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Histeria, crime, mídia e política: Reflexões criminológicas

O artigo discute a obra de Marc Schuilenburg e sua proposta de compreender a histeria como categoria sociológica para analisar medo, insegurança e polarização no mundo contemporâneo.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Atualizado em 4 de setembro de 2026 17:44

Introdução

Nas últimas décadas o Brasil tem assistido à intensificação de fenômenos marcados pela polarização política, pela amplificação de conflitos nas redes sociais, pelo crescimento de discursos de medo relacionados à criminalidade e pela disseminação de percepções de crise permanente. Temas relacionados à segurança pública, violência urbana, mudanças climáticas, manifestações políticas, corrupção, bem como à circulação de desinformação durante momentos críticos no país passaram a ser frequentemente debatidos em termos absolutos, acompanhados de reações emocionais intensas e da sensação de que a sociedade estaria constantemente diante de ameaças existenciais.

Embora essas dinâmicas assumam contornos particulares na realidade brasileira, elas também integram transformações mais amplas que têm marcado as democracias contemporâneas e despertado crescente interesse acadêmico. É justamente nesse contexto que se insere a obra Hysteria: Crime, Media, and Politics (2021), do criminólogo holandês Marc Schuilenburg, ao buscar compreender como a histeria, manifestada por meio do medo, de reações emocionais intensas e da percepção permanente de crise, passou a organizar o debate público nas sociedades atuais. Em vez de tratar a histeria como uma categoria médica pertencente ao passado, o autor propõe compreendê-la como uma lógica social que estrutura boa parte das relações políticas, midiáticas e culturais do presente.

Schuilenburg parte da constatação de que a histeria desapareceu dos manuais psiquiátricos, mas continua presente na vida cotidiana sob novas formas. O seu objetivo não é investigar sintomas clínicos individuais, mas compreender por que sociedades cada vez mais seguras, prósperas e tecnologicamente avançadas parecem produzir sentimentos permanentes de insegurança, ansiedade e indignação. O resultado é uma obra interdisciplinar que dialoga com a sociologia, a criminologia, a filosofia política e os estudos culturais, oferecendo um diagnóstico instigante da pós-modernidade.

Da doença ao fenômeno social

A primeira parte da obra reconstrói a história da histeria. Schuilenburg revisita as múltiplas interpretações do fenômeno ao longo dos séculos, desde as explicações da antiguidade, que associavam a histeria ao “útero errante”, passando pelas leituras religiosas que a vinculavam à possessão demoníaca, até as formulações médicas de Charcot e as interpretações psicanalíticas de Freud. O autor demonstra que a histeria sempre refletiu as preocupações centrais de cada época e funcionou como uma forma de expressar tensões sociais, medos coletivos e conflitos culturais.

A principal inovação da obra consiste em apresentar a compreensão da histeria não como uma patologia individual, mas sim como um fenômeno social. O seu interesse não está em diagnosticar indivíduos, mas em compreender por que determinadas questões públicas, como segurança, imigração, participação política ou transformações culturais, passam a despertar respostas emocionais intensas e recorrentes. Nesse sentido, a histeria opera como uma lente de análise capaz de revelar como sociedades contemporâneas produzem e organizam medos, frustrações e percepções de crise. Mais do que um sintoma médico, ela se converte em uma categoria sociológica que permite compreender por que temas distintos acabam mobilizando sentimentos semelhantes de insegurança, indignação e perda de controle.

Segurança, medo e a herança de Hobbes

Um dos capítulos mais interessantes da obra examina a relação entre histeria e segurança. Schuilenburg argumenta que a linguagem contemporânea da segurança continua profundamente influenciada pela filosofia política de Thomas Hobbes. O imaginário hobbesiano da “guerra de todos contra todos” permanece vivo em expressões como “guerra ao crime”, “guerra às drogas” e “guerra ao terror”. A mensagem subjacente é sempre a mesma: vivemos sob constante ameaça e somente um Estado forte pode nos proteger do caos.

