Domingo, 16 de junho de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Adúltero (O)

Quem vê o doutor Francisco José da Silva Junqueira Júnior não diz que ele é um juiz. O modo calmo de falar, os passos lentos, aqueles pés abertos, que lhe haviam valido no seminário o apelido de "dez pras duas", aquela capa negra esvoaçando pelo corredor do tribunal, mais parecem dizer respeito a um padre do que a um magistrado. Reparando bem dá até para adivinhar o breviário que ele traz nas mãos em concha, cumprindo o prazeroso dever das horas santas.

Na verdade, desde criança o Chico prenunciava uma vida sacerdotal, para alegria de dona Domitila, sua fervorosa genitora, e tristeza do pai, um homem mais prático, pouco afeito a rezas e promessas. Nada de vir pra casa com a roupa suja de lama, com as pernas lanhadas, ou com algum animalzinho que houvesse caçado, como fazia o irmão mais velho. Nem formiga ele matava, respeitando o direito à vida daqueles pequeninos seres de Deus. Desviava-se dos formigueiros, com o incrível argumento de que elas haviam chegado ao sítio antes deles. Logo, tinham precedência. Prius in tempore, prius in jure, viria a dizer no futuro.

A família, à exceção da mãe, não via com bons olhos aquele modo precoce do garoto, que foi crescendo enfiado com a cara nos livros. Nem namorada ele parecia querer, o que, naquele tempo, era motivo de escândalo. Não tinha isso de o rapaz apresentar aos orgulhosos pais "este é o Carlinhos, meu novo namorado". Isso dava surra de cinta! Os irmãos e os colegas bem que o levavam às festinhas, regadas a cuba-libre, mas ele ficava no seu guaraná, para desespero de todos. Se o arrastavam para uma dança, era um desânimo só, o que afastava dele qualquer garota.

Certa vez, na aula de filosofia, uma colega de classe, cortejada por dez entre dez colegas, inconformada com a indiferença do Chico, sapecou, em voz alta, um exemplo de raciocínio lógico, um silogismo: "todo homem gosta de moça; o Chico não gosta de moça; logo ...". A risada dos colegas foi o que bastou para que ele tomasse uma decisão drástica: fez as malas e se mudou para o seminário, numa cidadezinha no sul de Minas. E ali ficou alguns anos, fazendo aquilo de que mais gostava: ler, ouvir música e dedicar seu tempo livre à contemplação da natureza.

A cada semestre rumava para a cidadezinha natal, onde ficava o tempo suficiente para matar a saudade e receber da mãe os afagos que despertavam a ciumeira dos irmãos. Quando menos esperavam, ele se despedia e retornava ao seminário, o seu agora verdadeiro lar.

Ocorreu - e sempre ocorre alguma tentação na vida dos santos - que numa dessas idas ao lar materno o nosso futuro sacerdote foi vítima da tentação do demo. Foi assim: os irmãos conseguiram convencê-lo a ver a fonte luminosa que o novo Prefeito havia inaugurado, há pouco, na praça central, dita praça da matriz. Ali, como em tantas cidades do interior, ocorria, nas noites dos fins de semana o chamado "roça-roça", que consistia num ritual bem conhecido de quantos já moraram em alguma dessas cidades. As moças, em dupla, trio ou quarteto, caminham pela calçada, indo daqui para lá e de lá para cá, assim como quem circula numa passarela. O segredo está em fazer um ar de indiferença, como se não houvesse os rapazes, também em dupla, trio ou quarteto, plantados no centro da praça, conversando como quem não quer nada com aquelas oferecidas que por ali passam e repassam, casamenteiras.

Pois lá está o Chico seminarista, com aquele seu jeito beato, incapaz de produzir o ar de indiferença que as circunstâncias exigem. Ao contrário, enquanto finge ouvir aquela conversa desagradável de quem conta vantagem na suposição de que os circunstantes vão dar crédito, seus olhos cruzam com um par de olhos verdes que, na falta de melhor figura de retórica, atuaram como as luzes de um semáforo. Eu sei que a imagem é pobre, mas foi isso que ocorreu ao nosso seminarista, que, encabulado, mudou logo a luz para o vermelho e deu à insuportável conversa mais atenção do que ela merecia, apressando o retorno para o lar paterno.

Naquela noite o rapaz não dormiu o sono dos justos. Antecipou, com alguma desculpa, o retorno ao seu edênico refúgio, onde o padre Napoleão lhe assegurou que a vida sem tentação é insípida. Que desse graças a Deus por aquele par de olhos verdes, que serviriam, quando mais não fosse, para testar sua vocação sacerdotal. A partir daí, nosso seminarista encarava os sonhos que passou a ter como mensagens divinas, a testar-lhe a real vocação sacerdotal. E acordava com um inescondível sorriso nos lábios.

Surpreendentemente, o Chico apareceu na cidadezinha natal num desses chamados feriados prolongados, coisa que jamais havia feito antes. Pretextou estar à procura de certo documento, mentira que levou à conta de meio ilícito que justifica um fim justo. Quem reparasse bem notaria uma certa ansiedade no rapaz, especialmente quando se aproximava a noite do sábado. Procurou mostrar naturalidade quando os irmãos fizeram o convite para o passeio na praça. Até fingiu uma certa indiferença, preferindo passar a noite na companhia da mãe, pobre ingênua que insistiu para que ele fizesse exatamente aquilo por que ele tanto ansiava, o cínico. E lá vão eles para o "roça-roça".

