Segunda-feira, 23 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Ordem e Progresso

 

"Dois PMS da Unidade de Polícia Pacificadora (RJ) são presos ao invadir casa da zona oeste."

Dos jornais

Volto ao tema, questionando se isso de os positivistas, como meu amigo Gilberto Franco, para quem é Auguste Comte no céu e Jesus Cristo na Terra, dizerem que o progresso decorre da ordem tem alguma base científica. Penso que não.

E volto ao Konrad Lorenz, que tem uma afirmação curiosa: infelizmente, para o destino da Terra, diz ele, o homem não pode ser classificado como carnívoro. Como é isso, mestre? Ele explica: a um de nossos antepassados mais ilustres, o "homem de Pequim", ou sinanthropus pekinensis, se atribui essa invenção maravilhosa, o fogo, coisa que os australopitecos africanos ainda não conheciam, pois haviam chegado apenas à invenção das peças feitas com pedra, graças às quais eles conseguiam matar os seus semelhantes, coisa que assombrou os demais habitantes do reino animal, pois, até ali, nenhum deles matava membros de sua própria espécie. E eis mais um passo importantíssimo no longo caminho para a construção da civilização, coisa aí de um Napoleão, um Hitler, um Stalin, um Bush: se os bisavôs dos africanos eram enterrados tendo ao lado seus instrumentos de guerra, como as tais lanças e machados de granito, os bisavôs dos chineses eram enterrados com claros sinais de que haviam sido não apenas mutilados mas também churrasqueados! Isso não ocorre com os que ele chama de "carnívoros profissionais", pois estes apresentam freios naturais que os impede de voltar sua agressividade contra os de sua própria espécie. Já viu leão comendo leão? A não ser em especiais situações de estresse, uma hiena não come outra hiena, nem um urubu devora outro urubu. A Natureza imprimiu neles esse mandamento: se vocês se matarem uns aos outros, a espécie de vocês se extingue. Isso é bom? "Claro que não", responderam os animais irracionais. Como o "primata superior", que foi criado "à imagem e semelhança do Criador", não teve os mandamentos impressos em seu cérebro antes de seu nascimento, ele se tornou um onívoro, comendo tudo o que aparece em sua frente. E destruindo os membros de sua própria espécie, pois não tem compromisso "natural" com a preservação da espécie nem com o meio ambiente. Muito pelo contrário. Qual o animal que transforma fonte de água potável em veículo de esgotamento de resíduos alimentares, como o Fernando Henrique denomina o esgoto? Isso tudo está dito pelo etólogo alemão num livro cujo título diz tudo: A Agressão.

E é claro que essa destrutividade latente no ser humano e essa falta de compromisso com sua espécie e com o meio ambiente levou ao aparecimento da religião, da moral e bons costumes, das Cruzadas, da liga das senhoras católicas, do suspensório dos homens protestantes, e, no limite, da law and order. Quanto mais lei, mais ordem.

Mas, que é ordem?

A palavra admite mais de um sentido. Um deles diz com a organização. Colocando, na minha biblioteca, os livros de acordo com uma ordem determinada, isso me facilita administrar os livros e a biblioteca. Livro com encadernação descascada, ou jogo fora ou mando à oficina, para que volte novinho em folha, sendo devidamente ubicado, como dizem as biblioteconomistas, para estar devidamente adequado à ordem que eu impus à minha biblioteca. Se eu quero reler o D. Quixote, é só ir ao escaninho 23.121.429 e lá está meu velho xará Alonso, tão quixotescco quanto eu, a me esperar. Se você é de tão tenra idade que não sabe o que significa a palavra "livro", pense no seu computador e seus drives, cada qual com suas "pastas", seus "programas" e seus "arquivos". Pois tudo aquilo está "organizado", isto é, obedece a uma certa "ordem". Acesse "pesquisar", indique duas ou três palavras e, zas!, o computador te mostra o texto procurado.

