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A vida por detrás do crime e a desconstrução da ilusão da escolha

Enquanto houver "um" Daniel dentro do sistema carcerário, atrever-me-ei a defendê-los, mesmo que sob todo o tipo de injuria da classe média.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Atualizado às 11:23

O ambiente era sujo, fétido, sem ventilação, lá, acumulavam-se seres humanos, sem nenhum acesso a cultura e lazer, do outro lado dos muros, a sociedade chamava aquele local periférico de favela.

As crianças observavam atentamente os adultos no único ambiente de lazer lá presente, os poucos bares que abrigavam os muitos frequentadores que lá, por vezes, estabeleciam negócios escusos, todavia, necessários a manutenção da família.

Daniel ouvira em determinada ocasião, quando de um comício num bairro vizinho, que o Estado deveria cumprir com o mínimo necessário para que todas as criaturas humanas tivessem o mínimo para sobreviver e ainda, o suficiente para assegurar-lhe um porvir mais digno e humano.

Todavia, lá, na favela, onde vivia com sua esposa e dois filhos, não havia acesso a nenhum dos serviços dos quais o outrora candidato e, hoje político eleito, falara.

Não havia acesso a escolas de qualidade, não havia espaço para lazer, sem saneamento básico, com o esgoto a céu aberto. Quando chovia, as enchentes se encarregavam de destruir todo o pouco que acumulara, e nos dias quentes, a falta de ventilação tornava o santuário doméstico um inferno.

Daniel observara que alguns dos moradores vestiam-se de forma mais ostentosa e, nos finais de semana, podiam até mesmo levar os seus filhos a parques e cinemas, o que ele nem poderia imaginar para os seus filhos, vez que lá, na casa de Daniel, todo o dinheiro oriundo do seu emprego como auxiliar de serviços gerais era destinado a manutenção do lar.

Em uma noite fria de inverno, não obstante o vento que adentrava pelas frestas de madeira nas paredes, tornando o ambiente ainda mais gelado, sua filha mais nova, Barbara, de apenas três anos, adoeceu, queimando em febre madrugada adentro.

Daniel, desesperado, sem acesso ao transporte público, aquela altura da madrugada e, sem recursos para arcar com um táxi, passa a pedir dinheiro emprestado aos vizinhos, contudo, ninguém detinha meios de socorrê-lo.

Daniel, então, volta para a sua casa e, após ser recepcionado pela esposa, em desespero, recebe a informação de que a febre não cedeu, pelo contrário, a pobre menina convulsionava sobre a cama, prestes a desfalecer.

Tenta-se uma ligação para o serviço de atendimento hospitalar, quem sabe, uma ambulância seria a solução, todavia, Daniel, sabia que todos os serviços demoravam-se demais para chegar até lá. Houve uma ocasião, inclusive, em que um homem, vitima de homicídio, ficou a beira da estrada durante doze horas até a chegada do furgão do Instituto Medico Legal, para que o leva-se e desse prosseguimento aos tramites de analise e liberação do corpo para a família enlutada.

Ora, Daniel não poderia de forma alguma esperar pelo Estado, justo ele, o Estado, que só se fazia presente sob a forma de repressão pelo braço armado, vez que todos ali eram comumente tratados como marginais. Dirigiu-se até a casa daquelas pessoas que, a pesar de morarem ali, ostentavam melhores condições de vida.

Bateu a porta, foi atendido:

- Boa noite, por favor, chamo-me Daniel, minha filha encontra-se enferma; até mesmo, convulsiona sobre a cama, temo pela vida dela; preciso de dinheiro para levá-la ao hospital e comprar medicamentos. Ajuda-me!

O interlocutor, rapaz jovem, bem agasalhado, ostentando uma pistola que sobrepunha à calça jeans, tendo a coronha à mostra, impõe condições:

- Tudo bem, entretanto, saiba que aqui, uma mão lava a outra e as duas mãos lavam a cara, portanto, quando eu precisar de sua ajuda, não poderá me dar às costas; entendidos?

Daniel rumou para casa com R$ 300 nas mãos, ligou para um táxi, levou a filha ao pronto atendimento; a menina, após uma analise clinica superficial fora diagnosticada com virose, sendo medicada e retornando para o santuário doméstico em situação mais acalentadora.

Dois dias se passaram até que o vizinho credor batesse a porta de Daniel:

- Preciso de sua ajuda, deve entregar esta sacola a uma pessoa que estará a sua espera na rodoviária, em frente ao embarque para a capital. Vou passar a sua descrição e tal pessoa irá lhe abordar, a única coisa que precisa fazer, é entregar-lhe a sacola.

Daniel vestia calça jeans e camiseta preta básica, era alto, magro e negro; segurava a pesada sacola de feira com pesar, vez que desconhecia seu conteúdo e temia pela sua segurança.

Chegando à rodoviária, em frente ao setor de embarque para a capital, foi abordado por um homem bem vestido, branco, com barba vistosa e postura altiva; o que ambos olvidavam, era que o homem estava sendo monitorado pela policia, quando fora passar a sacola, ambos foram abordados e presos em flagrante por trafico de drogas.

Da delegacia para o presídio, preso em flagrante por tráfico de drogas, surpreendido com dois quilos de maconha e um quilo de pasta base de cocaína, aguardaria o julgamento em regime fechado.

Dentro do sistema prisional, sabia que lhe restavam duas opções, o seguro ou o convívio. Se optasse por ficar no seguro, junto com policiais condenados por crimes comuns e estupradores, em caso de rebelião, sofreria certamente uma morte violenta; se optasse pelo convívio, teria que conviver com as facções criminosas que geriam a política interna no cárcere.

A fim de evitar os riscos de uma morte cruel, optou prontamente pelo convívio. Lá, ao adentrar a galeria, fora generosamente recebido pelos apenados, eis que o verdadeiro dono da droga era membro da facção criminosa e, já havia alertado seus comparsas acerca do recém chegado, que assumira a autoria do crime, dizendo-se proprietário da droga, afinal, sabia que se entregasse o verdadeiro dono, colocaria a vida de toda a sua família em risco e por certo, acabaria morto.

Fora logo convidado a integrar o PCC; Primeiro Comando da Capital, não podendo fazer desfeita diante de convite tão honroso, segundo os costumes do lugar, aceitou e foi batizado na facção.

Finalmente, após três anos de prisão preventiva, na audiência de instrução e julgamento, ouvira calado à sentença que ora lhe foi imputada; dez anos de reclusão; ao que Vossa Excelência, por fim, arrematou:

- Daniel, pagará o preço por escolher o caminho da vida fácil; espero que neste tempo de reclusão você reflita acerca do mal que causou à sua família e, saia do sistema um homem regenerado!

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*Nelson Olivo Capeleti Junior é analista jurídico na Schulze Advogados Associados.


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