Os homens se encontram
Com apenas uma mulher entre 11 ministros, o STF ainda revela a histórica predominância masculina nos espaços de poder e decisão.
segunda-feira, 14 de setembro de 2026
Atualizado em 11 de setembro de 2026 14:53
Gloria Steinem morreu no dia 2 de setembro, aos 92 anos. A notícia ainda estava por toda parte quando ouvi Milly Lacombe falar sobre o que está acontecendo no STF. Em determinado momento, ela deixou um pouco de lado os autos, as acusações e toda a barulheira dos últimos dias e falou dos homens.
Dos encontros, dos jantares, das festas, das conversas, do uísque. Da facilidade com que homens que ocupam lugares de poder convivem com outros homens que também ocupam lugares de poder.
Fiquei com isso na cabeça.
Naqueles mesmos dias, eu lia sobre Gloria Steinem e sobre uma história de 1963. Para escrever uma reportagem, ela se infiltrou na Playboy e trabalhou como uma das mulheres que davam corpo àquela imagem tão conhecida. Depois escreveu sobre o que viveu: os baixos salários, as longas horas sobre saltos altos, os espartilhos apertados, o tratamento recebido.
Gosto particularmente dessa passagem da vida de Steinem. Depois de tantos anos trabalhando com o Direito do Trabalho, não consigo passar por essa história sem prestar atenção justamente nisso: havia mulheres trabalhando para produzir aquela imagem.
Esse modo de olhar acompanhou boa parte da trajetória de Steinem. Ela tinha o hábito de fazer perguntas sobre situações que muita gente já havia se acostumado a considerar normais.
Foi então que voltei aos homens de Milly Lacombe.
Homens sempre se encontraram.
Nos clubes, nos gabinetes, nos conselhos, nos restaurantes, nas diretorias das empresas, nas associações e nos corredores dos tribunais. Conversaram sobre trabalho e continuaram conversando depois dele. Fizeram amizades, apresentaram pessoas, abriram portas, construíram relações de confiança. Uma parte importante da história do poder provavelmente nunca foi registrada em ata porque aconteceu enquanto alguém servia o jantar.
E não há crime algum em jantar.
O próprio uísque, a esta altura, também merece defesa.
O que me interessa nessa imagem é a familiaridade. Durante muito tempo, essa convivência aconteceu em ambientes ocupados quase exclusivamente por homens. Décadas de encontros criaram códigos, relações e maneiras de circular pelo poder que acabaram incorporados à paisagem.
E então o Supremo entrou nessa história.
São onze cadeiras. Hoje, apenas uma delas é ocupada por uma mulher. Em mais de um século de história, três mulheres chegaram ao Tribunal.
Competência não tem gênero. Evidentemente.
Por isso me impressiona que, durante tanto tempo, os lugares mais altos do poder tenham permanecido ocupados por pessoas com perfis tão semelhantes.
Não suponho que uma mulher, por ser mulher, julgue melhor, seja mais ética ou estabeleça relações diferentes. Mulheres também pertencem a círculos de poder, reproduzem seus códigos e podem se sentir perfeitamente confortáveis neles.
A presença, por si, não desfaz os códigos de um lugar. Quem chega também aprende seus ritos, sua linguagem e suas formas de pertencimento. Às vezes, para permanecer, aprende até a reproduzi-los. Uma instituição composta durante décadas por pessoas de trajetórias muito semelhantes acaba criando sua própria ideia de normalidade. Certos modos de falar, conviver e estabelecer confiança deixam de causar estranhamento simplesmente porque sempre estiveram ali.
É isso que me interessa quando penso em diversidade nos espaços de poder. A possibilidade de que outras trajetórias tragam perguntas que até então não encontravam razão para surgir naquela sala. Gloria Steinem passou boa parte da vida fazendo perguntas assim.
Quem chega a uma instituição leva uma vida inteira consigo: formação, experiências, amizades, referências, afetos, maneiras de compreender o mundo e até aquilo que aprendeu a considerar normal. A toga não apaga a pessoa que a veste, e ainda bem que não o faz.
A composição de uma instituição importa por isso. Trajetórias diferentes podem alterar códigos, relações e modos de perceber aquilo que, pela repetição, já parecia simplesmente fazer parte do ambiente.
E, no meio de toda a discussão sobre o Supremo, uma pergunta ficou comigo: por que essa sala ainda é tão masculina?
Pensei novamente em Gloria Steinem.
Ela viveu 92 anos. Viu mulheres chegarem às universidades, às empresas, aos parlamentos e aos tribunais. Participou de algumas dessas mudanças. E morreu ainda falando sobre a presença das mulheres nos lugares onde as decisões são tomadas.
Não sei o que Gloria Steinem pensaria sobre o momento que atravessa o Supremo brasileiro. Seria pretensioso responder por ela. Sua morte e a fala de Milly Lacombe chegaram a mim quase ao mesmo tempo e me fizeram pensar numa coisa à qual eu nunca tinha dado muita atenção.
Os homens sempre se encontraram.
Comecei a pensar no quanto esses encontros também ajudaram a construir os lugares que eles ocupam.
Isabel Cristina de Medeiros Tormes
Formada em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Isabel Cristina de Medeiros Tormes é advogada com atuação exclusiva na área trabalhista há quase três décadas. Especialista em Direito da Moda (Fashion-Law), é presidente da Associação dos Advogados Trabalhistas de São Paulo (AATSP) e sócia do Rodrigues Jr. Advogados. Mestre em Direito pela PUC São Paulo.
