Terça-feira, 25 de junho de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Estados alterados

E quem não gosta de fugir deste quase insuportável mundo, escondendo-se num outro, ainda que por breve tempo, onde não há doença, nem morte, nem guerra, nem preocupação, nem vigaristas inventando formas as mais diversas de nos enfiar a mão no bolso? Até as crianças sabem disso, pois, aparentemente sem o menor motivo, passam a girar, e girar, e girar, até perder o equilíbrio e cair dando uma eloquente gargalhada, que também não tem explicação.

Deixei de frequentar baile de carnaval quando vi uns jovens imitando aquelas crianças, mas potencializando a tontura com lenço empapado sabe-se lá de quê. Ronaldinho, dia desses, foi crucificado por haver promovido uma "festa de embalo" que atravessou a noite e o dia, segundo dizem. Só ele faz isso?

O Sigmund, que não era criança, carnavalesco nem jogador do Bayern de Munique, descobriu as maravilhas da cocaína, cantada em prosa e verso desde meados de 1800, chegando até a ceder seu nome a certo refrigerante cuja fórmula secreta talvez explique o número incrível de adeptos no mundo todo. Até o Papai Noel entrou na história, sendo-lhe imposta uma fantasia da cor oficial da tal bebida, que nem carro da Ferrari era.

Em 1860 foi lançado na Itália o vinho Mariani, que se tornou famoso porque tinha como um dos seus bebedores habituais ninguém menos do que o cardeal Vincenzo Gioacchino Raffaele Luigi Pecci Prosperi Buzzi. Não conhece? E se eu disser que ele a certa altura da vida passou a chamar-se Leão XIII? Era tão fissurado no tal vinho, que chegou a condecorar seu fabricante, Ângelo Mariani. Pois dizem as más línguas que aquele Papa ainda não foi canonizado porque não conseguiu libertar-se daquele pozinho que ficava no fundo do copo do tal vinho.

Pois Freud descobriu as maravilhas terapêuticas desse mesmo pó, receitando-o a seus pacientes, certamente para trazer para a luz do dia os fantasmas guardados nos porões e nos sótãos das mentes desses pacientes. O mais famoso deles talvez tenha sido Ernst von Fleischl-Marxow, que se encantou tanto pelo remédio que morreu de overdose. E olhe que nem era roqueiro nem ator de cinema com direito a Oscar póstumo.

Na minha juventude, o papa era outro, Aldous Huxley, que, em 1954, publicou sua experiência com drogas que alteram a mente, principalmente a mescalina, num livro chamado As portas da percepção, que causou alvoroço por ser ele quem era, membro da elite intelectual inglesa e autor de um livro premonitório, Admirável mundo novo, publicado 22 anos antes. Experimentou outros alucinógenos, com a finalidade de "abrir a mente", inclusive o Lysergic acid diethylamide, conhecido por suas iniciais: LSD, celebrizada na Lucy in the Sky with Diamonds, dos Beatles (clique aqui). Epa! Como é que L., S. e D. podem ser as iniciais de Lysergic acid diethylamide? Isso só pode ser coisa de gente chapada. O fato é que eu sou de 37 e o ácido lisérgico é de 1938, crescemos juntos, ele fazendo mais estragos do que eu, especialmente no meio artístico, pois poucos foram os artistas que não embarcaram numa trip patrocinada pelo tal ácido. Um desses roqueiros confundiu os bolsos e cheirou as cinzas do pai, mesmo porque pedras que rolam não juntam musgo, como diz o nome do conjunto a que pertence ele. O nome do conjunto de rock The Doors, por exemplo, foi uma homenagem ao escritor. Muitos dos usuários dessas drogas não voltaram de uma bad trip. Tão alucinadas podem ser essas viagens que o produto está na prateleira dos alucinógenos, como o Ecstasy, o Peyote (ou Mescalina) e o Ayahuasca.

As substâncias alucinógenas (ou psicodélicas) são de efeito imprevisível, pois formam um conjunto de experiências estimuladas pela privação sensorial, daí a semelhança com os efeitos de algumas drogas lícitas (psicotrópicos), ministradas por médicos, especialmente psiquiatras. Essas experiências incluem alucinações, mudanças de percepção e estados alterados de consciência semelhantes a sonho e êxtase religioso.

Muitas religiões primitivas utilizavam esse estímulo químico em seus rituais, coisa que os entendidos, como o Mircea Eliade (clique aqui), denomina xamanismo.

A questão que se coloca é: se esses produtos têm o efeito de alterar o estado da mente, podem ser utilizados em rituais religiosos sem fiscalização médica? Conheci um padre que tinha autorização especial do Vaticano para celebrar missa sem beber o vinho, pois era alcoólatra e bastava uma dose para alterar seu modo de agir. Foi preso certa vez em flagrante por haver furtado um ônibus. Certamente achando que ninguém notaria. Também conheci mais de um juiz que apresentavam a mesma doença. Aliás, o filme Coração Louco (Crazy Heart), que deu a Jeff Bridges o merecido Oscar de melhor ator este ano, aborda exatamente as possíveis consequências da descontrolada ingestão do álcool, que, tanto quanto o cigarro, sempre foram personagens constantes das produções cinematográficas, fossem norte-americanas, fossem francesas. Cito, por todos esses atores, o Humphrey Bogart, que pertencia aos dois times, só se livrando da dependência alcoólica em razão da insistência de uma atriz 25 anos mais nova do que ele, com quem, aliás, veio a casar-se, Lauren Bacall, que ele, por motivos óbvios, chamava de my baby e com quem viveu até a morte.

Pois se até o cinema está revendo a cultura dos chamados vícios sociais, como justificar-se que a chamada sociedade civil feche os olhos para a utilização indiscriminada dos alucinógenos, em nome do respeito que se deve às convicções religiosas?

Aliás, sendo o Brasil um Estado laico, caberia aos nossos legisladores definir o que se deve entende por religião, pois qualquer pessoa pode abrir um espaço de culto onde até outro dia era uma oficina mecânica e praticar ali o que bem entenda, em nome da constitucional liberdade de escolha religiosa. As consequências práticas disso são do conhecimento geral.

Demais disso, algumas dessas religiões não têm compromisso algum com o além. O negócio (a palavra só pode ser essa) deles é com o aquém e o agora. Conheci várias pessoas de baixa condição econômico-financeira que entregavam o pouco de que dispunham aos membros dessas religiões, algumas das quais chegam a empregar leões de chácara, que, em lugar de ficar do lado de fora do templo, para evitar a entrada de pessoas inconvenientes, ficam do lado de dentro, encostados acintosamente na porta fechada, intimidando essas pessoas simples, que só sairão se vencerem aquela barreira humana ou se depositar dinheiro numa urna durante cerimônia que faz lembrar o bordão de um personagem de Chico Anísio sobre uma tal sacolinha. Só falta o pastor mandar abrir a Bíblia no Evangelho de Nelson Hungria, versículo 171.

Todos sabemos de pessoas que foram lesadas por esses cristãos de fancaria, mas, ao que eu saiba, o Ministério Público de nosso Estado nunca havia tido em suas mãos as provas que andam circulando na Internet a respeito desses apóstolos de Cristo pós-moderno. Ei-las: clique aqui.

Com a palavra o Dr. Fernando Grella Vieira.

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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

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