De advogado a poeta, ensaísta e editor: Conheça Tarso de Melo
Após 25 anos na advocacia, escritor passou a se dedicar integralmente à literatura. Na entrevista,Tarso fala sobre o papel da poesia na compreensão do mundo.
Da Redação
terça-feira, 20 de outubro de 2026
Atualizado em 19 de outubro de 2026 18:33
Antes de dedicar sua vida profissional inteiramente à literatura, Tarso de Melo passou 25 anos advogando nas áreas trabalhista e acidentária. Poeta, ensaísta e editor, ele conciliou por décadas os dois universos, que, embora tenham a palavra como instrumento comum, apresentam diferenças fundamentais na maneira de utilizá-la.
Neste 20 de outubro, Dia do Poeta, o Instância Literária recebe Tarso de Melo para uma conversa sobre sua trajetória, a decisão de deixar a advocacia para trabalhar exclusivamente com literatura e as particularidades da linguagem jurídica e da criação poética.
Para Tarso, enquanto o Direito depende de uma linguagem técnica, na qual as palavras precisam preservar determinados significados, a poesia procura ultrapassar esses limites.
"A poesia é a busca de uma linguagem que fale para além do dicionário", afirmou.
Primeiro, a poesia
Embora tenha construído uma longa carreira jurídica, o primeiro contato de Tarso de Melo com a poesia ocorreu ainda na adolescência, por volta dos 13 ou 14 anos, por influência do rock.
O interesse pela música surgiu principalmente por meio dos amigos de seu irmão mais velho. Entre os artistas que despertaram sua atenção estava Jim Morrison, vocalista da banda The Doors, que se apresentava também como poeta.
Foi uma biografia do músico, comprada por iniciativa própria, que abriu caminho para suas primeiras descobertas literárias.
No livro, encontrou referências aos chamados poetas malditos franceses. A partir daí, passou a procurar outras obras e autores, iniciando uma relação com a poesia que se tornaria permanente.
"Isso me levou a esses poetas e nunca mais saí", recordou.
A escolha pelo Direito aconteceu alguns anos depois, às vésperas do vestibular. Quando ingressou na faculdade, entretanto, já frequentava ambientes literários e mantinha amizades ligadas à poesia.
Por isso, a formação jurídica não representou uma substituição de interesses, mas o início de uma convivência entre duas atividades.
"Eu brinco que eram duas bandejas que eu carregava", contou.
Uma advocacia cercada de livros
Tarso começou a trajetória profissional como estagiário, passou pela prefeitura e ingressou em um escritório de advocacia em Santo André/SP, onde permaneceria por aproximadamente 25 anos.
O escritório atuava principalmente nas áreas de acidente do trabalho e Direito do Trabalho e era conduzido pelos advogados Antonio Possidonio Sampaio, já falecido, e Valdecírio Teles Veras.
Mais do que um espaço de exercício da advocacia, o ambiente também mantinha uma relação próxima com a literatura.
Valdecírio é casado com a poeta Dalila Teles Veras, ligada à Alpharrabio, livraria e espaço cultural que Tarso já frequentava antes mesmo de iniciar a faculdade de Direito.
A proximidade entre os dois universos contribuiu para que ele pudesse desenvolver a carreira jurídica sem abandonar a produção literária.
Ali, encontrou liberdade para continuar estudando, cursar a pós-graduação e manter suas atividades na literatura.
"Acho que era a única advocacia possível para mim", afirmou.
A convivência entre as duas carreiras se estendeu por décadas, até que novas oportunidades no mercado editorial levaram o escritor a reconsiderar seu futuro profissional.
A transição para a literatura
Paralelamente à advocacia, Tarso sempre participou de iniciativas coletivas ligadas à poesia, como a edição de revistas, a produção de resenhas e a organização de atividades culturais.
Há cerca de três anos, começou a conduzir o clube de leitura do Círculo de Poemas, projeto da editora Fósforo. Posteriormente, foi convidado para atuar como editor da coleção, responsável pela publicação de dois livros por mês. O novo compromisso coincidiu com um momento em que já refletia sobre os próximos passos da carreira jurídica.
"Eu decidi mergulhar de vez nisso", relatou.
Desde então, passou a trabalhar integralmente com literatura, ampliando a participação em festivais, cursos, oficinas e atividades editoriais.
Essa trajetória também está relacionada ao lançamento de "Música do Mundo", livro em que compartilha reflexões sobre a leitura de poesia.
A obra reúne cerca de 50 tópicos e parte de uma preocupação recorrente em seu trabalho: a percepção de que muitas pessoas ainda consideram a poesia difícil, distante ou destinada apenas a leitores especializados.
