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Entrevista - Miguel Reale Júnior

Depois de "Escuridão na Clareira" e "O Rio e o Mar", Miguel Reale Júnior lança para o deleite de seus já seguidores leitores, seu terceiro romance : "O Juramento".

Da Redação

terça-feira, 28 de julho de 2009

Atualizado em 27 de julho de 2009 11:42


"O Juramento"

Depois de "Escuridão na Clareira" e "O Rio e o Mar", Miguel Reale Júnior lança, para deleite de seus seguidores leitores, "O Juramento", seu terceiro romance.

A obra é uma narrativa impactante onde romance, ética e lealdade se mesclam para construir a personalidade e apresentar as tragédias pessoais de seus personagens.

Melhor a cada livro.

Este é o escritor Miguel Reale Júnior, que combina, em "O Juramento", elementos históricos e costumes da década de 40, configurando uma surpresa bem articulada aos leitores.

 

 


"Escuridão na Clareira", "O Rio e o Mar" e "O Juramento"

  • Confira abaixo entrevista exclusiva com o escritor :

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Migalhas

: Seguindo uma linha parecida, o senhor publicou "Escuridão na Clareira", "O Rio e o Mar" e agora "O Juramento". Seus críticos dizem que a cada livro escrito o senhor foi lapidando a linguagem e incrementando o suspense. Que diferença o senhor enxerga entre o Miguel Reale Junior que escreveu "Escuridão na Clareira" e o que escreveu "O Juramento" ?

Dr. Miguel Reale: Ainda bem que os críticos consideram que fui lapidando a linguagem e incrementando o suspense. Efetivamente, trata-se de um aprendizado. Publiquei anteriormente dois livros de contos, "Dez Mulheres" e "Avessos". Foi um desafio enfrentar o campo do romance. Continuo a escrever contos, ainda em revisão, mas o romance exigiu do meu espírito sintético um esforço maior. O primeiro romance, "Escuridão na Clareira", foi um teste, uma experiência. Criticado por alguns, elogiado por outros, hoje entendo que posso, pela experiência, dar mais consistência à trama, maior cuidado ao entorno, maior dedicação ao perfil psicológico dos personagens. Enxergo-me, portanto, em contínuo aprendizado.

Migalhas: Os dois primeiro livros citados podem ser encaixados no gênero policial. Como o senhor definiria esse gênero ?

Dr. Miguel Reale: O gênero policial, a meu ver, tomando dois autores consagrados como exemplo, Agatha Christie e Simenon, consiste em uma trama focada na análise das frustrações e emoções humanas, a serem perscrutadas pela lógica de uma investigação que traz, como ingrediente essencial, a busca do autor do crime, procurando, desse modo, envolver o leitor. Não vejo diferença essencial entre o gênero chamado "policial" e o romance psicológico.

Migalhas: O senhor é doutor em Direito pela USP, também é professor universitário, e tem uma vida dedicada a essa carreira. Em sua opinião, que pontos de encontro há entre o Direito e o gênero policial ?

Dr. Miguel Reale: A literatura trata de forma discursiva e aberta de temas essenciais do direito. Questões de direito das sucessões, de direito de família e mesmo comercial são abordadas em romances, a traduzir um momento cultural do qual é o direito, em sua normatividade, uma expressão. Acabo de escrever, para uma coletânea de Direito e Literatura, capítulo que versa sobre o livro de Conrad, Lord Jim. O trabalho intitula-se: "A culpabilidade e o drama de Lord Jim”. Esta conexão entre Direito e Literatura, amplamente estudada nos Estados Unidos, vem sendo objeto de análise na pós-graduação da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul por Judith Martins-Costa. Pode-se, portanto, verificar em contos e romances pontos de encontro com o Direito. No caso do romance policial o conhecimento de processo penal auxilia na construção da investigação, no procedimento a ser seguido, mas o importante é relacionar o objeto do romance com temas do direito substancial, o que a meu ver se pode bem verificar no recente romance "O Juramento".

Migalhas: Agora sobre o seu mais recente livro. Que questões o senhor pretendeu abordar em "O Juramento" ?

