Credibilidade é chave para jornalismo na era digital, afirmam especialistas
Avanço da IA e mudança no consumo de informação reforçam papel do jornalismo profissional e da responsabilidade editorial.
Da Redação
terça-feira, 2 de junho de 2026
Atualizado às 09:41
A transformação digital mudou profundamente a forma como a sociedade se informa, se comunica e forma opinião. Em um ambiente marcado por excesso de informação, disputas por atenção, inteligência artificial e desinformação, o jornalismo profissional se torna ainda mais necessário.
A avaliação foi feita por especialistas durante o painel "Informação em transformação: jornalismo e comunicação no mundo digital", realizado no XIV Fórum de Lisboa.
Credibilidade em meio à velocidade
Flávio Lara Resende, presidente da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão e conselheiro do Conselho Consultivo da Anatel, afirmou que a informação hoje circula em tempo real, em múltiplas plataformas, disputando atenção a cada segundo. Segundo ele, redes sociais, plataformas digitais e IA ampliaram o acesso, a diversidade de vozes e a velocidade da circulação das notícias, mas também trouxeram desafios relevantes.
"Vivemos uma era marcada pelo excesso de informação, pela desinformação organizada e pela erosão da confiança pública."
Para Flávio, muitas vezes a velocidade passou a valer mais do que a verificação, e o engajamento mais do que a responsabilidade editorial. Nesse cenário, destacou que rádio e televisão seguem como referências de credibilidade para milhões de brasileiros, com presença em pequenas cidades, comunidades, estradas e momentos de emergência.
O dirigente defendeu que o desafio atual não é escolher entre o tradicional e o digital, mas integrar os dois mundos.
"O futuro da comunicação não será construído apenas por algoritmos, será construído também por instituições capazes de gerar confiança."
Novo público
Miguel Matos, advogado e criador do portal jurídico Migalhas, também ressaltou a importância da curadoria jornalística em um ambiente no qual todos podem produzir conteúdo.
Ele lembrou que o Migalhas nasceu como veículo 100% digital há quase 26 anos e acompanhou mudanças profundas no perfil do público jurídico e na forma de consumo de informação.
Segundo Miguel, o público do Direito se renovou com o aumento do número de faculdades e de advogados, o que alterou a comunicação no setor.
Ainda assim, destacou que o público jurídico mantém características próprias: cerca de metade da audiência do Migalhas acessa o conteúdo pelo computador, diferentemente de portais em que o consumo pelo celular é predominante.
Miguel também alertou para dois efeitos recentes da tecnologia no campo jurídico: o possível aumento expressivo de ações judiciais com o uso de IA para elaboração de petições e o crescimento de ordens de remoção de conteúdo jornalístico. Para ele, esse movimento preocupa e pode representar retrocesso à liberdade de informação.
IA, busca e remuneração de conteúdo
Marcelo Lacerda, diretor de Relações Governamentais do Google Brasil, afirmou que a forma de acesso à informação está mudando rapidamente. Segundo ele, os usuários passaram a fazer buscas mais intuitivas, multimodais e complexas, impulsionadas pela inteligência artificial.
Ele citou que uma em cada seis buscas já utiliza voz ou imagem e que as buscas por imagem crescem cerca de 40% ao mês. Para Lacerda, a busca deixou de ser apenas uma combinação de palavras-chave e lista de links, passando a responder a perguntas mais longas e específicas.
O representante do Google afirmou que a empresa vê o jornalismo de credibilidade e economicamente sustentável como benéfico para a sociedade, a democracia e os negócios. Disse ainda que o objetivo da plataforma é atuar como ponte entre produtores de conteúdo e usuários, e não reter o público em um ambiente fechado.
Lacerda defendeu que o desenvolvimento tecnológico deve passar pelo uso autorizado e remunerado de conteúdos jornalísticos. Segundo ele, o Google mantém parcerias comerciais com mais de 3 mil organizações jornalísticas no mundo e mais de 170 publishers no Brasil.
Modelo de negócio
Felipe Seligmann, co-CEO do JOTA, afirmou que não é possível discutir a transformação do jornalismo sem tratar do modelo de negócio. Segundo ele, quando a remuneração depende apenas de acesso e alcance, as redações tendem a produzir conteúdos voltados ao maior número possível de pessoas.
No entanto, para veículos especializados, esse não é necessariamente o caminho. Para ele, "falar com todo mundo" pode significar "falar com ninguém".
Seligmann também chamou atenção para a dependência dos veículos em relação aos canais de distribuição. Segundo ele, no início, grande parte do tráfego vinha das redes sociais; hoje, a busca tem papel central, mas esse cenário também deve mudar com a IA generativa. Diante disso, defendeu a construção de canais diretos com o público, como newsletters, menos dependentes de algoritmos de plataformas.
Comunicar é cuidar
Lara Monteiro, diretora institucional da Redevida de Televisão, afirmou que comunicar é também cuidar do público. Segundo ela, a televisão continua sendo companhia e fonte de credibilidade, especialmente para pessoas mais velhas. Lara destacou que 91% dos telespectadores com 60 anos ou mais ainda assistem TV regularmente, embora também consumam informação pela internet e pelo celular.
Para ela, o fato de "todo mundo virar publisher" aumentou a preocupação com a origem e a qualidade da informação. Nesse contexto, defendeu o papel da curadoria humana e da responsabilidade editorial.
Lara afirmou que a Redevida busca "comunicar com rosto", ou seja, com comunicadores reconhecidos pelo público. Também destacou que não é a tecnologia que define o que entra no jornal, mas uma equipe responsável, com nome, sobrenome e direção editorial.
