas maçantes e nos devolve o ativo mais precioso do mundo: o tempo. Ela flerta com a eficiência perfeita e desenha um novo padrão de qualidade de vida. Sou um entusiasta confesso dessa evolução; utilizo-a diariamente para me tornar mais rápido, agudo e estratégico.

O verdadeiro entusiasmo exige lucidez. Não podemos nos dar ao luxo da miopia diante dos efeitos colaterais, nem abraçar a IA com uma ingenuidade cega. Ela precisa ser governada com firmeza, pois o amanhã das nossas profissões está sendo hipotecado em nome de ganhos de produtividade a curto prazo.

O diagnóstico não aponta para um futuro distante. Ele se impõe agora, diante dos nossos olhos, nas salas de reunião e nos escritórios de advocacia, consultoria, finanças, marketing, contabilidade, design e engenharia. Ao assumir o trabalho de base, a inteligência artificial esvazia silenciosamente as posições juniores. O trabalho que costumava lapidar e moldar toda uma geração - a pesquisa exaustiva, os primeiros rascunhos, a digestão de dados brutos - agora é entregue a ferramentas que resolvem o problema em minutos. Para os relatórios trimestrais, isso é maravilhoso. Para o desenvolvimento do potencial humano, é um abismo sem precedentes.

A razão é simples, embora convenientemente esquecida. Ninguém nasce mestre. O atrito era o verdadeiro treino.

O atrito era o treino

Imagine um piloto de avião que treinou a vida inteira apenas em simuladores automáticos, sem nunca ter sentido o solavanco de uma turbulência real na cabine. O que acontece quando o sistema falha e ele precisa assumir o manche manualmente no meio de uma tempestade? É esse o tipo de piloto que corremos o risco de formar no mercado corporativo.

A pessoa em quem você confia hoje para resolver os problemas mais complexos da sua empresa transformou-se nesse profissional ao errar à meia-noite. Ao receber feedbacks brutalmente honestos sobre um relatório mal feito. Ao sentar-se silenciosamente no canto de uma sala de reuniões apenas para absorver o tom de voz e a dinâmica dos mais experientes. O talento crítico era forjado no tédio do começo. Na falha pequena, cometida quando as apostas ainda eram baixas e o erro era pedagógico, não fatal.

Como bem aponta Tom Slater, gestor de investimentos e sócio da Baillie Gifford, a inteligência artificial funciona como um poderoso multiplicador de forças que amplifica as vantagens já existentes. Ela torna um especialista sênior extraordinariamente produtivo, mas torna o novato dependente e, por consequência, descartável. Ao removermos o atrito inicial do aprendizado, estamos trocando o pensamento profundo e o discernimento de longo prazo por respostas rápidas e fáceis. O custo invisível dessa transição é a erosão silenciosa da memória e do julgamento crítico.

Quando removemos o degrau de entrada, o que acontece com o resto da escada? Em dez anos, quem serão os líderes capazes de navegar por ambiguidades reais? Quem terá julgamento de fato? Quem saberá o que fazer quando não houver um modelo pronto, um prompt calibrado ou uma ferramenta que já conheça a resposta? Certamente não será alguém que passou o início da carreira sem nunca precisar pensar sozinho.

O caso do Direito: A IA não cria o futuro

Meus mais de 35 anos de advocacia provaram uma máxima implacável: é como o ferro ao fogo que você se molda e se fortalece. Essas décadas nos tribunais me exigiram criar musculatura mental e um raciocínio crítico, sensível e humanizado, capaz de prever possibilidades imediatas e cenários não previstos no momento. É essa casca que a automação ameaça limar.

A máquina entrega exatamente o que você quer, para ambos os lados. Faça o teste: sente-se de um lado da mesa, questione-a e ela lhe dará uma tese. Depois, mude de lado, vá para o outro extremo da mesa e volte a questioná-la - desta vez, em desfavor da primeira resposta. Você verá o resultado. A máquina responde o que você quer ouvir. O algoritmo vende um peixe sedutor, mas é preciso ter conhecimento profundo, perspicácia e ceticismo para não comprá-lo de olhos fechados.

