Patriotismo transverso
Partindo do escândalo do Banco Master, o artigo mostra como o conceito de "patriotismo" pode ser apropriado para legitimar práticas contrárias ao interesse público.
quinta-feira, 24 de setembro de 2026
Atualizado às 16:07
Introdução
O debate contemporâneo acerca do patriotismo tem sido marcado por crescentes instabilidades conceituais, nas quais distintas compreensões do termo coexistem e disputam espaço no discurso público. Nesse contexto, em que medida o conceito de patriotismo, tal como mobilizado na contemporaneidade, mantém correspondência com seu conteúdo historicamente construído?
A relevância do tema decorre da centralidade que o conceito de patriotismo assume em tempos atuais, especialmente no contexto de polarização política, permitindo que o conceito seja apropriado e utilizado de forma estratégica, obnubilando o debate público e influenciando a vontade e a tomada de decisão do eleitor.
Patriotismo
Primeiramente, impõe-se distinguir patriotismo de nacionalismo. Enquanto o nacionalismo tende ao fechamento, caracterizando-se pela recusa ao que vem de fora, o patriotismo, ao contrário, revela-se aberto à incorporação de elementos externos, desde que compatíveis com a realidade interna e úteis ao desenvolvimento da comunidade política (Kujawski, 1991).
No Brasil isso se deu, por exemplo, com a assimilação de avanços tecnológicos desenvolvidos por outros países, a influência do Constitucionalismo Norte-Americano no nosso direito constitucional, e, nas artes, com a incorporação do estilo barroco nas obras de Aleijadinho, que, longe de representar mera reprodução estética, foi ressignificado para narrar uma experiência genuinamente brasileira.
O patriotismo, nesse sentido, não implica rejeição do externo, mas sua adequada filtragem e integração, sem desrespeito às bases culturais, institucionais e históricas da própria pátria. Trata-se de um movimento de incorporação, e não de submissão (Kujawski, 1991).
Ademais, o patriotismo consiste na defesa da liberdade comum, na oposição a toda tentativa de submeter o bem comum a interesses particulares, bem como a rejeição de práticas de discriminação e exclusão, de impor homogeneidade cultural, étnica ou religiosa (Viroli, 1997).
Segundo Viroli (1997), ainda que as sociedades contemporâneas sejam marcadas pelo pluralismo, o patriotismo permanece como elemento indispensável, desde que não se converta em instrumento de mobilização de paixões que comprometam a convivência democrática.
Ainda, segundo Viroli (1997), revela-se problemático quando o patriotismo está vinculado a concepções religiosas homogêneas, uma vez que quando o amor à pátria se funda na ideia de unidade identitária ele pode alimentar formas de intolerância e exclusão, com a negação de direitos das minorias, evidenciando um patriotismo de caráter excludente.
Assim, quando uma comunidade deixa de reconhecer sua própria história ou passa a substituí-la por versões distorcidas, o patriotismo perde seu fundamento, e, nesse caso a lealdade deixa de ser racional e passa a ser apenas uma aparência, um simulacro, sem base real (MacIntyre, 1984).
Diante das perspectivas apresentadas, é possível compreender o patriotismo como uma forma de lealdade historicamente situada a uma comunidade política, que se expressa no compromisso com o bem comum, com a liberdade compartilhada, e com respeito às instituições que sustentam a vida coletiva.
Trata-se de um vínculo que não se funda na exclusão ou na superioridade em relação a outros povos, nem na adesão a interesses particulares, mas na participação em uma história comum e na responsabilidade por sua continuidade.
Assim sendo, os conceitos, como o de “patriotismo”, não se apresentam como dados neutros ou autoevidentes, mas são construídos no interior da linguagem, que constitui o meio pelo qual os seres humanos atribuem sentido às coisas.
Segundo Heidegger (2012), toda interpretação pressupõe uma pré-compreensão, isto é, partindo sempre de um sentido previamente constituído na linguagem, sendo que não se descobre o mundo, nem o seu sentido, de forma independente da linguagem, uma vez que toda compreensão já se encontra inserida em um horizonte interpretativo previamente estruturado.