Tarso procura desfazer essa ideia, defendendo que o contato com os poemas não precisa ser precedido de formação acadêmica ou domínio de teorias literárias.
"Vá direto aos poemas, leia os poemas, deixe que os poemas falem com você, construa o seu próprio caminho na leitura da poesia", aconselhou.
Para ele, estudar literatura pode enriquecer a experiência de leitura, mas não constitui uma condição para que alguém se aproxime da poesia.
Direito e poesia: o que diferencia as linguagens?
Ao comparar a linguagem jurídica com a poética, Tarso reconheceu que ambas podem ser percebidas como inacessíveis, mas ressaltou que essa dificuldade decorre de características distintas.
No Direito, explicou, a linguagem tem uma função técnica. Os conceitos jurídicos adquirem significados específicos ao longo do tempo e precisam manter certa estabilidade para permitir sua utilização em diferentes situações. Isso, entretanto, não significa que o discurso jurídico precise ser excessivamente rebuscado.
O escritor observou que a própria comunidade jurídica vem discutindo a necessidade de abandonar determinadas práticas linguísticas e que muitos magistrados e profissionais do Direito procuram se afastar do chamado juridiquês.
Na avaliação dele, a exigência de precisão técnica conviveu historicamente com excessos de formalismo, que nem sempre contribuem para a comunicação.
Tarso classificou esse fenômeno como um "rebuscamento vazio" e um "barroquismo à toa".
Já na poesia, a relação com as palavras é diferente.
"A linguagem poética é uma fusão profunda entre aquilo que eu quero dizer e a forma que aquilo exige para ser dito."
Segundo o escritor, não é possível separar completamente o conteúdo de um poema da maneira como ele foi construído. A substituição de uma palavra, por exemplo, pode alterar não apenas sua sonoridade ou organização, mas o próprio sentido da obra.
Essa construção envolve ainda elementos que ultrapassam o significado isolado das palavras, como a disposição dos versos na página, a tipografia e outros recursos expressivos.
Enquanto o Direito utiliza uma linguagem técnica para comunicar conceitos, a poesia trabalha com a reinvenção permanente da linguagem.
"O poeta não separa essas duas dimensões. Ele cria com a linguagem. Ele não usa a linguagem para se referir a algo. Ele cria algo novo com a linguagem."
Tarso destacou que essa liberdade explica a variedade de formas que podem ser reconhecidas como poesia, dos poemas épicos gregos aos haicais, do soneto ao rap, passando pela poesia concreta e pelos versos livres.
Por isso, também considera insuficiente a ideia de que produzir poesia seja apenas dominar técnicas de rima ou métrica.
A criação poética, argumentou, envolve encontrar a forma exigida por aquilo que se pretende expressar.
O que a poesia alcança que o Direito não alcança?
Para Tarso, a particularidade da linguagem poética não representa apenas uma diferença estética em relação ao discurso jurídico, científico ou filosófico. Ela permite acessar dimensões da experiência humana que outras formas de conhecimento não conseguem reproduzir da mesma maneira.
"O poema leva a lugares que só os poemas levam. Eu acredito muito nisso."
Como exemplo, citou A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade, publicada em 1945, em meio ao contexto do fim da Segunda Guerra Mundial. Segundo ele, a leitura da obra proporciona uma experiência sobre aquele período histórico que não pode ser simplesmente substituída por um estudo de História, Sociologia ou Direito.
Não se trata de negar a importância dessas áreas, mas de reconhecer que a poesia oferece uma forma própria de compreensão da realidade.
O escritor lembrou ainda que pensadores como Freud, Nietzsche, Heidegger e Marx foram leitores de poesia e estabeleceram, em diferentes medidas, diálogos com a literatura. Para Tarso, esse encontro demonstra a importância da criação poética para a própria história do pensamento.
"É por ser reinventada permanentemente que a linguagem poética é capaz de chegar em lugares que outras leituras não vão nos levar."
Machado de Assis
Questionado sobre qual obra não jurídica recomendaria aos profissionais do Direito, Tarso de Melo destacou Machado de Assis.
A escolha, segundo ele, está relacionada à capacidade do escritor de observar criticamente as instituições, os valores sociais e as aparências que marcaram a formação brasileira.
Tarso apontou que o universo jurídico mantém relações históricas com determinadas formas de elitismo, formalidade e representação social, aspectos que aparecem de maneira particularmente aguda na literatura machadiana.
"O campo do Direito é tão, em grande medida, caricato nessa relação com as instituições, com os valores, com um certo discurso, com uma aparência de um certo elitismo", observou.