Essa necessidade de agudeza humana se torna flagrante no Direito. Existe a ilusão de que, pelo fato de a IA cruzar milhares de julgados e redigir petições em segundos, o trabalho de base do advogado tornou-se obsoleto. Trata-se de um erro conceitual perigoso. Para compreender o tamanho do risco, abandonemos a teoria e vislumbremos dois cenários reais:

  • O apagão da muleta digital: a internet cai minutos antes de um prazo fatal. O advogado precisa resolver, com urgência máxima, uma equação jurídica de alta complexidade. Ele olha para a tela escura e se vê completamente privado de recorrer à IA.
  • O teste de fogo do tribunal: o profissional está no meio de uma audiência de instrução, sem Wi-Fi. Ele precisa sustentar uma tese de improviso, formular razões finais orais na hora ou inquirir testemunhas cujos depoimentos acabaram de desviar drasticamente do roteiro esperado.

Qual é o desfecho provável para o profissional que foi treinado por algoritmos? O apagão intelectual.

Diante disso, cabe a pergunta incômoda: nas futuras entrevistas de emprego, você vai levar a IA ou apenas o seu cérebro? Como você pretende resolver uma prova técnica ou uma crise de bastidores se desplugarem a máquina?

O risco não é futurista; ele já é presente. Já temos, hoje, os "advogados Google" - profissionais que sabem onde buscar a informação, mas não sabem o que fazer com ela quando a encontram.

Sem o sinal de internet para pensar por ele, o advogado puramente tecnológico é desarmado. Ele não tem repertório internalizado, não desenvolveu o músculo do raciocínio rápido e não possui a malícia jurídica que só o atrito do erro ensina. Começa a suar frio e entrar em estado de choque.

Essa percepção dialoga diretamente com as advertências históricas do jurista Lenio Streck sobre o risco de um "neotaylorismo" no Direito, onde a obsessão pelo automatismo sacrifica a hermenêutica profunda em prol de uma linha de produção alienante. O advogado tecnológico sabe operar a ferramenta, mas desaprende a operar a própria mente sob pressão.

O verdadeiro advogado não trabalha com a letra fria da lei; ele pensa a própria construção legislativa. O papel do jurista de excelência é olhar para o presente e para o futuro, percebendo quando aquilo que fazia sentido no passado perdeu a sua razão de ser. É exatamente dessa fratura - quando o humano percebe que o precedente antigo já não responde à nova realidade social - que nascem as grandes teses que revolucionam a jurisprudência.

A máquina opera pelo retrovisor: ela analisa o que já foi feito para prever o padrão seguinte. Mas o avanço do Direito se faz pela ruptura do padrão. Essa perspicácia natural, puramente intuitiva e humana, jamais será alcançada por um algoritmo se não houver um profissional brilhante e intelectualmente preparado para assumir o comando da ferramenta. Se automatizarmos a juventude da advocacia e aceitarmos passivamente as respostas prontas do sistema, matamos na raiz a capacidade de criar os juristas que desafiam a própria lei.

O alerta dos especialistas: A erosão cognitiva

Essa preocupação não é isolada; o mercado e a academia começam finalmente a mapear esse abismo. Estudos do MIT alertam para o risco real de "erosão cognitiva" em jovens profissionais. Especialistas ouvidos pela Harvard Gazette apontam que a automação massiva diminui a nossa capacidade de reflexão e avaliação profunda.

Pesquisas no setor jurídico global - envolvendo firmas de peso como Baker McKenzie e A&O Shearman - confirmam o receio: sem o "trabalho de volume", os novos advogados correm o risco de aceitar respostas geradas por IA de forma passiva, sem qualquer escrutínio ou questionamento. O erro está sendo documentado em dados: uma análise do Stanford Digital Economy Lab revelou uma queda drástica no emprego de jovens profissionais em setores tecnológicos. As empresas estão eliminando a base sob a falsa premissa de que a máquina substitui o trabalhador em formação.

A ilusão da eficiência e o retrocesso da inclusão

Há ainda um efeito colateral silencioso e perverso nessa pressa tecnológica: o risco de colapso nas políticas de inclusão e diversidade. Sem perceber, as organizações podem retroceder décadas, criando um processo de exclusão ainda maior.

As vagas juniores são como as rampas de acesso de um edifício público. Quando as eliminamos em nome da automação rápida, fechamos a maior avenida de mobilidade social do mercado corporativo. É na base que jovens de minorias sociais conquistam o seu primeiro espaço para provar o seu valor.

Esse cenário afeta igualmente os profissionais 50+. Em uma era de longevidade, onde um profissional maduro vai dar os seus primeiros passos em uma nova área se os degraus de entrada foram automatizados? A IA acaba por blindar o mercado de trabalho, empurrando quem precisa se reinventar para a margem. Além disso, quebra-se a ponte de mentoria. O profissional 50+, detentor de uma sabedoria prática e emocional insubstituível, perde os "aprendizes" a quem transmitir o seu legado.

