segunda-feira, 6 de julho de 2020

ISSN 1983-392X

Pernambuco falando para o Mundo

Abílio Pereira Neto

Eu sou um “eterno” fã do rádio, bem mais do que da TV. Sempre achei que a imagem da TV mesmo sendo real não era “humana”. Ainda mais aquela imagem em preto e branco, que no Brasil só veio a ficar colorida no início da década de setenta.

sexta-feira, 4 de abril de 2008


Pernambuco falando para o Mundo

Abílio Neto*

Eu sou um "eterno" fã do rádio, bem mais do que da TV. Sempre achei que a imagem da TV mesmo sendo real não era "humana". Ainda mais aquela imagem em preto e branco, que no Brasil só veio a ficar colorida no início da década de setenta. E comparando os programas de auditório da era de ouro do rádio com os programas da TV de hoje, ainda sou mais o tempo do rádio, com o artista ali bem pertinho da gente e os seus fãs gerando aquele calor humano que não se sente olhando-se a fria TV.

Desde meninote acompanhava os programas da ZYK-22, Rádio Difusora de Caruaru. A emissora ficava instalada no centro da cidade, bem em frente ao estádio do Central. Aquilo era um palácio do rádio, prédio muito bonito com auditório e tudo. Iguais àquele palácio havia mais três: as Difusoras de Pesqueira, Garanhuns e Limoeiro. No Recife ficava a mais potente emissora do grupo, a Rádio Jornal do Commércio, que era instalada em um prédio luxuoso de oito andares, sendo a única das Américas do Sul e Central a possuir oito torres de transmissão e ainda uma "caminhonette-automóvel-blindada" para transmissões móveis. Todos os equipamentos foram importados da Inglaterra, fornecidos pela Marconi's Wireless Telegraph Company e os transmissores eram operados por dois engenheiros, um da própria empresa e outro da BBC de Londres. Esses tiveram contrato assinado por três anos para o treinamento de pessoal no Brasil. Um documento da época dizia: "No sistema utilizado pela Rádio Jornal do Commércio, de Pernambuco, nenhuma interferência é possível, nem mesmo a dos relâmpagos, raios, centelhas de bondes que perturbam as emissões de broadcasting". O luxo com que foi inaugurado o complexo da Rádio Jornal era traduzido no slogan criado para ela: Pernambuco falando para o Mundo. Para não deixar passar a intenção cosmopolita de lado, desde o primeiro dia de funcionamento, uma conhecida locutora canadense, a Dra. Janet Slater Swaton (retrato acima), falava com sotaque britânico o "Pernambuco speaking to the world", enquanto apresentava o programa "Brazil Calling" para um público a milhas de distância. O sucesso internacional foi comprovado pelas centenas de cartas recebidas de outros países. Todos os ouvintes que se comunicavam com a Rádio recebiam, gratuitamente, uma publicação ilustrada e em inglês, falando do sucesso da Rádio Jornal. Os programas radiofônicos tinham nomes bastante sugestivos como este: "Acalantos: músicas leves e suaves que levam ao repouso".

Tudo aquilo, juntando com a TV Jornal, era de propriedade do saudoso Francisco Pessoa de Queiroz. Pelos auditórios dessas emissoras passaram grandes artistas: Nelson Gonçalves, Núbia Lafayette, Ângela Maria, Cauby Peixoto, Dalva de Oliveira, Emilinha Borba, Agostinho dos Santos, Isaurinha Garcia, Elizeth Cardoso, Sivuca, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro etc.

Houve uma época em que quem comandava o regional da Difusora de Caruaru (conjunto que acompanhava os artistas), era nada mais nada menos do que Hermeto Pascoal.¹ Anos depois apareceu um jovem de vinte anos de Brejo da Madre de Deus, chamado Reginaldo Ferreira, apelidado de Camarão, também um mestre da sanfona, a quem coube comandar o funeral do último regional da estação. Foi pela metade da década de cinqüenta que passou pela Difusora um tal de Belmiro Barrela que compôs uma canção e dedicou à cidade cuja letra dizia:

"Foi num belo dia de verão
Que guardo na recordação.
Foi numa cidade do sertão
Que eu perdi meu coração:
Caruaru, Caruaru
A princesinha do Norte és tu"...

Isso foi um sucesso danado gravado pela voz do próprio Belmiro, Dalva de Oliveira e Cauby Peixoto.