Na avaliação do poeta, Machado de Assis soube identificar essas características ainda na segunda metade do século XIX, construindo um retrato das contradições que ajudaram a definir o Brasil.
"Ninguém falou melhor disso do que o Machado de Assis", afirmou.
O escritor contou que mantém os volumes de contos machadianos sempre próximos, ao lado do computador. Quando precisa interromper o trabalho, costuma abrir um deles aleatoriamente e reler alguma narrativa. Entre tantas possibilidades, indicou como porta de entrada o conto "Teoria do Medalhão".
Na narrativa, Machado de Assis apresenta uma conversa entre pai e filho na qual são transmitidos conselhos para alcançar prestígio e reconhecimento social. A ironia do texto expõe a valorização das aparências, das convenções e da posição social em detrimento do pensamento próprio.
É justamente essa capacidade de revelar mecanismos de funcionamento da sociedade que torna a obra especialmente interessante para leitores do universo jurídico.
Tarso, contudo, fez questão de destacar que a literatura não precisa ser lida apenas por sua utilidade profissional ou intelectual.
Para ele, Machado de Assis também é um autor que proporciona prazer e diversão.
Os livros de cabeceira
Ao falar sobre seus autores preferidos, Tarso brincou que sua casa inteira funciona como uma grande cabeceira, tamanha a quantidade de livros que o acompanha. Entre os escritores aos quais retorna com frequência, mencionou Carlos Drummond de Andrade, Paulo Leminski, Ana Cristina Cesar e Orides Fontela.
O poeta também destacou Fernando Pessoa, cuja obra considera uma demonstração da multiplicidade de possibilidades da linguagem poética.
"Fernando Pessoa é um livro de cabeceira, ainda que tire o sono", brincou.
Apesar das indicações, Tarso ressaltou que nenhuma experiência literária pode ser reproduzida integralmente por outra pessoa.
"Os livros têm vida própria, porque nós, leitores, temos vidas diferentes."
Assim, mais do que seguir uma lista obrigatória de clássicos, considera importante que cada leitor construa seu próprio percurso.
Ampliar a vida
Tarso defendeu que a leitura não deve ser encarada apenas como instrumento de conhecimento ou aprimoramento profissional. Para ele, os livros também oferecem diversão, ampliam a percepção do mundo e acrescentam complexidade à experiência cotidiana.
A reflexão vale tanto para autores clássicos quanto contemporâneos e, especialmente, para profissionais que convivem diariamente com textos técnicos, como ocorre no Direito.
"Você não perde nada em ler. Você ganha, ganha a vida, ganha a complexidade da sua vida", afirmou.
Depois de décadas conciliando processos judiciais e poemas, Tarso de Melo passou a dedicar seu tempo integralmente à literatura. A experiência nos dois campos, porém, permanece como parte de sua trajetória e de sua compreensão sobre as diferentes possibilidades da palavra.
Para o escritor, a poesia não precisa substituir outras formas de conhecimento, tampouco justificar sua existência por alguma finalidade prática. Seu valor está justamente na capacidade de oferecer uma experiência que nenhuma outra linguagem consegue proporcionar da mesma maneira.
Raio-X das obras
As formas selvagens da alegria

Reúne poemas escritos entre 2019 e 2022, período marcado por tensões políticas, sociais e pessoais. A obra explora os contrastes entre a vida cotidiana e os acontecimentos do mundo, transitando entre a angústia, a resistência e a possibilidade de encontrar alegria em meio às adversidades.
Desdobrar Paulo Leminski

Dedicado à trajetória e à produção literária de Paulo Leminski, o ensaio apresenta aspectos biográficos do poeta curitibano e examina as principais características de sua obra. Tarso também reflete sobre a permanência de sua influência na poesia brasileira e oferece referências para leitores interessados em conhecer melhor sua produção.
Rastros: antologia poética 1999-2018

Publicada para marcar os 20 anos da estreia literária de Tarso de Melo, a antologia reúne 155 poemas e algumas séries produzidos ao longo de sua trajetória. Organizados sem seguir uma ordem cronológica, os textos permitem observar diferentes momentos de sua escrita e estabelecer novas relações entre poemas de épocas distintas.
Música do mundo: introduções à poesia

Em ensaio dividido em cerca de 50 tópicos, Tarso apresenta diferentes caminhos para a leitura de poesia. A obra aborda a história, as formas e as possibilidades da linguagem poética, recorrendo a autores clássicos e contemporâneos. Voltado também a leitores não especializados, o livro procura desfazer a ideia de que compreender poesia exige formação acadêmica ou conhecimentos técnicos prévios.
