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Das Inhacas

Nestes dias, talvez seja apenas impressão minha, o sol tem chegado mais cedo. A cidade até que nem tão imunda por onde passam os carros se inunda de luz, não aquela luz que dizem ser para todos e que, segundo as contabilidades, tem iluminado mais os faturamentos de uns poucos do que a necessidade escondida nos casebres de tantos.

terça-feira, 6 de novembro de 2007


Das Inhacas

Edson Vidigal*

Nestes dias, talvez seja apenas impressão minha, o sol tem chegado mais cedo. A cidade até que nem tão imunda por onde passam os carros se inunda de luz, não aquela luz que dizem ser para todos e que, segundo as contabilidades, tem iluminado mais os faturamentos de uns poucos do que a necessidade escondida nos casebres de tantos.

O mato rasteiro que invade os espaços onde deveria haver calçadas, garantia dos pedestres, oferece uma cor quase sem cor, melhor dizendo a cor do esquecimento. Ou da omissão.

E o sol, pai de toda cor, derramando luz forte sobre isso tudo, espraia denúncias de imperdoáveis desprezos pelos canteiros da cidade. Para ficarmos só nisso.

Então como eu dizia, há faixas para travessias de pedestres, atenção revisor cuidado com essa palavra, estou escrevendo pedestres, não me vai trocar letras, ou tirar daí outra palavra que isso pode gerar incompreensões.

Por falar em trocar palavras, nossa história política registra, no quesito sutis retaliações, uma hilária vingança do cacique-coronel-manda-chuva de então. Ao mandar para o Diário Oficial o ato de exoneração, a pedido, de um insurgente extraiu da palavra pedido o primeiro d, a primeira letra d da palavra pedido. E aí, o insurgente foi exonerado como?

Então como eu dizia, há faixas de pedestres, mas quem é doido de se arriscar numa travessia, mesmo sob essa luminosidade intensa do astro rei? É que não basta pintar sinais, sinalizações, pregar placas, é preciso ensinar os significados e isso impõe ações educativas aos motoristas e aos pedestres.

Por que não buganvílias pelos entornos, cantos e canteiros? Até como contrapartida aos odores, a cidade merece cores, no plural, não só essa singular e invisível cor do furta-cor. Esse sol de verão, grande madrugador, está a cada dia mais incansável nas cobranças.

As últimas noites, mesmo com as visitas da lua realçando as espumas alvas das ondas em derredor da ilha, esmorecem inspirações, as vontades acumuladas até brocham. São as flatulências da lagoa e de tantos esgotos que se multiplicam a céu aberto. Insuportável também a sinfonia das muriçocas.

Não sei como a nossa gente dos subúrbios consegue dormir nesses intervalos em que a lua cede seu trono ao sol. Há os que cochilam nas filas, tiram soneca nos ônibus. Teremos menos automóveis no trânsito quando o transporte coletivo for de qualidade, em circuitos mais abrangentes.

Não há porque nesse deserto de cores de flores, nessa escassez de cheiros, conformar-se com os odores que as omissões reiteradas fabricam. Não só as inhacas atmosféricas, das ventosidades do descaso, também as inhacas históricas do patriarcalismo decadente.

E olha que o povo todo tem a seu dispor salitre de sobra, banho de mar de graça, sal grosso em ondas à vontade. E ainda assim a inhaca histórica do atraso teima em resistir, alegando que ainda tem força lá em cima. E tem, mas como certas inhacas de axilas que só se vão depois de muito esfregão de bolota de algodão embebida em leite de rosas e bicarbonato de sódio.

Faz bem à democracia, à necessidade de alternância de poder, essa luminosidade plena desse sol de verão esparramando transparência imensa, denunciando descasos, quebrando quebrantos de incansáveis alquimias, que já nos cansam.

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*Ex-Presidente do STJ e Professor de Direito na UFMA





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Atualizado em: 5/11/2007 14:16

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