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Racismo

Educafro processa Google por jogo racista que simulava escravidão

ONG requer danos morais coletivos pela disponibilização do aplicativo na loja do Google.

Da Redação

terça-feira, 30 de maio de 2023

Atualizado às 09:56

ONG Educafro Brasil, sediada em São Paulo e voltada para formação profissional na área digital da comunidade negra, propôs ação civil pública contra o Google pela disponibilização do aplicativo "simulador de escravidão".

No jogo, presente na plataforma desde abril de 2023, o usuário simulava ser proprietário de pessoas em situação de escravidão.

A ONG pede indenização de R$ 100 milhões por danos morais coletivos, a qual será destinada a um fundo, com fiscalização do MP, para viabilizar iniciativas de combate ao racismo.

Em tutela de urgência, a Educafro requer a comprovação da exclusão integral do jogo da loja do Google, além da fiscalização, controle e coibição de existência de demais jogos com conteúdo discriminatório e ofensivo a minorias.

 (Imagem: Reprodução)

Loja do Google, Play Store, disponibilizava jogo que simulava escravidão.(Imagem: Reprodução)

Leonardo Amarante, especialista em Direito do Consumidor, ações coletivas e sócio do escritório Leonardo Amarante Advogados Associados que patrocina a ação, diz que a mera existência e disponibilização do aplicativo configura, além de gigantesca falha na política de controle de conteúdo do Google, atitude racista. 

"Esse jogo lamentável reforça um dos capítulos mais covardes da história brasileira e viola os direitos fundamentais mais caros consagrados na CF: as normas que protegem a honra e dignidade da pessoa humana e as normas que protegem a população negra contra o racismo", ressalta o advogado. 

Em nota, Frei David Santos OFM, diretor executivo da ONG, disse que a comunidade brasileira precisa ser firme no combate a todas as formas de racismo. 

"Tanto os desenvolvedores do game, quanto a plataforma que os comercializa, estão em flagrante delito, praticando ao mesmo tempo, crimes de racismo e contra o consumidor. O jogo explora, sem reservas, a possibilidade de que pessoas negras sejam tratadas como objeto da ganância e até da luxúria de 'senhores de escravos'. É trágica a ideia de que, alguém imagine a possibilidade de obter lucro produzindo um game que explora a dor do povo afro-brasileiro. A Google e a produtora do game banalizam essa forma extrema de violência, que é uma ferramenta maligna dos supremacistas que consiste na redução do ser humano à condição de escravizado. O holocausto negro, como o holocausto judeu, nunca poderá ser usado como fonte de entretenimento, principalmente por empresas transnacionais."

Veja a íntegra da inicial.

Caso

No último dia 24, doze dias após a "celebração" dos 135 anos da Lei Áurea no Brasil, foi noticiada a existência de um aplicativo para celulares denominado "simulador de escravidão", o qual era comercializado na plataforma "Google Play Store", há mais de 35 dias. 

O jogo contava com mais de 1.000 downloads, quase 70 avaliações e classificação livre. Ele foi desenvolvido pela empresa MagnusGames, um estúdio de criação que possui outros 14 jogos publicados na loja do Google, classificados como "estratégia" e "simulação", dentre eles um "simulador de homicídios".

A premissa do "simulador de escravidão", ambientado no ano 1.600, era simular a condição de proprietário de escravos no Brasil colonial e ganhar pontos e dinheiro por comprar, vender, açoitar e torturar pessoas negras em situação de escravidão.

Segundo a ficha técnica do aplicativo, com os dizeres: "Torne-se um rico proprietário de escravos ou consiga a abolição da escravidão. Tudo está em suas mãos".

Ao ingressar no game o usuário poderia escolher dois objetivos diversos: "Caminho do Tirano" ou "Caminho do Libertador". Também informava a existência de três "tipos" de escravos: "trabalhadores, gladiadores e escravos de prazer". 

Na primeira página do aplicativo um escarnecimento: a desenvolvedora informava que a criação do aplicativo tinha como finalidade o "entretenimento" e que todo o conteúdo era "fictício", com "coincidências acidentais".

No decorrer do jogo algumas orientações eram dadas, como, por exemplo, a de que escravos poderiam fugir ou tentar começar uma rebelião.

O jogador deveria contratar guardas para a fiscalização dos escravos, e, o dinheiro ganho pelo senhor de engenho poderia ser utilizado para "subornar funcionários" e evitar o processo de abolição. Se esta ocorresse, o jogador perdia.

 (Imagem: Reprodução )

Jogo possibilitava que o usuário simulasse o papel de um "senhor de escravo" e impedisse a abolição.(Imagem: Reprodução )

Reações

No mesmo dia 24, após pressão da mídia, o Google retirou o aplicativo da plataforma. Em nota, informou que não permite aplicativos que promovam violência ou incitem ódio contra indivíduos ou grupos com base em raça ou origem étnica. 

MPF e o MP/SP instauraram procedimento para investigar e apurar o jogo. A OAB/RJ manifestou repúdio ao jogo por meio de nota oficial.

Na ala política, o deputado Federal Ivan Valente representou o MPF/DF para investigar o caso e a vereadora do Rio de Janeiro, Thais Ferreira,  apresentou representação ao MP/RJ contra o aplicativo.

Já o ministério da Igualdade Racial contatou o Google para elaborar, conjuntamente, filtro que não permita a disseminação de discursos de ódio, intolerância e racismo. 

Leonardo Amarante Advogados Associados

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