O plantio e a colheita: O que a geração Z e os millennials revelam sobre o futuro do mercado jurídico
O artigo aborda o futuro do mercado jurídico a partir das novas gerações, destacando desafios, propósito, tecnologia e a necessidade de construir uma carreira com escolhas conscientes.
terça-feira, 28 de julho de 2026
Atualizado em 27 de julho de 2026 17:57
A Deloitte Global acaba de publicar a 15ª edição de sua pesquisa sobre as gerações Z e Millennials, com a participação de mais de 22.500 jovens de 44 países. No recorte brasileiro, foram 804 respondentes: 501 da geração Z e 303 Millennials. Os dados são reveladores e, ao mesmo tempo, suscitam uma pergunta que raramente aparece nos relatórios: estamos lendo esses números com honestidade ou apenas com o filtro do que é confortável enxergar?
Faço essa pergunta porque atuo no mercado jurídico há anos, cuido da gestão de uma banca boutique em Brasília e acompanho, de perto, as dúvidas, as escolhas e as expectativas de profissionais em início e meio de carreira. O que vejo no dia a dia é, muitas vezes, o que os dados confirmam. E o que os dados confirmam merece uma leitura que vai além.
Dinheiro, decisões e a conta que não fecha
Conforme a pesquisa, 45% dos jovens da geração Z e 36% dos Millennials brasileiros afirmam ter adiado decisões importantes de vida devido à situação financeira. O percentual dos jovens brasileiros que vivem de salário em salário é de 47%, superior à média global de 34%. Entre os Millennials, 51% dizem não conseguir comprar um imóvel, contra 40% no mundo.
Não há como ignorar esses números. A vida ficou cara, o mercado de trabalho mudou e, em muitos aspectos, a trajetória financeira das novas gerações é genuinamente mais incerta do que a das gerações anteriores. Dito isso, a narrativa que se popularizou, a de que a dificuldade é sempre externa e que a solução está em mudar o sistema enquanto se espera os resultados chegarem, deixa de fora uma parte importante da equação.
O mercado jurídico brasileiro nunca foi generoso nos primeiros anos de carreira. Não era nas gerações anteriores e não é agora. A diferença é que as gerações anteriores sabiam que estavam plantando sem colheita imediata e faziam isso conscientemente. Trabalhavam mais, dormiam menos e construíam capital profissional antes de esperar um retorno financeiro proporcional. Não porque eram mais resistentes por natureza. Na verdade, esta era uma escolha clara, com consequências esperadas, mas tudo isso antes da popularização da internet, com seus "resultados fáceis e rápidos".
Quando se quer a colheita sem ter clareza sobre o que foi plantado, ou se algo foi plantado de verdade, a conta nunca vai fechar. E isso não é uma crítica geracional. É uma descrição de como funciona qualquer profissão que exige construção a longo prazo.
O que as redes sociais fazem com a percepção de realidade
Há uma variável que a pesquisa da Deloitte não mede, mas que atravessa cada dado: o efeito das redes sociais na forma como as novas gerações enxergam o que é possível, o que é normal e o que deveria ser diferente.
O jovem que hoje entra na faculdade de Direito cresce consumindo conteúdo de advogados que exibem escritórios imponentes, causas milionárias, viagens entre as audiências e uma vida que parece conciliar tudo com facilidade. O que esse conteúdo nunca mostra: os dez anos anteriores de advocacia deficitária, os finais de semana perdidos, os clientes que sumiram, os processos que saíram mal e as dezenas de decisões difíceis que antecederam aquele momento.
As redes sociais, por sua própria natureza, exibem uma fração da realidade, sempre a mais brilhante. O problema não é que o conteúdo existe. O problema é que muitos profissionais consomem esse conteúdo sem o filtro do pensamento crítico, comparando seu bastidor ao palco alheio e concluindo que algo está errado com sua trajetória quando, na verdade, estão simplesmente no meio do processo.
Formamos profissionais para analisar provas, questionar presunções e construir argumentos sólidos. Esse mesmo rigor precisa ser aplicado ao que se consome sobre carreira. Um advogado que não sabe distinguir narrativa de realidade nas redes sociais dificilmente será capaz de fazer distinções relevantes em outras frentes que importam muito mais.
A liderança que se quer sem o preço que ela cobra
A pesquisa traz um dado que me parece central para quem atua com o desenvolvimento de carreiras jurídicas. Sessenta e nove por cento dos jovens da geração Z e 74% dos Millennials brasileiros dizem ter interesse em ocupar cargos de liderança em algum momento. No entanto, apenas 6% e 8%, respectivamente, apontam a liderança como objetivo primário de carreira. O que aparece no topo das prioridades é equilíbrio entre vida pessoal e profissional, citado por 28% dos jovens da geração Z e 32% dos Millennials.
Não há contradição nisso em termos de desejo. O problema surge quando a expectativa de chegar a posições de liderança coexiste com a recusa em assumir os custos que essas posições exigem na prática. Sócio de escritório, líder de área, gestor de equipe jurídica: esses papéis carregam responsabilidade permanente, disponibilidade nos momentos inconvenientes e a obrigação de sustentar decisões difíceis. A gestão de um time jurídico não termina em um horário fixo. Um cliente em crise não escolhe a data e o horário para procurar o advogado.
Querer os atributos da liderança, reconhecimento, autonomia, remuneração proporcional, sem querer o que ela de fato exige, gera um desalinhamento que prejudica, antes de tudo, o próprio profissional. Escolher um caminho de menor intensidade é legítimo e perfeitamente coerente com uma vida bem construída. O que não funciona é não escolher e ficar no meio-termo, insatisfeito dos dois lados, sem entender por quê.