O autor observa, entretanto, um paradoxo fundamental. Embora os índices de criminalidade em diversos países ocidentais tenham diminuído significativamente nas últimas décadas, a percepção de insegurança permanece elevada. A sensação de risco não desaparece porque ela é permanentemente alimentada por discursos políticos, pela cobertura midiática e por políticas públicas orientadas pela lógica da excepcionalidade. Surge, assim, o que Schuilenburg denomina “histeria da segurança”: uma tendência social de reagir ao risco residual como se estivéssemos diante de ameaças existenciais permanentes.

Essa reflexão possui enorme relevância para o contexto brasileiro. Nos debates públicos nacionais, frequentemente se verifica uma desproporção entre a complexidade dos problemas de segurança e a simplicidade das soluções apresentadas. A crença de que o endurecimento penal ou o aumento da repressão seriam respostas suficientes para problemas estruturais revela precisamente a lógica descrita por Schuilenburg: uma política movida por emoções coletivas que tende a simplificar questões extremamente complexas.

Redes sociais e a produção da indignação

Outro mérito significativo da obra é sua análise das redes sociais. Schuilenburg sustenta que plataformas digitais como Facebook, Twitter e Instagram não apenas refletem estados emocionais já existentes, mas também contribuem ativamente para sua amplificação. A lógica algorítmica privilegia conteúdos que despertam reações intensas, especialmente indignação, medo e revolta. Como resultado, a esfera pública passa a funcionar segundo uma dinâmica emocional em que os discursos mais radicais recebem maior visibilidade.

Nesse cenário, a histeria deixa de ser uma exceção e transforma-se em um modelo de comunicação. O autor mostra que a disputa por atenção favorece mensagens alarmistas, identidades polarizadas e percepções de ameaça permanente. A necessidade de reconhecimento, amplificada pelas redes sociais, estimula comportamentos performáticos e reações cada vez mais dramáticas. A busca por curtidas, compartilhamentos e aprovação pública cria um ambiente favorável à difusão de discursos extremos.

A leitura desse capítulo é particularmente pertinente para compreender a realidade contemporânea brasileira, marcada por campanhas de desinformação, polarização política e mobilizações digitais, fake news, frequentemente construídas sobre emoções intensas. Ainda que Schuilenburg escreva a partir da experiência europeia, suas observações encontram paralelos evidentes em diversas dinâmicas comunicacionais presentes no Brasil.

Imigração, identidade e pânico moral

A discussão sobre imigração constitui outro eixo central do livro. Schuilenburg analisa os conflitos ocorridos no bairro Afrikaanderwijk, em Rotterdam, durante a década de 1970, utilizando-os como estudo de caso para compreender o surgimento de pânicos coletivos em torno da presença de grupos estrangeiros. O seu argumento é que conflitos relacionados à imigração raramente decorrem exclusivamente da presença dos imigrantes. Em geral, eles expressam tensões sociais mais amplas associadas a insegurança econômica, transformações urbanas e sentimentos de abandono político.

Ao revisitar teorias clássicas do pânico moral, o autor mostra como determinados grupos passam a ser construídos simbolicamente como ameaças à ordem social. A mídia desempenha um papel importante nesse processo, transformando eventos localizados em evidências de crises generalizadas. O resultado é um círculo vicioso em que ansiedade social, cobertura midiática e reação política reforçam-se mutuamente.

Mais uma vez, os paralelos com debates contemporâneos são evidentes. Não apenas na Europa, mas também em diversos países das Américas, processos semelhantes podem ser observados quando grupos específicos são apresentados como responsáveis por problemas estruturais complexos. O valor da análise de Schuilenburg reside justamente em revelar como tais narrativas simplificadoras contribuem para a produção coletiva da histeria.

Reconhecimento e mal-estar contemporâneo

Uma das contribuições mais interessantes da obra é a interpretação da histeria como busca por reconhecimento. Para Schuilenburg, a histeria não representa apenas irracionalidade ou exagero. Muitas vezes, ela constitui uma tentativa de tornar visíveis experiências de exclusão, frustrações e sentimentos de abandono. O comportamento histérico funciona como uma demanda por atenção em uma sociedade na qual reconhecimento e visibilidade se tornaram recursos escassos.

