A IA já leu o Direito. Mas o Direito sabe ler a IA?
IA avança na Justiça, mas o uso sem preparo e responsabilidade técnica traz riscos. O desafio é fazer o Direito aprender a lidar com a tecnologia.
quinta-feira, 13 de agosto de 2026
Atualizado às 16:46
Se os dados são o novo petróleo, a inteligência artificial é o motor de combustão da nossa era. Em 2007, cinco das dez empresas mais valiosas do mundo estavam ligadas à exploração de petróleo. Dez anos depois, em 2017, sete das dez primeiras colocadas no ranking eram empresas de tecnologia. Alguém arrisca um palpite sobre qual será a proporção em 2027? Especialistas chamaram esse movimento de "a era dos dados como novo petróleo"1, a ponto da inteligência artificial ser comparada ao impacto das máquinas que ocasionaram a revolução industrial.
A revolução chega como um rolo compressor também na atividade jurídica. Pela primeira vez, o relatório Justiça em Números 20262, divulgado pelo CNJ, divulgou que há 428 milhões de processos armazenados na plataforma Sinapses, ferramenta desenvolvida para treinamento, compartilhamento, distribuição e auditoria de modelos de IA utilizados pelos tribunais do Brasil. Esses milhões de processos servem para a máquina aprender como automatizar rotinas, classificar documentos e identificar padrões.
Quando olhamos para as instituições ligadas ao Judiciário, vemos que 94% delas utilizam alguma forma de inteligência artificial3. E, há um mês, o próprio STJ alterou seu regimento interno4 para exigir um resumo estruturado nas petições, a fim de facilitar a leitura automatizada.
Globalmente, existem planos audaciosos: "Os Emirados Árabes Unidos se comprometeram a se tornar o primeiro "governo nativo de IA" até 2027, incorporando IA em todo o setor público"5.
A IA na Justiça?
Em maio deste ano, a Anthropic, criadora do Claude, lançou funcionalidades jurídicas6 diretamente na plataforma, como revisor de contratos, verificador de compliance e avaliador de risco jurídico. Porém, o plugin foi desenvolvido voltado para o Direito Norte Americano, e não o brasileiro. Há quem esteja usando sem saber dessa limitação, e aqui está o nó: a ferramenta avança mais rápido do que a capacidade de quem a usa de entender onde ela funciona e onde ela falha.
Há também diversos casos de decisões judiciais onde foram submetidos documentos gerados por IA com informações inventadas (as chamadas alucinações dos modelos de linguagem). Reforço que o problema não é o uso da ferramenta, é o uso sem critério, sem revisão e, principalmente, sem responsabilidade técnica.
Segundo o TIC Governo 2025, apenas 59% dos órgãos federais oferecem treinamento para uso de IA7. No setor privado, o questionamento sobre a capacitação para o uso das plataformas também precisa ser feito, e com celeridade, afinal quando algo dá errado, a responsabilidade é do advogado.
Milhões de processos e de razões para falar de IA
O ano de 2025 registrou o maior pico de demanda judicial da série histórica, com 1,4 milhão de casos novos8 a mais do que em 2024.
O portal Migalhas9 elaborou um exercício projetivo interessante, sugerindo um olhar para o aumento no número de casos na Justiça a partir do lançamento do Chat GPT, no fim de 2022. Se o ritmo observado nos últimos três anos fosse mantido, o número de casos novos na Justiça do Trabalho alcançaria cerca de 9,55 milhões em 2030; nos Juizados Especiais chegariam a cerca de 17,99 milhões de caso, e na Justiça estadual chegaria a cerca de 18,25 milhões de novos processos em 2030. Tratam-se de conjecturas e o próprio portal reconhece que faltam variáveis para uma análise conclusiva, mas ainda assim é uma projeção difícil de ignorar. Imagine o efeito sobre um Judiciário que já convive com volumes expressivos de litigância predatória e o quanto ferramentas generativas podem facilitar a atuação de quem age de má-fé.
Há quase dez anos, em 2017, John Cryan, na época presidente do Deutsche Bank, afirmou: "em nosso banco, temos pessoas trabalhando como robôs. Amanhã, teremos robôs se comportando como pessoas. Não importa se nós, enquanto instituição, participaremos ou não dessas mudanças. Elas vão acontecer"10. Cryan estava certo, só errou ao sugerir que a participação era opcional.
Estamos, coletivamente, num momento de uso sem maturidade. O que falta é responsabilidade técnica sobre uma ferramenta que ainda estamos aprendendo a usar e honestidade para admitir que a revolução chegou como rolo compressor. A IA já leu o Direito. Mas o Direito sabe ler a IA?
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1. https://www.economist.com/leaders/2017/05/06/the-worlds-most-valuable-resource-is-no-longer-oil-but-data
2. https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/2026/06/relatorio-justica-em-numeros2026.pdf
3. https://cgi.br/noticia/releases/ia-esta-presente-em-seis-de-cada-dez-orgaos-publicos-federais-e-estaduais-e-chega-a-94-no-judiciario-aponta-tic-governo/
4. https://www.migalhas.com.br/quentes/459546/stj-altera-regimento-exige-resumo-e-permite-repetitivos-no-virtual
5. https://www.techandjustice.bsg.ox.ac.uk/research/united-arab-emirates
6. https://claude.com/blog/claude-for-the-legal-industry
7. https://cgi.br/noticia/releases/ia-esta-presente-em-seis-de-cada-dez-orgaos-publicos-federais-e-estaduais-e-chega-a-94-no-judiciario-aponta-tic-governo/
8. https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/2026/06/relatorio-justica-em-numeros2026.pdf
9. https://www.migalhas.com.br/quentes/460332/surgimento-da-ia-coincide-com-aumento-no-ajuizamento-de-acoes
10. https://www.ft.com/content/398836c4-92e0-11e7-a9e6-11d2f0ebb7f0?syn-25a6b1a6=1
Sérgio Luiz Bernardelli Junior
Advogado do escritório Ernesto Borges Advogados com ênfase em Direito Securitário. Formado em Administração de Empresas pela UFMS, Mestrando em Direito pelo IDP Brasília e Pós-graduado em Direito Constitucional.
