Com atrasos em entregas e centenas de ações, Kitchens pede recuperação judicial
Fabricante de móveis planejados de luxo enfrenta crise financeira, fechamento de lojas e disputas com consumidores que buscam devolução de valores pagos.
Da Redação
quinta-feira, 29 de outubro de 2026
Atualizado às 16:41
Após acumular reclamações por atrasos na entrega de móveis planejados e enfrentar uma série de ações judiciais movidas por consumidores, a Kitchens, tradicional fabricante de móveis de luxo, ingressou com pedido de recuperação judicial nesta quinta-feira, 29, perante o TJ/SP.
A solicitação foi apresentada conjuntamente por quatro empresas do grupo econômico, em meio a uma crise financeira que tem provocado o fechamento de unidades comerciais e levado clientes à Justiça para tentar recuperar valores pagos por produtos que, segundo alegam, não foram entregues.
Levantamento realizado pelo Migalhas identificou, ao menos, 133 ações judiciais ajuizadas só em 2026 contra a Kitchens, distribuídas entre os Tribunais de Justiça de São Paulo, Minas Gerais, Ceará e Distrito Federal.
As demandas envolvem, principalmente, pedidos de rescisão contratual, restituição de pagamentos e indenizações por danos materiais e morais.
Com mais de seis décadas de atuação no mercado de móveis planejados de luxo, a Kitchens enfrenta uma crise financeira que tem deixado consumidores a ver navios: sem os produtos contratados e, em alguns casos, recorrendo à Justiça para tentar recuperar os valores pagos.
Fundada em 1964, a fabricante se consolidou no segmento de alto padrão, com projetos personalizados para cozinhas, dormitórios e outros ambientes residenciais. Segundo seu site institucional, chegou a contar com 20 lojas distribuídas pelo país, além de uma fábrica própria em Guarulhos, na Grande São Paulo.
Pedido de recuperação judicial
O pedido foi apresentado por Kitchens Indústria e Comércio Ltda., Kitchens Decorações Planejamento de Interiores e Comércio Ltda., Kitchens Empreendimentos Imobiliários e Participações Ltda. e 6S Serviços e Participações Ltda.
Ao analisar a solicitação, a juíza Larissa Gaspar Tunala, da 3ª vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível de São Paulo, determinou a redistribuição dos autos a uma das varas regionais empresariais da 1ª Região Administrativa Judiciária, por entender que a competência para processar o caso é definida pela localização do principal estabelecimento do grupo, situado em Guarulhos/SP.
A magistrada não analisou o mérito do pedido, cujo processamento ainda depende de apreciação pelo juízo competente.
Panorama das ações judiciais
Levantamento do Migalhas considerou processos ajuizados em 2026, identificados a partir de consultas pelo CNPJ da Kitchens no polo passivo, com assuntos relacionados ao direito do consumidor, responsabilidade do fornecedor, rescisão contratual e pedidos de indenização.
Ao todo, foram encontrados 133 registros nos quatro tribunais pesquisados.
A maior concentração está em São Paulo, com 110 ações, o equivalente a aproximadamente 83% do total identificado. Em seguida aparecem o Distrito Federal, com dez processos, Minas Gerais, com oito, e Ceará, com cinco.
No TJ/SP, as demandas estão distribuídas entre a capital e municípios do interior. O Foro Central Cível da cidade de São Paulo concentra 47 registros na planilha consultada.
Os números representam os processos identificados nos quatro tribunais pesquisados e não correspondem, necessariamente, à totalidade das ações existentes no país. O levantamento também não significa que houve reconhecimento judicial de responsabilidade da empresa em todas as demandas.
Fechamento de lojas
A crise também se reflete no encerramento de unidades comerciais. Em Fortaleza, a Kitchens foi alvo de uma ação de despejo relacionada ao atraso no pagamento do aluguel de um imóvel comercial.
Segundo o "Diário do Nordeste", a proprietária do imóvel apontou uma dívida superior a R$ 104 mil, incluindo honorários advocatícios.
A Justiça determinou o despejo em agosto, mas a empresa desocupou voluntariamente o espaço em setembro.
Na ocasião, a fabricante afirmou que já havia decidido encerrar as atividades no endereço, por considerar a operação economicamente inviável, e que os atendimentos e serviços de montagem na região seriam mantidos.
Em Brasília, uma unidade da marca também foi encontrada fechada pela "Folha de S.Paulo" no início de outubro. Na entrada, um aviso informava que o estabelecimento estava temporariamente fechado para auditoria interna.
- Processo: 4213329-13.2026.8.26.0100