Em outras palavras, todo ato de definição é, inevitavelmente, orientado por preconcepções que delimitam o horizonte dentro do qual algo pode ser compreendido, sob pena de se praticar um solipsismo conceitual.
Assim, a linguagem, os conceitos, não pertencem ao indivíduo, isoladamente, ou a um grupo de indivíduos, mas à história e à comunidade na qual ele se insere, sendo que a atribuição de sentido a algo não pode ser desvinculada de sua tradição histórica e linguística, pois a compreensão é sempre mediada pela historicidade da linguagem e pela comunidade de sentido à qual pertence (Streck, 2014).
Desta forma, foi possível estabelecer as premissas necessárias ao reconhecimento de que aquilo que, no debate contemporâneo, se denomina “patriotismo” pode não corresponder ao conceito histórico, filosófico e linguisticamente consolidado, mas resulta de uma compreensão distorcida, e que altera seu sentido originário.
Patriotismo transverso
O termo transversal é empregado, em diferentes campos científicos, para indicar algo que atravessa determinada estrutura em direção diversa de seu eixo principal. Na anatomia, por exemplo, um plano transversal corta o corpo perpendicularmente ao seu eixo longitudinal e, conforme o nível em que é realizado, pode atravessar simultaneamente diferentes tecidos, estruturas e órgãos (BETTS et al., 2022; M; Ling; Sanny, 2016).
Nesse sentido metafórico que se emprega, neste artigo, a expressão “patriotismo transversal”. Quando alguém se autointitula patriota, utiliza a bandeira ou as cores nacionais, afirma defender os interesses do país e sustenta, por exemplo, um discurso anticorrupção, sua identidade toca, ao menos aparentemente, diferentes pontos associados ao conceito de patriotismo.
Assim como um corte transversal pode alcançar diferentes estruturas sem acompanhar o eixo longitudinal do corpo, esse discurso pode atravessar diversos elementos simbólicos e retóricos do patriotismo sem que isso demonstre, por si só, correspondência com seu conteúdo substancial.
A questão proposta pelo artigo é justamente investigar se esses múltiplos pontos de contato são suficientes para situar tais discursos e práticas no mesmo eixo conceitual do patriotismo ou se a aproximação permanece apenas transversal, ou seja, somente presente em símbolos, linguagem e reinvindicações.
Se o patriotismo constitui um conceito dotado de densidade filosófica e histórica, não se mostra metodologicamente adequado admitir que seu conteúdo possa ser redefinido de forma arbitrária, seja por indivíduos isolados, seja por grupos circunstancialmente organizados.
Como já explicitado, os conceitos não são criados a partir de um grau zero de sentido, mas resultam de um processo histórico, de construção intersubjetiva, sedimentado na tradição, o que impõe limites ao que pode ser legitimamente atribuído ao conceito de “patriotismo”.
A tentativa de redefinir o patriotismo à margem de suas bases conceituais conduz, na verdade, à formulação de outro conceito. Embora este pareça, à primeira vista, coincidir com o original, a distância entre ambos se revela quando se examinam as práticas sociais daqueles que reivindicam para suas condutas o caráter patriótico.
Patriotismo é o amor à pátria em sua integralidade, abrangendo tanto seus elementos materiais (território, símbolos nacionais, povo) quanto imateriais (história, cultura), o que exige fidelidade às instituições que tem por função garantir a união e estabilidade destes elementos.
Desta forma, o percurso desenvolvido permitiu delimitar, com base na tradição, e, em aportes teóricos, o que se pode compreender como patriotismo e, sobretudo, aquilo que ele não é, sendo que a versão adotada por parte de certos grupos políticos e da sociedade civil, é algo diferente, transverso, porquanto somente toca em alguns pontos do conceito original.
A reconstrução do conceito à revelia de sua definição histórico-linguística representa um deslocamento semântico que compromete a própria inteligibilidade do conceito, servindo como uma roupagem destinada a esconder aquilo que se encontra em seu interior, a ocultar as reais intenções e a iludir os mais incautos.
