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A ilusão do "serviço gratuito" e a revolução silenciosa da opinião pública no Brasil

O artigo defende que o debate sobre serviços públicos deve se concentrar menos na ideia de gratuidade e mais na relação entre arrecadação, eficiência estatal e retorno ao contribuinte.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Atualizado às 16:42

O eufemismo ou a ironia da expressão "serviço público gratuito" está enraizada no discurso político brasileiro. Saúde, educação e outros serviços estatais costumam ser apresentados como prestações gratuitas oferecidas pelo Estado à população. Entretanto, do ponto de vista econômico, nenhum serviço público é efetivamente gratuito: Hospitais, escolas, estradas, segurança pública e programas sociais são financiados por tributos ou preços públicos cobrados da sociedade local, estadual ou federal. A questão central, portanto, não é saber se esses serviços custam dinheiro, mas, sim, se o retorno proporcionado pelo Estado corresponde ao elevado volume de recursos arrecadados dos contribuintes.

O Brasil figura entre os países de maior carga tributária entre as economias emergentes. Segundo dados bem recentes, os valores compulsórios correspondem a 34,35% do PIB de 2025 se incluirmos os valores pagos a título de tributação ao Sistema S (SESI, SENAI, SESC, SEST, SENAT, SESCOOP, SEBRAE, ABDI, APEX-Brasil) e valores dos trabalhadores ao FGTS - Fundo de Garantia por Tempo de Serviço1, percentual superior ao de diversos países latino-americanos e próximo ao de economias desenvolvidas. Apesar disso, a percepção da população é de que serviços essenciais, especialmente saúde, educação, segurança pública e infraestrutura, não apresentam qualidade compatível com o montante arrecadado. A própria discussão sobre reforma tributária, responsabilidade fiscal e eficiência do gasto público decorre, em grande medida, do descompasso entre arrecadação efetiva que a todo momento bate recordes e o retorno social.

Essa percepção reflete na opinião pública. A pesquisa Datafolha realizada em junho de 2026 revelou que 50% dos brasileiros preferem pagar menos impostos e contratar, com recursos próprios, serviços privados de saúde e educação, enquanto 44% optariam por pagar mais tributos para receber esses serviços gratuitamente do Estado.2 Em relação ao levantamento realizado em 2022, há uma inversão da preferência da população, indicando maior valorização da autonomia individual na contratação dos serviços. O resultado da pesquisa evidencia que parcela crescente dos brasileiros está insatisfeita com a relação entre o que paga em tributos e aquilo que recebe em serviços públicos.

Reacende-se, nesse contexto, o debate sobre a quantidade de tributos paga e a eficiência de sua utilização. O exemplo internacional demonstra que sistemas tributários menos onerosos estimulam investimentos, inovação e produtividade ao permitir que empresas e indivíduos preservem maior parcela de sua renda para consumo, poupança e investimento. A menor tributação tende a reduzir custos de produção, aumentar a competitividade das empresas, fluxo de caixa e ampliar a capacidade de formação de capital privado. Evidentemente, tais benefícios dependem de diversos fatores institucionais, como estabilidade econômica, segurança jurídica, não intervenção estatal e qualidade regulatória, não sendo consequência automática da redução de impostos, mas, sem sombra de dúvidas, é inegável que esse é um fator decisivo.

Sob a perspectiva do cidadão, um sistema com menor carga tributária também amplia sobremaneira a liberdade de escolha e incentivo à produção. Ao invés de financiar previamente um serviço estatal padronizado e muitas vezes sem qualidade, o indivíduo passa a decidir onde investir seus próprios recursos, escolhendo, por exemplo, a escola dos filhos, o plano de saúde ou o hospital que melhor atendam às suas necessidades. A competição entre prestadores privados incentiva melhorias contínuas na qualidade, na eficiência e na inovação, uma vez que empresas precisam conquistar e manter consumidores.

