Sábado, 15 de junho de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Cegueira

Em um pequeno grande livro, "Milagres em Mateus", Editora Paulinas, Jerome Murphy O’Connor convida-nos a uma reflexão. Segundo ele, quando Mateus narrou os milagres de Jesus, não teve ele a intenção de efetuar apenas um registro de fatos históricos, mas, antes e acima de tudo, o propósito de trazer os milagres como atos de Revelação, como sinais de uma Verdade. Um Jesus apresentado como realização daquilo que estava predito pelos Profetas e já dito na Lei. Um Jesus como Senhor e como Resposta à fé.

Dentre os milagres atribuídos a Jesus, mais de um se refere à cegueira. Ou seria o mesmo milagre descrito de forma diferente pelos vários Evangelistas?

João narra um desses milagres com exclusividade. Logo, não consta ele do livro de O’Connor. Ei-lo: passando Jesus, viu um cego de nascença. Note-se o pormenor: "de nascença". Perguntaram-lhe os discípulos: "Mestre, quem pecou? Ele ou seus pais, para que nascesse cego?"

Pausa: a atualidade daquela indagação é evidente. Todos nós, sem exceção, fazemos essa mesma pergunta diante de uma criança que nasça sem algum atributo físico ou psíquico que esperaríamos que ela tivesse. Ou a morte de alguém querido. "Que mal eu fiz para ser assim castigado?" Quando morrem pessoas queridas, nós nos lembramos daquele célebre sermão do padre Vieira: a morte é justa, pois leva, dia mais dia menos, todos os seres humanos. Mas, dizia ele, às vezes nos parece tão injusta, porque leva antes quem deveria, a nosso ver, levar depois.

Jesus responde àquelas indagações e às nossas: "Nem ele nem seus pais, mas isso sucedeu para que se manifestassem nele as obras de Deus. É preciso que Eu faça as obras daquele que me enviou enquanto dure o dia. Está para chegar a noite, quando ninguém pode trabalhar. Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo".

Deu para entender? Certamente não. Nem os companheiros dele entenderam, motivo pelo qual ele fez uma encenação: cuspiu no chão, fez com a saliva um pouco de barro, untou com ele os olhos do cego de nascença e mandou que se fosse lavar numa piscina situada ali adiante. Nome da piscina? Siloé, que quer dizer Enviado. O cego foi, lavou-se e voltou curado. Isso não consta do livro, porque Mateus a isso não se refere. Quem faz essa descrição é o evangelista João, no capítulo 9, versículo 1 e seguintes.

Agora você entendeu. Não?

Se Jesus fala em dia e noite é porque ele se considerava o Sol. Aliás, o dia em que se comemora o Natal corresponde à festa pagã do deus Sol. E o Sol é um símbolo frequente nas religiões antigas.

Em seguida, surge o cego de nascença. A cegueira não é, em si mesma, uma noite eterna? Jesus poderia ter feito com este cego o que fizera com Bartimeu, o cego de Jericó, quando uma simples palavra restituiu-lhe a visão, como dizem Lucas, no capítulo 18, e Marcos, no capítulo 10. Mateus acrescenta um novo dado: houve um toque de mão, como se lê no capítulo 20.

João, citando o mesmo fato, ou outro, quem sabe? acrescenta a lama. Por que lama? Essa lama, no caso, é formada de saliva e húmus. Tentemos descobrir o que está por trás disso.

Lá no livro da Criação, ou Gênesis, quando o seu autor se refere a Deus como um ser antropomórfico, isto é, com feição e sentimentos humanos, a criação do ser humano é assim descrita: Deus, com suas humanas mãos, toma de uma porção de húmus, forma com esse material um bonequinho e sobre ele derrama um sopro, um espírito, como diriam os gregos, uma alma, como diriam os latinos. Eis o homem vivo, corpo e alma. É o que está no segundo capítulo do Gênesis. Agora, quando se cuida de curar a cegueira, não é mais o simples sopro (espírito) o que sai da boca de Deus: é algo mais concreto. Esse algo concreto que sai de Deus e se mistura com o húmus, o que é, senão o próprio Jesus? Deus, agora como lama, como barro, como humano (feito de húmus) se dispõe a curar a cegueira natural (de nascença) dos homens. Basta que estes o aceitem e se disponham a lavar-se. Isto é, converter-se, mudar de vida, adotar uma postura diversa daquela que os seres humano, tal como os cegos, ainda não poderiam ter visto como sendo o reto caminho.

Carl Jung, Campbell e tantos outros estudiosos nos mostraram a importância dos símbolos, que, ao longo da História da Humanidade, se revelam nas artes, nas religiões, nos sonhos e na loucura. Que é a cultura senão a busca de compreendermos o incompreendido? Será isso incompatível com a fé?

Lembro-me de uma assustada mãe que justificava haver matriculado a filha em um colégio religioso, um dos mais importantes de São Paulo, pois, a seu ver, "a religião é um freio". Não resisti a isso: "engraçado, em minha vida, a fé está mais para acelerador do que para breque". Acho que ela não gostou da observação.

Conta-se que o bondoso Papa João XXIII visitava um hospital, coisa que ele fez muitas vezes em sua longa vida. Dirigiu-se à ala das crianças, onde dirigia um sorriso a uma, uma palavra a outra, abençoando a todas elas, naquela sua caminhada lenta. Lá no fundo da enorme sala uma voz de menino gritava: "Io voglio vedere il Papa! Io voglio vedere il Papa!"

O Santo Padre, calmamente, ia seguindo seu caminho, até postar-se diante do tal menino, que, mesmo assim, com o olhar perdido, continuava a gritar: "Io voglio vedere il Papa! Io voglio vedere il Papa!" O garoto era cego.

Emocionado, João XXIII não conseguiu evitar que duas lágrimas escorressem pelo seu rosto. Colocou a mão sobre a cabeça da criança e sentenciou, para si e para nós todos: "Siamo tutti ceccati!" Somos todos cegos.

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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


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