Tanto eu era fã do rádio que, quando apareceu a primeira chance pra ser locutor, eu me candidatei. Era louco para apresentar o programa "Postal Sonoro" da Difusora que começava às 13.30 horas, diariamente. Naquele programa as pessoas pagavam à emissora para dedicar uma música aos seus parentes, amigos, namorados, noivos, esposos etc. Os motivos eram os mais variados: aniversário, noivado, casamento ou mesmo simples amizade. A dedicatória vinha sempre acompanhada pela expressão "como prova de amor e carinho". Eu achava aquilo tudo muito bonito. Passei no teste, porém, não fui contratado porque havia um concorrente com a voz melhor do que a minha. Tempo em que eu era feliz e não sabia. Mas,

Sigo a minha caminhada
como a segue um beduíno
rompendo a dura jornada
no deserto do destino! (Prof. Garcia/RN)

Se aquele passado fosse o presente deste dia 4.4.2008, se a emissora e o programa existissem e se eu tivesse conseguido ser locutor, falaria ao saudoso microfone o seguinte: Boa tarde, queridos ouvintes. Está entrando no ar o programa Postal Sonoro. E a primeira música do dia vai pra Juliana Meira, uma jovem de Carazinho, Rio Grande, que mora em Porto Alegre, blogueira e migalheira, tudo rimando, que comemora aniversário amanhã, e de quem seu orgulhoso pai diz: "A sensibilidade de Juliana é como o alambrado com seus fios de arame tangidos pelo vento espalhando notas pelo ar". Como se vê, o homem é um poeta e as notas que ele fala só podem ser notas de uma canção. Vou aqui lembrar o que disse o também poeta e músico Geraldo Azevedo: "Quem inventou o amor certamente tinha inclinações musicais". A música dedicada a Juliana é uma composição de dois gaúchos: Romeu Seibel, porém, conhecido como Chiquinho do Acordeon (gaiteiro) e Radamés Gnattali (pianista). A gravação dura apenas 1min e 50 seg, tempo suficiente pra percepção da beleza melódica. Na sua execução podemos escutar o maestro Radamés no piano, Sivuca no primeiro acordeon e Chiquinho no segundo. Todos eles estão tocando em outra morada do Pai. Ouçamos, pois, "Acalanto pra Juliana" como prova de amor dos seus pais Eldo Meira e Inoi Quadros de Meira, e de carinho dos seus amigos Adauto, Cleanto, ACM do Ceará (vulgo Ontõe Gago), Ilton e deste locutor que vos fala. O postal sonoro é extensivo a todos que sintonizam neste momento a estação Migalhas.

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Meu primeiro emprego...

"Tinha de sete para oito anos e tocava 8 baixo, um tipo de sanfona, do meu pai; tocava com meu irmão mais velho, o José Neto, em forrós e festas de casamento. Revezava com ele no 8 baixo e no pandeiro. Agora, o primeiro emprego com carteira assinada e tudo foi na Rádio Jornal do Commércio lá em Recife, em 1950. Com a ajuda de Sivuca que na época já era um sanfoneiro de sucesso, José Neto que já estava trabalhando na rádio, formamos o trio 'O Mundo Pegando Fogo' e aconteceu uma coisa engraçada. A primeira vez que tocamos foi no programa "A Felicidade Bate à sua Porta", e era um caminhão cheio de artistas que fazia propaganda da rádio. Fizeram uma escala onde fui tocar pandeiro, mas não gostei. O Jackson do Pandeiro me chamou no canto e falou:- "Sivuquinha se você só tocar pandeiro, sem tocar sanfona nunca vai para frente"! Eu tinha de 14 para 15 anos e fui falar para o Amaurílio que era o diretor da rádio que não ia tocar pandeiro. O Amaurílio achou uma afronta uma criança dizer aquilo para ele. Fui suspenso e ele ainda disse que eu não dava para música. Fui para a Rádio Difusora de Caruaru e fiquei três anos tocando lá. Voltei para a Rádio Jornal do Commércio ganhando o que eu pedi e a convite da mesma pessoa que me mandou embora. Ah, lembra do caminhão que tocávamos com o trio "O Mundo Pegando Fogo"? Pois não é que na nossa primeira apresentação o caminhão pegou fogo mesmo..." (Hermeto Pascoal, multiinstrumentista)

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*Migalheiro





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