Essa análise aproxima o livro de autores que investigaram as consequências sociais da pós-modernidade. A sensação de insegurança permanente não decorre necessariamente da existência de perigos concretos, mas da fragilidade crescente das referências coletivas. Instituições tradicionais perdem autoridade, identidades tornam-se mais instáveis e a vida social passa a ser marcada pela incerteza. Nesse ambiente, sentimentos de ansiedade e frustração encontram terreno fértil para transformar-se em manifestações histéricas.

O paradoxo do sucesso

A contribuição mais original do livro encontra-se provavelmente em sua conclusão. Schuilenburg formula aquilo que denomina “paradoxo do sucesso”. Segundo ele, as sociedades ocidentais nunca foram tão seguras, saudáveis e prósperas. Entretanto, exatamente por terem alcançado níveis elevados de bem-estar, tornam-se cada vez mais sensíveis aos riscos remanescentes. Quanto menor o perigo objetivo, maior tende a ser a preocupação com sua existência.

Esse paradoxo ajuda a explicar por que sociedades bem-sucedidas produzem níveis tão elevados de ansiedade coletiva. O medo deixa de estar relacionado apenas à sobrevivência física e passa a envolver identidade, reconhecimento, pertencimento e expectativas de futuro. Em vez de desaparecer, a sensação de falta é deslocada para novos objetos. A histeria surge precisamente desse descompasso entre conquistas objetivas e percepções subjetivas de insuficiência.

A formulação é intelectualmente sofisticada e oferece uma lente poderosa para interpretar múltiplos fenômenos contemporâneos. Ao mesmo tempo, ela revela a principal força da obra: sua capacidade de articular problemas aparentemente distintos sob uma mesma estrutura explicativa.

Conclusão

Hysteria: Crime, Media, and Politics é um livro original, provocativo e profundamente relevante para compreender a sociedade contemporânea. Ao recuperar um conceito aparentemente ultrapassado e reinterpretá-lo sociologicamente, Marc Schuilenburg oferece uma poderosa reflexão sobre os mecanismos emocionais que estruturam a política, a mídia e a vida cotidiana. A sua principal tese é que a histeria não desapareceu; apenas mudou de forma. Hoje ela emerge nos discursos sobre segurança, nas controvérsias sobre imigração, nas redes sociais e nas reações coletivas a riscos reais ou imaginados.

Ao analisar a relação entre medo, reconhecimento, insegurança e modernidade, Schuilenburg produz uma obra que transcende o contexto europeu e dialoga diretamente com desafios enfrentados por diversas democracias contemporâneas, incluindo o Brasil. Mais do que um estudo sobre a histeria, o livro oferece uma reflexão sobre as fragilidades emocionais das sociedades modernas e sobre a forma como lidamos com incertezas em um mundo cada vez mais complexo. As disputas em torno de grandes investigações criminais, as manifestações políticas altamente polarizadas, os debates sobre segurança pública e violência urbana, bem como a circulação de desinformação durante momentos críticos no país, revelam uma sociedade em que temas complexos são frequentemente interpretados por meio de narrativas emocionais e percepções de ameaça constante.

Trata-se, portanto, de uma leitura indispensável para sociólogos, criminólogos, juristas e todos aqueles interessados em compreender por que sociedades aparentemente bem-sucedidas continuam convivendo com níveis tão elevados de ansiedade, medo e indignação coletiva.

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Schuilenburg, Marc. Hysteria: Crime, Media, and Politics. Routledge. 2021.

Fernando Procópio Palazzo

VIP Fernando Procópio Palazzo

Mestre em Criminologia pela Erasmus Universiteit Rotterdam e pela Universiteit Ghent. Membro da CSSN/Brown Univeristy (EUA). Atuou como Visiting Professional no Tribunal Penal Internacional (TPI).