Domingo, 24 de setembro de 2017

ISSN 1983-392X

Cultura organizacional na advocacia

Fernanda Campos

Os sócios que investem em gestão de pessoas e ambiente corporativo fundamentados em qualidade do trabalho, políticas de remuneração, plano de carreira e demais atividades de ordem institucional, tem como retorno profissionais produtivos e, consequentemente, clientes satisfeitos.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

A globalização trouxe inúmeras mudanças, especialmente de comportamento, para a sociedade como um todo, inclusive, para as empresariais. No mercado, a competitividade e as novas formas de organização do trabalho passaram a ser essenciais para as corporações. As grandes empresas começaram a compreender que os profissionais e colaboradores são a chave mestra da vantagem competitiva.

A cultura organizacional seria o lado humano das corporações, ou seja, é o conjunto de símbolos, linguagem, valores, práticas, hábitos, métodos e princípios daquela empresa e de sua interação com o público. Assim, a cultura organizacional será o fio condutor das ações, sendo o fundamento da norma de conduta, que direciona e orienta os colaboradores em todas as relações internas e externas, com fornecedores e com toda a rede de contatos da empresa. Podemos definir a cultura corporativa como um conjunto de regras multidimensionais da constituição do grupo social de trabalhadores.

Dentro desse espectro, percebemos o impacto dessa diretriz que os colaboradores seguem organicamente ao interagir com o ambiente externo e reproduzir a marca da empresa, como eles recebem influências, bem como influenciam o mercado.

Transportando esse conceito, muito explorado e motivo de atenção de inúmeras corporações para o mercado jurídico compreende-se facilmente a importância da cultura organizacional dentro dos escritórios de advocacia, tendo em vista que ela pode selar o sucesso ou insucesso do negócio. Isso porque, embora a função precípua do Direito seja o cunho social, a rotina das bancas se aproxima cada vez mais de ambientes corporativos.

São poucos os escritórios no Brasil em que os sócios fundadores entendem e estimulam a importância da compreensão da missão, visão e valores da banca por cada colaborador e, assim, incorpore seus fundamentos, "vestindo a camisa" da banca. A necessidade dessa clareza é essencial pelo fato de que todos os profissionais terão, em algum momento, contato com os clientes e a comunicação deve sempre seguir a mesma fluidez, tom e princípios, para que não ocorram discursos dúbios e até contraditórios. Lembrando que reverter um mau atendimento ou uma má impressão é tarefa árdua, além de prejudicar a marca, muitas vezes, de maneira irreversível.
Mesmo com a importância de um bom ambiente de trabalho, a realidade mostra que grande parte dos fundadores, passado algum tempo do marco inicial de seus escritórios, não reconhece seu próprio negócio, que já possui uma cultura própria gerada de forma orgânica, com hábitos, atitudes, comportamentos, crenças, valores e expectativas compartilhados pelos integrantes e que não condiz com a forma que eles haviam concebido originariamente o escritório.

Esse problema é compreensível quando se entende que a rotina da advocacia é exaustiva, com todos os profissionais, de sócios a estagiários, empenhados no cumprimento dos prazos, na melhor negociação, na elaboração de pareceres, defesas árduas e no acompanhamento da produção legislativa e jurisprudencial. E é exatamente dentro desse cotidiano estressante que as distorções surgem.

A política organizacional deve ser exposta e esclarecida a todos os colaboradores, não somente ao corpo jurídico. A falta entendimento dessas diretrizes, seja por não compreensão ou por ineficiência na divulgação, cria um obstáculo para o bom desenvolvimento do negócio. Nesse aspecto, os sócios necessitam ter a sensibilidade de perceber que impor verticalmente novas políticas em um ambiente que já possui normas orgânicas e que naturalmente regulam as situações também não é sensato e pode gerar um problema maior ainda para a gestão do escritório. Os gestores têm de considerar que uma cultura clara e transparente pode motivar os colaboradores e auxiliar o escritório a crescer.

É importante frisar que o ambiente de um escritório é diverso de qualquer outro tipo de empresa e deve-se avaliar sempre as ações e estratégias a serem aplicadas. A inércia em lidar com problemas palpáveis e relatados pode gerar situações de desconforto e de falta de sinergia entre os colaboradores, podendo acarretar na rotatividade de profissionais (turnover), além do impacto na prestação do serviço e consequências desfavoráveis para a marca. Ou seja, além de uma equipe competente, é indispensável entender que a cultura organizacional desenvolve diretrizes para que o empreendimento seja bem-sucedido.

Diante dessa constatação, fica claro que os sócios que investem em gestão de pessoas e ambiente corporativo fundamentados em qualidade do trabalho, políticas de remuneração, plano de carreira e demais atividades de ordem institucional, tem como retorno profissionais produtivos e, consequentemente, clientes satisfeitos. Certamente, a cultura organizacional é algo não estanque: está viva e deve ser adaptada às transformações inerentes à prática de atividade, até porque estamos tratando da prestação de serviços customizado e de relações humanas e o escritório fica sujeito à transformação natural do ambiente. É imprescindível, entretanto, a constante atenção para que essas mudanças reflitam em melhoria do ambiente, em um atendimento mais eficiente e na reputação do nome da banca.

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*Fernanda Campos é sócia do DCMS Estratégia Jurídica.

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