Bem-estar não é ausência de esforço
Seria desonesto tratar o Tema do bem-estar apenas como uma exigência excessiva. A pesquisa mostra que 38% dos jovens da geração Z e 32% dos Millennials brasileiros se sentem estressados o tempo todo ou na maior parte do tempo. Entre os fatores que mais contribuem para a ansiedade no trabalho, a longa carga horária aparece em primeiro lugar, citada por 69% dos jovens brasileiros, percentual bem acima da média global. A falta de reconhecimento adequado pelo trabalho realizado vem em seguida, com 57%.
O mercado jurídico tem um histórico de naturalização do esgotamento. Cultura de longas jornadas, hierarquias fechadas ao diálogo e ambientes que tratam a saúde mental como fraqueza são problemas reais, que impactam a qualidade do trabalho e a retenção de profissionais bons. Isso precisa mudar e, em muitos lugares, já está mudando. A pesquisa indica que 69% dos jovens brasileiros acreditam que seus empregadores levam a saúde mental a sério, e 65% se sentiriam confortáveis em conversar abertamente com seus gestores sobre o Tema.
A questão que fica é como o bem-estar é construído na prática. Bem-estar sustentável não significa ausência de esforço nem a eliminação de tudo aquilo que é difícil. Significa, sim, construir um trabalho que tenha sentido, com limites intencionais, e não apenas reativos ao cansaço. E o Direito, quando exercido com propósito, é uma das profissões que mais oferecem esse tipo de sentido.
Propósito como diferencial estrutural do Direito
Noventa e oito por cento dos jovens da geração Z e 100% dos Millennials brasileiros afirmam que ter senso de propósito é importante para a satisfação no trabalho. Além disso, 44% dos jovens já recusaram uma proposta de emprego por conflito com seus valores pessoais, percentual acima da média global de 41%.
O mercado jurídico tem, nesse ponto, uma vantagem estrutural frequentemente subestimada. Poucas profissões oferecem o que o Direito oferece: a possibilidade concreta de mudar a vida de uma pessoa, proteger um patrimônio construído ao longo de décadas, garantir direitos que seriam negados e reparar injustiças que parecem intratáveis. Cada processo, cada reunião, cada contrato tem um ser humano do outro lado com algo em jogo.
O problema é que esse propósito se perde facilmente nas rotinas técnicas, nas metas de horas e na pressão por resultados financeiros imediatos. Quando um escritório ou departamento jurídico torna visível o impacto real do trabalho que faz, transforma a relação dos profissionais com a própria carreira. Não porque resolve tudo, mas porque reconecta as pessoas ao motivo pelo qual começaram.
IA: Adaptar ou se tornar redundante
A pesquisa mostra que 87% dos jovens da geração Z e 91% dos Millennials brasileiros já utilizam IA no trabalho diário. 80% se dizem confiantes em usar IA em suas funções, frente a 68% da média global. O Brasil aparece aqui à frente da curva de adoção.
No Direito, esse movimento já é irreversível. Ferramentas de IA fazem pesquisa jurisprudencial em segundos, rascunham peças, analisam contratos em volume e identificam riscos em documentos extensos com uma velocidade que nenhum advogado consegue replicar manualmente. Recusar o aprendizado dessas ferramentas não preserva nada. Simplesmente coloca o profissional em desvantagem em relação a quem as domina.
Mas há algo que nenhuma ferramenta faz: argumentar com criatividade diante de um juiz resistente, ler o ambiente de uma negociação antes de qualquer palavra ser dita, construir confiança com um cliente que está vivendo um dos momentos mais difíceis da sua vida, tomar uma decisão ética em uma zona cinzenta sem um manual que diga o que fazer. A IA amplia o que o advogado consegue produzir. Não substitui o que ele precisa ser.
O futuro entrega o que foi plantado
A pesquisa da Deloitte retrata gerações em busca de sentido, estabilidade e trabalho que valha a pena. Isso é legítimo e, em muitos aspectos, representa uma evolução importante em relação a modelos anteriores que naturalizavam o esgotamento como virtude.
O que merece atenção, porém, é quando a busca por propósito e equilíbrio vira justificativa para adiar escolhas que precisam ser feitas. Toda carreira expressiva que vi de perto foi construída por pessoas que, em algum momento decisivo, deliberadamente escolheram plantar mais do que colher. Estudaram quando poderiam ter descansado. Ficaram quando poderiam ter saído. Assumiram responsabilidades antes de se sentirem prontas. Não por abnegação, mas porque tinham clareza suficiente para entender que o futuro se constrói agora.
As redes sociais mostram o resultado. Raramente mostram o processo. Uma geração que consome o resultado alheio sem entender o processo que o gerou corre o risco real de fazer escolhas baseadas em referências incompletas e, depois, se surpreender com a colheita que vier.
O mercado jurídico não precisa de uma geração que trabalhe mais. Precisa de uma geração que escolha com mais consciência, alinhe expectativas às próprias escolhas e entenda que o futuro não negocia: ele entrega, com fidelidade impressionante, exatamente o que foi plantado.
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Artigo elaborado com base nos dados do Deloitte Global 2026 Gen Z and Millennial Survey, Country Profile: Brazil, pesquisa realizada com 804 respondentes brasileiros (501 da geração Z e 303 Millennials), publicada em 2026.
Jenise Carvalho
Sócia fundadora e gestora do MJ Alves Burle e Viana Advogados.