Dr. Miguel Reale: Em "O juramento", a questão de direito sucessório vem à tona, na busca de solução à exigência, constante do Código Civil, de que metade dos bens deve ser destinada obrigatoriamente aos herdeiros necessários, quando o drama do personagem, o velho Juca, era pretender, pelo testamento, estender os braços além da morte para destinar os bens amealhados conforme seu afeto. Mas o drama essencial de "O juramento" está na degringolada de uma família mineira tradicional nos anos 40 do século passado, na cidade de Pouso Alegre. Indaga-se, afinal, qual a força da transmissão de valores pelos pais, pelos preceptores, pelos orientadores espirituais, em vista das mudanças de costumes que, então, o mundo apresentava. A firmeza das convicções tradicionais esbarrou, ao longo da vida, com os caminhos escolhidos pelos filhos, futuros herdeiros. Em "O juramento" busca-se esquadrinhar este drama, inclusive mediante solução jurídica que o Código Civil de 16 permitia.

Migalhas: Em "O Juramento", a personagem Eduardo diz que a função do advogado é "ser orientador jurídico, mas também esteio psicológico". O senhor acha que isso efetivamente ocorre nos dias de hoje ? Em sua opinião, que lição os que iniciam no Direito tiram de Eduardo ?

Dr. Miguel Reale: O papel do advogado sempre foi e sempre será a de um aconselhador. O valor básico da advocacia é a confiança que une o cliente ao advogado. O cliente entrega o problema nas mãos do advogado, mas espera, também, que além da solução jurídica, no foro, venha uma orientação de conduta, até mesmo em questões da mais exclusiva intimidade, e especialmente para se evitar a lide, a contenda. O advogado deve se conscientizar deste seu papel. O advogado não exerce um comércio de venda de petições. Isto é que deve ser preservado como marca da advocacia, especialmente hoje em vista de grave perigo pela proliferação de faculdades de direito que apenas visam à comercialização de diplomas.

Migalhas: A história de "O Juramento" se passa na década de 40. Que diferenças o senhor enxerga entre o Judiciário nessa época e o Judiciário hoje ? O senhor acha que houve melhoras ?

Dr. Miguel Reale: Tudo é diverso. A começar pelo número de processos, apesar de que a crise atual do Judiciário não reside apenas no grande número de processos, mas no pequeno número de partes para tantos processos, ou seja, há demandantes contumazes, que lotam o Judiciário, em especial as entidades públicas, União, Estados, Municípios e empresas públicas, além das concessionárias. Há pouco acesso à Justiça para a população pobre. Mas, as diferenças são imensas: mentalidade dos partícipes da Administração da Justiça, preparo dos mesmos, nível ético dos advogados e corrupção do Judiciário, natureza dos temas em discussão absolutamente diferentes. Universos tão distintos impedem uma comparação nos termos propostos.

Migalhas: Escrever livros exige não apenas dedicação, mas também formação – e não estamos falando apenas de formação acadêmica, mas de vivências. Como os laços familiares, mais especificamente com seu pai, o Professor Miguel Reale, contribuíram para o desenvolvimento do escritor Miguel Reale Junior?

Dr. Miguel Reale: Muito assimilei dos ensinamentos de meu pai, a começar por sua visão humanista e pela inserção do direito no mundo da cultura, a perceber que o direito é condicionado pela história e condicionador da história. Esta perspectiva auxilia na percepção do drama humano. Mas, creio que a advocacia criminal e a leitura de literatura e de história são as principais fontes inspiradoras da criação literária, ao abrir o espírito para as contingências humanas, para o olhar cuidadoso na direção da vivência de desejos, de frustrações, do exercício de vícios e de virtudes que se entrelaçam.

Migalhas: Apesar de publicar muitas obras, o Professor Miguel Reale não publicou nenhum romance, coisa que o senhor já realizou. O que isso significa para o senhor ?

Dr. Miguel Reale: Cada um de nós, meu pai e eu, tivemos formas diversas de encarar a vida. Tivemos muita convivência compartilhada e muitas vezes desacordo. Poderia dizer, parafraseando Chico Buarque, que nossa relação deu-se com divergência e com afeto. Sob esta perspectiva é impossível entrar em uma emulação infantil: eu escrevi romance, você não!!!!

Migalhas: Apesar de ser um chavão, nossos leitores gostariam de saber : para o senhor, escrever literatura é...

Dr. Miguel Reale: Uma terapia, um prazer.

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Leia mais

  • 16/6/09 - Jurista Miguel Reale Júnior completa hoje quatro décadas de magistério - clique aqui.

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