Destarte, quando se compara o conceito de patriotismo que nos foi legado pela história, tradição e filosofia, com aquilo que atualmente (no Brasil) dizem que ele é, constata-se que não são a mesma coisa. A conduta e discurso de parte da sociedade civil e certos grupos políticos estão completamente dissociados do conceito de patriotismo.
Tal distorção pode ser observada, por exemplo, quando se pretende compatibilizar o patriotismo com a defesa de intervenção de Estado estrangeiro; com a rejeição do Sistema Representativo; com o desrespeito ao resultado das eleições; com a destruição de obras de artes que constituíam o acervo histórico e cultural brasileiro, quando da invasão ao Palácio do Planalto no dia oito de janeiro.
De igual modo, configura uma compreensão distorcida de “patriotismo” a ideia de que a idolatria de Estados estrangeiros, defendendo a imposição de tarifas comerciais, causando prejuízo às exportações nacionais, possa ser considerada equivalente ao sentido originário do conceito.
Certos atores políticos, que se arvoram em se denominar patriotas, atualmente estão envolvidos no uso de recursos públicos e em seu emprego desvinculado do interesse coletivo, o que constitui notório ato de improbidade administrativa.
O caso do Banco Master começou como um escândalo financeiro, mas evoluiu para uma controvérsia política, porque as investigações passaram a revelar uma extensa rede de relações e pagamentos envolvendo figuras políticas. O capítulo mais explosivo envolve o filme “Dark Horse”.
O levantamento parcial do sigilo das investigações sobre as fraudes bilionárias atribuídas a Daniel Vorcaro e ao Banco Master revelou que representantes da extrema direita, autodenominados “patriotas”, são investigados por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas relacionadas ao financiamento do filme, que teriam captado recursos do banqueiro (Brígido et al., 2026).
Parte da sociedade civil é indiferente às consequências ao patrimônio público, contanto que sejam praticados por aqueles que, com eles, compartilham da denominação "patriotas", razão pela qual, ao fim e ao cabo, o conceito de “patriotismo” não importa, sendo utilizado como roupagem com o objetivo de conferir um grau de moralidade a um projeto de poder antidemocrático.
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BETTS, J. Gordon et al. Anatomy and Physiology 2e. Houston: OpenStax, 2022.
BRÍGIDO, Carolina; CORRÊA, Ricardo; DE PAULA, Felipe; MACEDO, Fausto; CÔRTES, Gustavo. Fim de sigilo no Master expõe investigação sobre Flávio e acirra luta no STF. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 12 set. 2026.
FUNDAÇÃO NACIONAL DE ARTES (Brasil). Funarte relembra o estilo barroco. Brasília, DF: Funarte, 5 abr. 2022. Atualizado em: 20 abr. 2022. Disponível em: https://www.gov.br/funarte/pt-br/assuntos/noticias/todas-noticias/funarte-relembra-o-estilo-barroco. Acesso em: 5 ago. 2026.
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STRECK, Lenio Luiz Streck. Hermenêutica jurídica e(m) crise: uma exploração hermenêutica da construção do direito. 11. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2014.
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VIROLI, Maurizio Viroli. Por amor à pátria: um ensaio sobre patriotismo e nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
O barroco surgiu na Itália, no final do século XVI, difundindo-se posteriormente por outros países europeus e chegando ao Brasil sobretudo por intermédio da colonização portuguesa. Em território brasileiro, contudo, seus modelos não foram simplesmente reproduzidos. Particularmente em Minas Gerais, as condições materiais, sociais e religiosas da sociedade colonial, bem como a atuação de artistas locais, deram origem a soluções estéticas próprias. Na obra de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, as referências barrocas e rococós europeias foram reelaboradas mediante o emprego de materiais disponíveis na região, como a pedra-sabão, e de formas expressivas vinculadas à experiência colonial mineira, constituindo uma das primeiras manifestações de uma arte reconhecida como genuinamente brasileira.
