Defensora pública e romancista premiada: Conheça Mariana Salomão Carrara
Ao Migalhas, autora falou sobre formação literária, influência da Defensoria em sua escrita e o novo romance inspirado no cotidiano do Judiciário.
Da Redação
domingo, 13 de setembro de 2026
Atualizado em 9 de outubro de 2026 11:19
Antes de se tornar defensora pública, Mariana Salomão Carrara já sabia que seria escritora.
A relação com as palavras começou ainda na infância, assim que aprendeu a escrever. Primeiro vieram pequenas histórias, crônicas e contos. Na adolescência, os textos ganharam fôlego e se transformaram em romances, que Mariana fazia questão de mostrar aos professores e à família.
Na hora de escolher uma profissão, porém, a literatura dividiu espaço com o Direito. Mariana conta que se interessava pelas humanidades e pela organização da vida em sociedade, embora a faculdade não tenha despertado nela o mesmo encantamento provocado pela escrita.
Foi na Defensoria Pública que encontrou uma forma de aproximar o Direito da realidade das pessoas.
"É um campo de atuação que você está com a população, você está aplicando o Direito na sociedade."
A escolha pela carreira veio ainda no início da graduação. A escrita, por sua vez, nunca deixou de acompanhá-la.
Confira a conversa no Instância Literária e conheça a trajetória de Mariana Salomão Carrara entre o Direito e a Literatura.
Literatura e Justiça
Defensora pública desde os 24 anos, Mariana considera que a experiência profissional inevitavelmente atravessa aquilo que escreve.
Para ela, todo escritor leva para os livros sua própria visão de mundo, mesmo quando questões sociais não aparecem de maneira explícita ou argumentativa. Na Defensoria, o contato cotidiano com conflitos familiares, desigualdades e situações de violência contribuiu para formar esse olhar.
A influência, porém, também ocorre no sentido inverso.
Mariana define a literatura como um "treinamento empático": um exercício de ocupar outras vozes, experimentar perspectivas alheias e tentar compreender dores que não são as próprias. É justamente nesse ponto que, para ela, literatura e Justiça se encontram.
"Você entender a vida do outro, entender que os casos são histórias, são pessoas, não são casos jurídicos. Então fica uma dialética."
Inspirações e trajetória
Entre as autoras que marcaram sua formação está Lygia Fagundes Telles, cuja obra Mariana conheceu aos 14 anos, ao encontrar "As meninas" na biblioteca. Ela recorda ter se encantado com a intimidade da escrita, a construção dos narradores, os gestos e o convívio entre os personagens.
Também passaram por sua formação autores portugueses como António Lobo Antunes, José Saramago, José Luís Peixoto e Dulce Maria Cardoso, além da brasileira Elvira Vigna.
A trajetória como autora começou cedo. Aos 20 anos, ainda na faculdade, publicou Idílico, romance escrito durante o colégio. Depois vieram outras experiências independentes, entre elas "Fadas e Copos no Canto da Casa" e uma coletânea de contos lançada após vencer o prêmio Off Flip de Literatura.
Um novo momento começou em 2019, também durante a Flip, quando venceu uma chamada da editora Nós para publicar "Se Deus Me Chamar Não Vou".
A partir de 2020, o livro aproximou Mariana de leitores para além de sua rede e abriu espaço para a participação em clubes de leitura.
"Isso é uma troca que realmente transforma a vida do escritor, e do leitor também, acredito."
Na sequência vieram "É sempre a hora da nossa morte amém" e "Não fossem as sílabas do sábado", publicado pela Todavia. Este último chegou aos palcos, tem adaptação para o cinema em perspectiva e recebeu o Prêmio São Paulo de Literatura.
Com "A árvore mais sozinha do mundo", Mariana voltou a conquistar o prêmio. O livro nasceu de uma pesquisa sobre produtores de tabaco no Rio Grande do Sul e a exposição a agrotóxicos e traz ainda uma particularidade narrativa: parte da história é contada por seres não humanos.
Em 2025, a autora também estreou na literatura infantil com "Sabor paciência", ampliando ainda mais o repertório de sua produção.
O Judiciário vira literatura
Depois de cerca de 15 anos atuando no Direito, Mariana decidiu aproximar de maneira mais direta sua experiência profissional da ficção.
Em seu romance mais recente, "Cláudia Vera Feliz Natal", o cotidiano do Judiciário torna-se, pela primeira vez, matéria central de sua literatura. A obra acompanha a trajetória de um jovem magistrado e marca o encontro mais explícito entre dois campos que sempre conviveram na vida da autora.
A aproximação, no entanto, exigiu tempo. Embora a experiência como defensora pública já influenciasse sua maneira de observar personagens, conflitos e desigualdades, Mariana conta que precisou amadurecer antes de colocar o ambiente jurídico no centro de uma narrativa.
"Finalmente eu trouxe o Judiciário para dentro desse meu universo literário. Precisei esperar 15 anos para amadurecer isso."
Raio-X das obras
Se Deus Me Chamar Não Vou

Maria Carmem tem 11 anos, quer ser escritora e observa com humor, estranhamento e melancolia o mundo dos adultos. Entre a escola, a família e a "loja de velhos" mantida pelos pais, a menina enfrenta a solidão e formula suas próprias perguntas sobre amor, morte, corpo e existência.
É sempre a hora da nossa morte amém

Aurora, uma mulher de mais de 70 anos, é encontrada descalça e desmemoriada à beira de uma estrada, procurando por uma mulher chamada Camila. Enquanto tenta reconstruir suas lembranças, passado e imaginação se confundem em uma narrativa atravessada pelo medo da morte, pela amizade e pela maternidade.
Não fossem as sílabas do sábado

Uma tragédia inesperada transforma a vida de Ana e Madalena, vizinhas que pouco se conheciam e passam a compartilhar o luto. Enquanto Ana espera o nascimento da filha que criará sem o marido, as duas mulheres se aproximam e constroem uma relação marcada pela perda, pela maternidade e pela possibilidade de recomeçar.
A árvore mais sozinha do mundo

Em uma pequena propriedade rural no Sul do país, Guerlinda, Carlos e os filhos vivem do cultivo de tabaco em meio às exigências da lavoura, à exposição a agrotóxicos e às tensões familiares. A narrativa acompanha esse cotidiano por perspectivas incomuns, inclusive a de objetos e elementos não humanos que cercam a família.
Sabor paciência

No dia em que completa cinco anos, Gabriel encontra uma sorveteria cheia de sabores, mas precisa enfrentar uma enorme fila para conseguir seu sorvete. Voltado ao público infantil, o livro transforma a espera em uma história sobre paciência e a percepção da passagem do tempo.
Cláudia Vera Feliz Natal

Um jovem juiz precisa se explicar ao tribunal pela demora em decidir um processo sensível. Em uma espécie de defesa autobiográfica, ele revisita sua passagem pelas comarcas de Cláudia, Vera e Feliz Natal, no Mato Grosso, enquanto episódios do cotidiano forense expõem a burocracia, as relações humanas e as contradições de um sistema que pretende organizar a vida dos outros.
