segunda-feira, 21 de setembro de 2020

MIGALHAS DE PESO

Vencer cansa

Vitória é aquela senhora almejada por todos, inimiga de outra igualmente muito conhecida, que atende pelo nome de Derrota. Com esta aqui então é que ninguém quer conversa.


Vencer cansa

Edson Vidigal*

Vitória é aquela senhora almejada por todos, inimiga de outra igualmente muito conhecida, que atende pelo nome de Derrota. Com esta aqui então é que ninguém quer conversa.

Mas quando não se trabalha direito, não se preza a verdade, quando não se é pessoa do bem, não se é movido a amor mas sim impulsionado pelo ódio, aí não tem jeito. Quem sai ganhando é a Derrota.

É assim o mundo, companheiro, camarada.

As coisas se vinculam à gente de uma maneira maniqueísta. Falamos de maniqueísmo, mas muitos de nós não nos damos conta de como isso começou.

Maniqueísmo, gente, surgiu na Pérsia, mas só foi ganhar adeptos em Roma, onde não foram poucos os que, sob a proteção do Império, acreditavam e difundiam um dualismo de forças num conflito cósmico entre a Luz e as Trevas.

O curioso é que, sob um Império lascivo, olha que contradição, os maniqueístas conferindo à Luz a força do Bem e às Trevas a força do Mal pregavam que a matéria e a carne faziam parte do reino das Trevas e que, por isso, para a vitória do Bem, as pessoas deveriam abster de sexo e de carne de origem animal.

Mas o maniqueísmo hoje em dia, geralmente, não é mais que uma palavra que se usa quando se quer restringir as opções a apenas duas, um ou outro, essa ou aquela, etc. e tal, e ponto. Por exemplo, é azul ou amarelo, é preto ou vermelho. É a libertação ou a escravidão, é a verdade ou a mentira.

Falar nisso, ó meu, palmas para o Padre Antonio Vieira!

Como se mente ainda hoje nesta terra! Quem não vive entranhado até estranha, chegando a pensar que não há tanta mentira e tanto mentiroso assim, e que o reverendo só falou aquelas coisas, naquele tempo, porque já estava cansado de tentar tantas coisas boas e não sendo apoiado nem compreendido acabou tendo que ir embora.

É sempre bom lembrar o Sermão da Quinta de Domingo.

Aspas aqui para o padre. Cuida o homem nobre hoje que está em altura de honrado e amanhã, acha-se infamado e envilecido. Cuida a donzela recolhida que está em altura de virtuosa e amanhã, acha-se murmurada pelas praças. Cuida o eclesiástico que está em altura de bom sacerdote e amanhã, acha-se com reputação de mau homem.

Enfim, um dia está aqui em uma altura, e ao outro dia, noutra. Porque os lábios são como o astrolábio. É isto assim? A vós mesmos o ouço, que eu não o adivinhei. Vede se é certa a minha verdade: que não há verdade no Maranhão.

Porém, as mentiras do Maranhão não têm nem outra parte donde vir e nem outra parte para onde ir. Aqui nascem e aqui ficam; e quando as mentiras todas ficam na terra, e todas vos caem em casa, ainda por conveniência e razão de estado as haveis de lançar fora. Fecha aspas.

Queres vencer? Conserva-te íntegro. Trabalha sério, confia nos resultados. Vais desagradar a muitos, que farão de tudo para te desconstruir no que tens de mais inalienável, que é a tua honra. Reforça a couraça para as pedradas, que não serão poucas. Ao fim, lá no fim, quase no acabar da história, quando estiveres muito cansado, resiste, prossegue. Vencer cansa. E vencerás.

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*Ex-Presidente do STJ e Professor de Direito na UFMA



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Atualizado em: 1/1/1900 12:00

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