Civis foram essenciais na Revolução de 32; veja memórias preservadas por família de combatente
Comerciante de Ribeirão Preto/SP, Nicolau Frederico foi incorporado à mobilização de 1932; mais de nove décadas depois, registros seguem preservados pela família.
Da Redação
quinta-feira, 9 de julho de 2026
Atualizado em 8 de julho de 2026 20:29
As histórias revolucionárias costumam ser contadas pelas palavras e pelas imagens de personagens políticos, militares ou intelectuais de uma época. Mas nem sempre se conhece quem esteve, literalmente, nas trincheiras: o cidadão comum, de profissão regular, o civil anônimo que, no caso da Revolução de 1932, também teve importância inequívoca.
Esta reportagem parte de uma metonímia. A história de Nicolau Frederico, comerciante e sócio-proprietário de uma loja de ferragens em Ribeirão Preto/SP serve para homenagear e simbolizar os milhares de civis que participaram da Revolução Constitucionalista.
Como tantos paulistas daquele período, Nicolau deixou a rotina do trabalho para se juntar à mobilização armada em defesa de uma nova Constituição para o país.
Mais de nove décadas depois, parte dessa história ainda permanece guardada por sua neta, Regina Nemer, em papéis, fotografias e documentos oficiais. Regina conta que o avô tinha muito orgulho de ter participado da Revolução de 1932.
Salvo-conduto
Entre os registros preservados pela família está um salvo-conduto expedido pela Chefatura de Polícia do Estado de São Paulo, em 1930, que autorizava o livre trânsito do portador pelo Estado.
O documento funcionava como uma espécie de autorização oficial de circulação, especialmente relevante em períodos de instabilidade política, vigilância e controle de deslocamentos. Na prática, servia para identificar o portador perante as autoridades e permitir sua passagem sem impedimentos por determinadas regiões.
Embora anterior ao movimento constitucionalista, o salvo-conduto ajuda a compor o retrato de uma época marcada por tensão política e por maior controle estatal sobre a circulação de pessoas.
Incoporado à Revolução
Outro registro preservado pela família é um certificado da Força Pública do Estado de São Paulo, emitido pelo Centro de Instrução Militar. O documento atesta que Nicolau foi incorporado, em julho de 1932, à organização de emergência do centro e prestou serviços durante o movimento constitucionalista.
As fotografias também ajudam a recompor essa memória.
Em imagens em preto e branco, grupos de homens aparecem uniformizados, alguns armados, posando ao lado de companheiros de campanha.
São retratos típicos de uma guerra travada também por voluntários, jovens e trabalhadores que, em meio à instabilidade política do país, aderiram à causa paulista.
Reconhecimento aos veteranos
Na década de 1980, uma carta da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, assinada pelo então deputado Vicente Botta, 2º secretário da Casa, mostra o reconhecimento posterior aos veteranos constitucionalistas.
No texto, o parlamentar se dirige aos "veteranos constitucionalistas de 32" e afirma a necessidade de manter viva, entre as novas gerações, a memória do movimento de 9 de Julho.
A correspondência menciona o "sacrifício" dos que participaram da revolta e registra a intenção de prestar homenagem àqueles que lutaram "pelo respeito à Constituição" e às "franquias democráticas".
Detalhes da revolução
A Revolução Constitucionalista teve início em 9/7/1932, em reação ao governo provisório de Getúlio Vargas, instalado após a Revolução de 1930. A principal bandeira do movimento era a convocação de uma Assembleia Constituinte e a restauração de uma ordem constitucional no país.
Embora tenha sido derrotado militarmente, o movimento se consolidou na memória paulista como símbolo de resistência política. Dois anos depois, em 1934, o Brasil promulgaria uma nova Constituição.