Entre os exemplos internacionais frequentemente citados nesse debate destaca-se o de Singapura, Estado considerado mais competitivo e rico do mundo3, quando a renda per capita dos cidadãos é medida pelo custo de vida local ou o poder de compra real dos moradores do país asiático. A cidade-estado combina um sistema de tributação relativamente baixa com um sistema de poupança compulsória, que permanece sob a titularidade do cidadão, ao invés de impor uma alta tributação sob a justificativa do oferecimento gratuito de serviços públicos. Em Singapura, a alíquota máxima do imposto de renda (IR) da pessoa física gira em torno de 20% e o IR das empresas possui alíquota nominal de 17%, acompanhada de mecanismos de incentivo para pequenas e médias empresas. Já o imposto sobre bens e serviços (GST) é de 9%. Além disso, o país não tributa ganhos de capital e dividendos.

O diferencial, contudo, está no sistema denominado CPF - Central Provident Fund. Como a tributação é relativamente reduzida, o governo não assume integralmente a responsabilidade pelo financiamento da aposentadoria ou das despesas médicas do cidadão. Em contrapartida, empregadores e trabalhadores devem destinar parte da remuneração para contas individuais administradas pelo governo. Os recursos são distribuídos entre contas específicas destinadas à moradia ou educação (ordinary account), à aposentadoria (special/retirement account) e ao custeio de despesas médicas (medisave account). O dinheiro permanece vinculado ao trabalhador, rende juros e somente pode ser utilizado nas finalidades legalmente e estritamente previstas, conforme disponibilidade orçamentária rígida. Assim, o patrimônio permanece em nome do cidadão e sua utilização e fiscalização é disciplinada pelo Estado.

No Brasil, a discussão vai ao encontro à opinião pública. Além da preferência majoritária por pagar menos impostos e contratar diretamente serviços privados, a pesquisa Datafolha revelou que 44% dos eleitores brasileiros afirmam identificar-se mais com posições políticas de direita, enquanto 39% declaram maior identificação com a esquerda.4 A pesquisa sugere uma crescente receptividade social a propostas que enfatizam menor intervenção estatal, maior autonomia individual e fortalecimento da iniciativa privada. As pessoas começam a entender que o discurso politicamente correto não é o do gosto pelo pobre, mas sim o do combate à pobreza, à miséria, e, sobretudo, de políticas públicas de incentivo à riqueza e autorresponsabilidade.

Em última análise, chega-se a acertada reflexão filosófica do estadista alemão Otto von Bismarck que dividia as nações em três categorias de povos com base em como eles lidam com os erros: (i) os inteligentes que aprendem com a experiência alheia e observam os erros dos outros para não os repetir; (ii) os medíocres que só aprendem com a sua própria experiência e, por conseguinte, precisam errar e sofrer pessoalmente para entender algo; (iii) os idiotas que nunca aprendem e ecoam toda vez os mesmos erros repetidamente sem aprender nenhuma lição. Verdadeiramente, o debate não diz respeito à existência de serviços públicos gratuitos, mas à forma como a sociedade escolhe financiá-los. Todo serviço estatal possui um alto custo suportado pelos contribuintes. A experiência brasileira demonstra crescente insatisfação com a relação entre tributação e qualidade dos serviços oferecidos, enquanto modelos como o de Singapura mostram que é possível estruturar mecanismos alternativos de financiamento baseados em poupança, responsabilidade individual e coordenação estatal.

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1 Disponível em:
https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/04/10/tesouro-nacional-estima-que-carga-tributaria-somou-324percent-do-pib-em-2025-e-bateu-novo-recorde.ghtml, acesso em 13 de julho de 2026.

2 Disponível em: https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/pesquisa-eleitoral/noticia/2026/07/04/datafolha-pagar-menos-impostos-a-ter-servicos-publicos.ghtml, acesso em 13 de julho de 2026.

3 Disponível em: https://exame.com/mundo/como-singapura-ficou-tao-rica/, acesso em 13 de julho de 2026.

4 Disponível em: https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/pesquisa-eleitoral/noticia/2026/07/03/datafolha-esquerda-direita.ghtml, acesso em 13 de julho de 2026.

Edvaldo Nilo de Almeida

Edvaldo Nilo de Almeida

Pós-doutor pela Universidade de Salamanca, doutor em Direito Constitucional pela PUC-SP, procurador do Distrito Federal e Conselheiro do CNMP.