Animados na conversa, os parceiros do Chico não repararam em sua ausência. Quando dão de si, lá está ele em conversa com a filha do coletor estadual, como então se chamava o arrecadador de impostos estaduais, cujos olhos verdes mais verdes pareciam emolduradas por um vestido negro, que realçavam sua pele clara, cujo rosto jamais conhecera make-ups e que tais. E agora os dois se encaminham - péssimo sinal! - para a sorveteria da Rita, onde se tomava o mais delicioso sorvete artesanal da cidade. E onde muitos pais e avós haviam feito os primeiros elogios à que viria a ser sua companheira de toda a vida. Que deu no Chico de ir tomar sorvete, senhor?

Agora eles se encaminham para a casa da moça, naquele passinho de quem pretende impedir que as estrelas caminhem, de quem deseja parar o tempo, de quem busca a eternidade do amor. Claro que ele não havia chegado ainda a essa conclusão, mas o calor que trazia nos lábios, mesmo diante do sorvete que se lhe derretia na mão, afogado que estava naqueles dois laguinhos verdes, seria por ele mais tarde facilmente identificado.

Sua carreira sacerdotal derreteu-se como o delicioso sorvete da sorveteria da Rita. Para não fugir do hábito negro, tornou-se advogado. Mas logo descobriu que não era a beca que lhe substituiria a batina, mas a toga. E eis o Chico seminarista convertido em Sua Excelência o doutor Francisco Junqueira.

O fato de haver deixado o seminário não o afastou, seguramente, das práticas religiosas. Ao contrário, com mulher e os vários filhos, era comum vê-lo na missa dominical, humildemente aguardando sua vez na fila da comunhão, para gozo das velhinhas que, com suas fitas de Filhas de Maria, o encaravam com compreensível orgulho. Era "um dos nossos", como certamente comentavam entre si.

E tudo iria na mais sacrossanta paz não fosse aquela terrível audiência. Dessas audiências inesquecíveis, que mais inesquecível ficou depois do incidente a que me vou referir.

Foi assim: a sala de audiências estava apinhada de gente. Eram os clássicos autor e réu, mais seus patronos. E havia litisconsorte ativo, com seu advogado, e denunciado à lide, também com seu procurador judicial. E, para não dizer que exagero, vou dizer que o curador de menores também estava presente. E depondo estava justamente uma das acima citadas Filhas de Maria, que respondia às perguntas com o mesmo sorriso beatíssimo que usava aos domingos, embora fosse dia de semana. Perguntas, respostas, impugnações, deferimentos, indeferimentos, um pandemônio.

A certa altura, aparece na porta da sala a figura feminina mais conhecida da pequena cidade. Botas e mini-saia negras, blusa decotadíssima, lábios num vermelho fogo exagerado, olhos sombreados a mais não poder. Todos os presentes, sem qualquer exceção, voltaram-se para ela, fazendo-se um silêncio de morte. Animada pela recepção, Shirley, a mais notória inquilina da casa de madame Rosita, avança em direção à mesa do juiz, sobre a qual, sem a menor cerimônia, deposita a bolsa, que ela se põe a abrir com lentidão de slow motion. Silêncio absoluto, só quebrado pelo ventilador que não respeitava aquela homenagem. Ela retira um cartão da bolsa e, com gesto exagerado, dando um rodopio na mão, entrega ao juiz.

"Estou de mudança para a Capital e vim lhe entregar este cartão com meu novo endereço", eis o que todos ali ouviram.

Agora até o ventilador silenciou. O escrevente foi ficando vermelho, na mesma proporção em que o juiz ficava pálido. No rosto dos presentes era possível adivinhar os pensamentos, principalmente do Dr. Silveirinha, um notório desafeto do juiz, cuja catolice ele não aceitava, pois lhe tirava a necessária neutralidade. E no rosto do brilhante causídico se poderia ler algo como "esse tipo nunca me enganou". Nos olhos da filha de Maria se poderiam descobrir duas gotinhas d'água se avolumando. Os demais eram estátuas de pedra. Ou de sal.

O escrevente, com uma voz vinda lá das catacumbas, tentou falar alguma coisa. "Excelência! Excelência!". E quem ouvia? Foi necessário que ele ficasse de pé, entre a Shirley e o juiz, e, num esforço supremo, quase gritando, explicasse: "É o seguinte, Excelência. Essa senhora esteve depondo aqui, num processo criminal, há uns dois meses. E eu adverti que, se ela mudasse de residência, deveria, nos termos do artigo 224 do Código de Processo, avisar o Juízo." E enfatizou bem: "o Juízo!"

O rosto do Dr. Silveirinha agora era ódio puro. Seu olhar fuzilava o escrevente, cuja rapidez mental o levara a construir tão notável álibi a favor daquele carola adúltero.

Do livro Menos Verdades - Causos Forenses ou quase (inédito)

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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

Como pontua o jornalista Juca Kfouri na apresentação do livro, os casos contados são deliciosos e exemplares, tanto para o bem quanto para o mal.

E, em cada linha, o autor transpira personalidade, seja na fluida linguagem, seja na criativa construção da narrativa: garantias de uma prazerosa leitura.

Cada exemplar da obra custa apenas R$ 35,00.