USP anula concurso após aprovado apresentar cartas de ministros do STF e STJ
Seleção era questionada desde 2025, quando vieram a público recomendações assinadas por autoridades do Judiciário e do MP.
Da Redação
domingo, 9 de agosto de 2026
Atualizado às 09:40
A Faculdade de Direito da USP anulou, nesta quinta-feira, 6, concurso para professor doutor vencido por Rafael Campos Soares da Fonseca, após questionamentos sobre a apresentação de cartas de recomendação assinadas por ministros do STF e do STJ, além de outras autoridades.
Segundo a Folha de S.Paulo, a unidade deverá realizar novo processo seletivo para preencher a vaga, ainda que temporariamente, e a decisão pode ser contestada perante o Conselho Universitário.
Cartas de recomendação
O concurso passou a ser questionado em março de 2025, quando a Folha revelou que Rafael havia anexado ao memorial acadêmico cartas de recomendação subscritas por autoridades do Judiciário e do Ministério Público.
Rafael é filho do ministro do STJ Reynaldo Soares da Fonseca. Entre os documentos apresentados estavam textos assinados pelos ministros do STF André Mendonça, Dias Toffoli, Edson Fachin e Gilmar Mendes.
Também constavam cartas dos ministros do STJ Ribeiro Dantas e Gurgel de Faria, colegas de Reynaldo Soares da Fonseca na Corte, e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, entre outras autoridades.
A documentação levou uma das concorrentes a recorrer do resultado. De acordo com a Folha, ela sustentou que a apresentação das recomendações violava os princípios da impessoalidade e da isonomia que devem orientar concursos públicos.
O questionamento também alcançou integrantes da comunidade acadêmica. O argumento era de que manifestações assinadas por autoridades de elevado prestígio institucional poderiam interferir na avaliação objetiva dos candidatos, mesmo que o conteúdo das cartas não fosse considerado pela banca examinadora.
À época, Rafael afirmou que os documentos não tinham o propósito de exercer influência sobre os avaliadores e que serviam apenas para atestar sua trajetória acadêmica e profissional.
Análise na USP
Após a contestação, a direção da Faculdade de Direito passou a analisar a regularidade do concurso. O caso teve dois relatores ao longo da tramitação administrativa.
Em parecer elaborado em março, o professor Elival da Silva Ramos concluiu que a apresentação das cartas contrariava os princípios da impessoalidade e do julgamento objetivo aplicáveis aos concursos públicos. A posição, porém, foi rejeitada pela maioria.
Cinco meses depois, um novo parecer contrário a Rafael foi aprovado pela USP. O procedimento culminou na anulação do concurso nesta quinta-feira.
Com a decisão, fica revertido o resultado que havia dado a Rafael a vaga de professor doutor. A Faculdade de Direito deverá promover nova seleção, ainda sem data anunciada, para o preenchimento do posto.
Segundo a Folha, ainda é possível recorrer da anulação ao Conselho Universitário, órgão máximo da USP.