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O Supremo desafio

Texto comenta o julgamento previsto no STF sobre eventual investigação de Alexandre de Moraes e defende transparência, imparcialidade e responsabilidade.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Atualizado às 17:48

O julgamento sobre a eventual abertura de investigação envolvendo o ministro Alexandre de Moraes representa um momento decisivo para a mais alta Corte do país. Para além da análise de uma situação individual, o STF tem a oportunidade de “sair das cordas” e demonstrar à sociedade que os princípios da moralidade, da transparência e da imparcialidade, assim como a responsabilidade institucional, orientam suas decisões - inclusive quando os questionamentos alcançam um de seus integrantes.

Segundo o noticiário, o julgamento previsto para 15/9 envolve a análise de elementos relativos à suposta relação entre Moraes e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. A questão central é decidir se há fundamento para investigar. Não se trata de antecipar conclusões sobre a ocorrência de ilícitos ou de atribuir responsabilidades antes da devida apuração. Essa distinção deve orientar tanto a atuação do tribunal quanto o debate público.

A credibilidade de uma instituição depende de sua capacidade de enfrentar questionamentos com seriedade e oferecer respostas transparentes e consistentes. Quando surgem dúvidas sobre a conduta de uma autoridade, a sociedade precisa compreender quais fatos estão em análise, quais critérios jurídicos serão aplicados e quais razões sustentarão a decisão. O prestígio do cargo e da própria Corte exige responsabilidade à altura do poder exercido.

Eventuais restrições de acesso às informações devem estar amparadas em razões legais concretas, como a proteção de diligências e de direitos, e não servir de escudo contra o escrutínio público. A população precisa acompanhar o raciocínio da Corte e entender por que determinado elemento autoriza uma apuração ou é insuficiente para justificá-la.

Alexandre de Moraes, como qualquer brasileiro, tem direito à presunção de inocência, à ampla defesa e a um procedimento imparcial. Essas garantias são indispensáveis, independentemente das críticas que possam ser dirigidas às suas decisões. Ao mesmo tempo, a posição ocupada por uma autoridade não pode funcionar como obstáculo à apuração de fatos quando houver elementos que a justifiquem. A igualdade perante a lei só ganha sentido quando se aplica também àqueles que têm a responsabilidade de interpretá-la.

A decisão exige, portanto, rigor na avaliação dos elementos apresentados e respeito às regras de competência e às garantias de imparcialidade. Se houver fundamento para investigar, a apuração deverá seguir com independência e objeto definido. Se não houver, a rejeição precisará enfrentar, de maneira específica e compreensível, as razões invocadas em favor da investigação. Em qualquer hipótese, a fundamentação deve permitir o escrutínio público.

O Supremo desempenha uma função essencial na proteção da Constituição e dos direitos fundamentais. Justamente por isso, sua legitimidade se fortalece quando demonstra capacidade de examinar questões que afetam seus próprios membros com o mesmo rigor exigido nos demais processos. A crítica responsável e a cobrança por esclarecimentos fazem parte da vida democrática.

Esse julgamento pode contribuir para restaurar a confiança no tribunal, desde que seja conduzido com transparência, coerência e independência. Nenhuma decisão, isoladamente, recompõe a credibilidade institucional. Mas um procedimento claro, acompanhado de fundamentos sólidos e sem subterfúgios processuais, pode constituir um passo relevante nessa direção.

Ao enfrentar a questão envolvendo Alexandre de Moraes, o STF tem a oportunidade de reafirmar um princípio republicano elementar: o exercício do poder traz consigo o dever de prestar contas. É pela aplicação desse princípio, inclusive aos próprios integrantes, que o tribunal poderá renovar sua autoridade e sua credibilidade perante a sociedade brasileira.

Ana Tereza Basilio

Ana Tereza Basilio

Sócia fundadora do Basilio Advogados. Foi juíza do TRE-RJ, de dezembro de 2010 a julho de 2015. Presidente da OAB-RJ, eleita para o triênio 2025 - 2027.