terça-feira, 26 de maio de 2020

ISSN 1983-392X

Artigo

Reflexões sobre isolamento por conta do coronavírus, por Cesar Asfor Rocha

Advogado fala da mudança radical pela qual a sociedade passa e convida o leitor para um despertar da solidariedade afetiva e efetiva.

domingo, 22 de março de 2020

O isolamento social sempre esteve presente na literatura. Entre tantas inspirações, podemos citar o Ermitão da Glória, de José de Alencar, ou o anacoreta Pafnúcio, na clássica obra Thaïs, de Anatole France. Italo Calvino, aliás, chamou seu canhenho biográfico de o “Eremita em Paris”. 

Enfim, há uma gama de personagens e obras que enfrentam a questão da solidão, do afastamento social. Tal se dá, provavelmente, pelo eterno conflito entre a fé e a ciência como cura para as doenças da alma.

A propósito, como cura para os males da alma, o médico austríaco Ernst Von Feuchtersleben, em “Hygiene da Alma”, recomendava aos que padecem, vítimas das incertezas, do temor, que procurassem companhia. Aí, dizia ele, “uma palavra lançada ao acaso basta muitas vezes para iluminar como um relâmpago a noite mais sombria”.

E é essa palavra que nos lança abaixo o ministro Cesar Asfor Rocha, emprestando suas luzes para refletirmos acerca deste isolamento forçado que as circunstâncias nos obrigam.

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Veja a íntegra do artigo.

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SEGREGAÇÃO NÃO É ISOLAMENTO

 A imprevisível - inimaginável, mesmo - crise que o coronavírus impôs à sociedade em sua universalidade, e a cada indivíduo isoladamente, de que decorreu a necessidade de súbita e radical mudança de comportamento, tanto nas relações sociais e familiares, como na própria atitude de cada um de nós diante da vida e de nós mesmos, deixou-nos todos atônitos, perplexos, sem saber como agir agora, e muito menos a imaginar como será o amanhã, o day after, quando desaparecer o que hoje tanto nos aterroriza.

Vivíamos compelidos e emocionalmente formatados para priorizar compromissos sociais e profissionais em círculos que pouco ou quase nada nos diziam respeito, com pessoas sem vivências antecedentes conosco e que frequentávamos pelo falso deslumbramento de que nosso valor e prestígio no mundo circundante é aferido pelo recheio de nossa agenda de compromissos, pelo volume de nomes que integram os nossos contatos.

De repente, as pessoas que estavam habituadas e ofuscadas a circular livremente pelos espaços da cidade e a freqüentar locais de grande concentração de outras pessoas igualmente livres, viram-se impactadas e impelidas a se confinarem em suas casas e a se absterem de suas costumeiras práticas espontâneas.

Nenhum de nós esperava tal reviravolta de costumes e também não estimava a gravidade dessa pandemia que se abateu sobre a humanidade, forçando-nos a todos a adotar condutas e comportamentos dantes sequer cogitados.

A segregação que foi imposta a todos, como estratégia de controle do espraiamento da pandemia, que aparentemente nos isolou, por um lado abriu-nos à reflexão para perceber a fragilidade de nossas vidas, a precariedade dos meios de defesa contra crises na saúde pública e também a incúria com que eram tratados esses temas, que agora batem às nossas portas e nos assustam com a sua virulência que parece zombar de nossas providências acauteladoras. Mas, por outro lado, nos fez trazer a  presença de muitos relevantes fatos de nossas vidas e que estavam guardados e esquecidos nos escaninhos de nossas memórias, como também a lembrança de pessoas queridas que marcaram presenças relevantes na nossa existência e que a vida atribulada cuidou de descartar.

Percebe-se, assim, que essa segregação não significa automático isolamento, porque pode nos levar à reflexão sobre a nossa própria vida e a vida de muitos dos nossos parceiros com quem tivemos proximidade ao longo de nossa existência, muitos e muitos dos quais a memória involuntariamente já os deletou. Nós, que não tínhamos tempo para refletir e encontrar conforto na meditação, vemo-nos agora com tempo de sobra para essa atividade mental tão necessária e saudável, que a grande maioria jamais teve tempo para experimentar, e que para quase todos os demais era praticamente esquecida, inclusive dentro dos nossos lares e na troca afetiva com os nossos mais próximos.

Segregados em espaços restritos, vemos crescer vertiginosamente o uso intensivo da comunicação virtual e sentimos como a convivência com os nossos iguais é um elemento essencial da felicidade e assim podemos imaginar que perdê-la pode nos levar à solidão sem remédio e ao desespero. O confinamento segregador e lesionador levaria o ser humano a despojar-se do que ele tem de mais precioso: a sua afetividade natural, a sua capacidade de sentir-se envolvido no pertencimento convivencial com os seus semelhantes, tanto nas suas angústias, como nas suas alegrias.

Nesse sentido, a crise do coronavírus é mais do que uma advertência: é um alerta oportuno e uma oferta alentadora para que reflitamos – todos nós, cidadãos comuns e autoridade, homens e mulheres do povo – como é urgente o despertar para a solidariedade afetiva e efetiva, a alteridade consciente e eficaz, tanto nessa desafiadora luta que temos agora pela nossa frente, como, também, no tempo seguinte, de recuperação emocional, social e econômica que nos espera.

A nossa resistência está sendo testada ao máximo, mas a nossa força e obstinação – com a ajuda de Deus – obterão a vitória contra esse desafio que parece invencível. Afinal, não foi somente com a ajuda de Deus que Davi, pequeno e frágil, vitoriou contra um gigante?

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*Cesar Asfor Rocha, advogado, jurista, escritor e compositor, foi ministro (1992/2010) e presidente (2008/2010)  do Superior Tribunal de Justiça, ministro e corregedor do Tribunal Superior Eleitoral (2005/2007) e corregedor do Conselho Nacional de Justiça-CNJ (2007/2008). Membro vitalício da Academia Brasileira de Letras Jurídicas.

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