Isso me remete a uma empregada doméstica da minha querida Maria Helena. Dia de faxina e a zelosa funcionária resolveu arrumar os livros das estantes da biblioteca da ilustre professora, principalmente os que estavam escandalosamente abertos sobre a mesa de trabalho, nunca vi bagunça igual àquela, patroinha! Baixou todos eles das respectivas estantes, limpou-os um a um e, depois de tirar o pó das prateleiras, colocou-os de volta lá, em perfeita ordem. Quando a Maria Helena, voltando da Faculdade do largo de São Francisco, onde ensinava aos seus alunos que o Direito Internacional Privado nem é internacional nem é privado, topando com aquela "arrumação", deu um berro que foi ouvido quatro quadras adiante. A cuidadosa moça explicou então: os livros de capa vermelha estão nas prateleiras da esquerda, os de capa preta nas prateleiras da frente e os de outras cores nas prateleiras da direita. Eu bem que ia jogar fora aqueles que não têm capa colorida, pois eles destoam dos demais e nem combinam com o tapete, mas resolvi esperar a senhora voltar. Eles estão ali no canto. É só mandar que eu jogo tudo no lixo. Aliás, tem ali uns bem velhinhos!

Para muita gente, é esse tipo de ordem que os governantes devem impor aos seus súditos.

Ordem também é a determinação que se faz a algum subordinado. Faça isto, não faça aquilo, tire o dedo do nariz, teje preso!, abra as pernas. Fala-se até em "ordem de prisão", não é mesmo? Ordena quem pode e obedece quem tem juízo, diz o vulgo. Isso nada tem a ver com algum fundamento axiológico, se é que me faço compreender. Ordem, nesse caso, não supõe organização, mas autoridade, palavra que nos levaria a tantos desvios que.

Os conceitos de ordem que conhecemos dizem com a organização social? Que está por trás disso? Mandamentos divinos e regras humanas têm em comum algo facilmente perceptível e que não conta ponto a nosso favor: "se deixarmos a coisa por conta dos seres humanos, salve-se quem puder!" Que outro motivo haveria para dizer o óbvio? "Não se deve matar!" "Não se deve roubar" "Deve-se pagar imposto" e tudo aquilo que a imaginação do legislador, humano ou divino, sabe que não pode ficar a critério da liberdade humana. Imagine Deus tendo de dizer aos pássaros: "e não se esqueçam de abrir as asas, ein?"

No que diz com o homo sapiens, deixou sem regulamentação? Aguente as consequências. Na Noruega, por exemplo, com toda aquela pose de país de Primeiro Mundo, petróleo sobrando no Mar do Norte, licença maternidade de um ano com salário integral, caderneta de poupança custeada para o recém-nascido até os dezesseis anos e tudo mais, a bebida alcoólica só é vendida onde e quando a rainha autorizar. Aqueles marmanjões de cabelo cor de fogo, capazes de pegar bacalhau à unha, abrir garrafa de cerveja com os dentes e nadar pelados nos fjords, só podem comprar vinho até as 14 horas do sábado. Chegou à loja da rainha (a venda de bebida alcoólica é monopólio do Estado) um minuto depois, volte na segunda-feira, depois das dez. Prestasse mais atenção na hora.

Eu poderia falar do que se passa na China, nos Estados Unidos, na Europa, França e Bahia, além do Paquistão e do Iraque. Preciso? Acho que posso deixar a escolha ao critério do leitor. O fato é que, quando algum país resolve afrouxar esse regramento todo ("sabe que na Holanda o cara pode ficar chapado, sem ir em cana? Maior legal, mano!"), olha a cara de espanto dos idiotas de plantão!

Chegado até aqui, noto que ainda não foi desta vez que consegui concluir meu raciocínio sobre essa falácia do "ordem e progresso". Deve ser coisa da idade. Os neurônios vão ficando desorganizados. Ou, se preferirem, fora de ordem. O que nos servirá para questionar se, de fato, a desordem dos fatores não altera o produto final.

Busca verbete por título

A B C D E F G H I J L M N O P Q R S T U V X Z

* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

Como pontua o jornalista Juca Kfouri na apresentação do livro, os casos contados são deliciosos e exemplares, tanto para o bem quanto para o mal.

E, em cada linha, o autor transpira personalidade, seja na fluida linguagem, seja na criativa construção da narrativa: garantias de uma prazerosa leitura.

Cada exemplar da obra custa apenas R$ 35,00.