A reconfiguração invisível: O capital humano esgotado

O problema central transcende a mera dinâmica de contratação; ele atinge a própria biologia do pensamento. Tom Slater traz uma perspectiva contundente: a inteligência artificial não está apenas mudando o que fazemos, ela está reconfigurando os nossos cérebros à medida que a usamos, exatamente como a escrita e a alfabetização fizeram em gerações passadas.

Os ganhos espetaculares de produtividade que celebramos hoje nos relatórios financeiros estão sendo obtidos a partir de um estoque de capital humano que simplesmente não estamos repondo. Estamos queimando o óleo de uma expertise fundamental que a máquina é incapaz de gerar sozinha, mas da qual ela depende desesperadamente para ser gerida, verificada e auditada com eficácia.

Trata-se de um alvo móvel perigoso. Na visão de Slater, se permitirmos que a IA elimine os caminhos de aprendizado que constroem o julgamento crítico, a atual geração de profissionais seniores poderá ser a última a se beneficiar da tecnologia. A geração seguinte corre o risco de não possuir as habilidades básicas que tornam a própria colaboração com a IA valiosa.

A IA impõe limites à inteligência natural quando nos acomoda

É preciso desmistificar os mitos que circulam por aí. Existe uma narrativa perigosa de que a IA pode substituir o intelecto humano de ponta a ponta. Dar uma IA de última geração a quem não tem base crítica é o equivalente a entregar um carro de Fórmula 1 a quem não tem carteira de habilitação. A probabilidade de um desastre é exata. Ninguém será capaz de pilotar uma máquina de alta performance sem conhecimentos profundos de comando, capacidade de interpretação, audácia para questionar e raciocínio crítico.

Se o profissional não sabe o que está pedindo à máquina, ele se torna refém do que ela decide entregar. A ferramenta entrega velocidade, mas o humano tem que entregar a direção.

A sociedade ainda precisa - e sempre precisará - de engenheiros que dominem a física real de uma ponte, de advogados que compreendam as nuances éticas de um litígio inédito e de financistas que saibam ler os sinais humanos de uma crise. A IA expande a capacidade de execução, mas é incapaz de assumir a responsabilidade final. Sem humanos criticamente preparados para validar, refinar e auditar as respostas do software, o sistema colapsará sob o peso de alucinações tecnológicas aceitas de forma cega.

Quase ninguém nas salas de conselho está fazendo a pergunta certa. Todos continuam obcecados com o óbvio: "A IA vai tirar os nossos empregos?"

A verdadeira pergunta, aquela que ditará a sobrevivência das organizações e a sanidade das próximas gerações, é muito mais desconfortável: "Como vamos garantir a evolução da inteligência humana na era da automação perfeita?"

Se a IA vai reinstalar a fiação da nossa mente, a urgência não é adotar a tecnologia mais rápido do que a concorrência. No novo ecossistema que se desenha, as instituições e os indivíduos que verdadeiramente vão prosperar não serão os que mais utilizam a IA, mas sim aqueles que salvaguardarem a capacidade de pensar sem ela.

__________

STRECK, Lenio Luiz. Críticas ao "neotaylorismo" digital e o esvaziamento da hermenêutica jurídica na advocacia automatizada. Ensaios publicados na coluna Senso Incomum (Consultor Jurídico - ConJur).

MIT SLOAN SCHOOL OF MANAGEMENT / CSAIL. Estudos empíricos sobre a delegação técnica (cognitive offloading) e o fenômeno da atrofia analítica em ambientes corporativos automatizados.

THE HARVARD GAZETTE. Relatórios comportamentais e análises de cientistas cognitivos sobre a redução do atrito reflexivo na tomada de decisões assistidas por algoritmos.

BAKER MCKENZIE / A&O SHEARMAN. Relatórios corporativos globais de risco e comitês de governança sobre o uso de IA generativa e a dependência crítica de advogados associados.

STANFORD DIGITAL ECONOMY LAB. Dados e pesquisas quantitativas sobre a reconfiguração de postos de trabalho de nível inicial (entry-level positions) em decorrência da automação massiva.

SLATER, Tom (Baillie Gifford). Cartas anuais aos investidores e análises de mercado sobre o estoque de capital humano, assimetria tecnológica e auditoria de inteligência artificial.

Márcio Aguiar

VIP Márcio Aguiar

Sócio Fundador da Corbo, Aguiar & Waise Advogados. Especialista em Direito Empresarial e Internacional. Colunista. Ex-Diretor Jurídico da Câmara de Comércio Luso Brasileira. Co-Autor da EDD.