Sábado, 15 de junho de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Nossos inesquecíveis mestres

A partir de uma sugestão da Patrícia

Coincidentemente, no último sábado, dia 15, exatamente no dia 15, revi, depois de tantos anos, o nosso professor Faraco. Não é mais aquele boa pinta dos tempos do colégio, mas está enxuto nos seus sessenta e tantos anos. Ainda justifica a brincadeira que o Coelho (ou seria o Castor?), lembra-se dele?, emérito trocadilhista, fez certo dia: "Ele se diz Faraco por modéstia. Temos professores bem mais faracos do que ele".

O fato é que eu seguia apressada pela rua que me levaria ao largo da Matriz e encontrei meu antigo professor de latim, que eu não via há muitos anos. Ele exibiu um sorriso franco e me perguntou: "Maria, comes cara, quo is?" Achei estranho aquilo porque jamais havíamos conversado sobre minhas preferências gastronômicas. Tantos anos sem nos vermos e ele vem com uma pergunta dessas? Positivamente! Aliás, tenho alergia por frutos do mar. Comer caracóis, eu, nem pensar. Se é que caracol é fruto do mar. Foi o que eu lhe disse. Eu tinha pressa porque estava a caminho de um cinema, onde, segundo eu soube, estavam exibindo filmes bíblicos, um dos quais era mencionado frequentemente por meu falecido pai.

"Maria, aonde vais?" indagou-me ele.

"Soube que está sendo exibido um filme no cineclube da pracinha ali adiante e vou ver o filme de hoje, de que meu pai falava muito, pois se refere a uma passagem bíblica" respondi. Ele, curioso a mais não poder, quis saber o nome do tal filme. É uma expressão latina. O filme se chama Quo vadis?, disse-lhe eu. Eu quase sem tempo e ele queria porque queria continuar a conversa.

"Por acaso você sabe o que quer dizer essa expressão latina?", indagou-me.

Eu nunca fui boa aluna de latim, aliás, um aprendizado inútil. "Não tenho a menor ideia", disse-lhe eu, procurando safar-me daquela conversa que já estava me aborrecendo.

"Aonde vais?" disse-me ele.

Positivamente meu professor foi pego pelo alemão. Já não chega minha avó lá em casa que repete a mesma pergunta vezes e vezes? Agora vem esse camarada, que esteve escondido até hoje, a cruzar o meu caminho com perguntas impertinentes. Soube que está sendo exibido um filme no cineclube da pracinha ali adiante e vou ver o filme de hoje, de que meu pai falava muito, pois se refere a uma passagem bíblica. O nome do tal filme é uma expressão latina. O filme se chama Quo vadis? repeti, com ar de enfado.

"Por acaso você sabe o que quer dizer essa expressão latina?" repetiu ele.

"Não tenho a menor ideia", disse-lhe eu, procurando safar-me daquela conversa que efetivamente estava me aborrecendo.

"Aonde vais?" disse-me ele.

Agora não tenho mais dúvida: meu ex-professor foi efetivamente pego pelo alemão. Já não chega minha velhíssima avó que repete a mesma pergunta vezes e vezes e agora vem esse camarada, a cruzar o meu caminho com perguntas impertinentes. Soube que está sendo exibido um filme no cineclube da pracinha ali adiante e vou ver o filme de hoje, de que meu pai falava muito, pois se refere a uma passagem bíblica. O nome do tal filme é uma expressão latina. O filme se chama Quo vadis? repeti, com ar de enorme enfado, até porque eu já me via como uma velhinha alzheimática.

"Por acaso você sabe o que quer dizer essa expressão latina?" repetiu ele. "Não tenho a menor ideia", disse-lhe eu, apressando o passo e procurando safar-me daquela conversa idiota. Fomos andando os dois na mesma direção e ele não desistia.

"Aonde vais?" perguntou-me ele.

Agora tenho certeza absoluta: meu ex-professor de latim efetivamente padece do Mal de Alzheimer. Está parecendo minha insuportável avó que repete e repete a mesma pergunta vezes e vezes e agora vem esse velhinho gagá cruzar o meu caminho com a mesma pergunta? Soube que está sendo exibido um filme no cineclube da pracinha ali adiante e vou ver o filme de hoje, de que meu pai falava muito, pois se refere a uma passagem bíblica. O nome do tal filme é uma expressão latina. O filme se chama Quo vadis?, repeti pausadamente, com ar de enfado ainda maior e apressando ainda mais o passo.

"Por acaso você sabe o que quer dizer essa expressão latina?" repetiu ele.

"Não tenho a menor ideia", disse-lhe eu, procurando safar-me daquela conversa que já estava desafiando o limite da minha paciência. Fomos andando os dois na mesma direção, quase correndo, até chegarmos ao cinema. Ele deu uma gargalhada e fuzilou: "Maria, comes cara, quo is? quer dizer Maria, companheira querida, aonde vais? E o nome do filme também quer dizer Aonde vais?".

Deu-me um tchauzinho e me fez nova indagação, agora ainda mais descabida: "Mater tua mala burra est?".

"Alto lá", disse-lhe eu, já nem ligando mais para o filme. "Xingando minha mãe por que?".

Malum era o nome latino da maçã. Mala é o plural = maçãs. O vermelho era indicado tanto por rubrus como por burrus. Mala burra, portanto, quer dizer maçãs vermelhas. E est tanto pode ser a terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo esse (ser) com a terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo edere (comer). Foi o que ele me explicou, sempre rindo. Em seguida, certamente para melhorar o clima que se havia estabelecido, convidou-me para um chá da tarde, que aceitei, mesmo porque o filme certamente já havia começado, eu estava gostando do rumo da conversa e pretendia dar-lhe o troco.

Entre goles de chá e mordiscadas nos brioches, a conversa prosseguiu e ele me disse o que faz quando está no mar e as águas começam a ficar revoltas: No vi oras. Estranhei a afirmação, pois já passava do meio-dia. "Teu relógio engasgou, mestre". Nado (no) com toda força (vi) na direção das praias (oras), explicou-me ele, sempre rindo.

Conversa vai, conversa vem, indaguei se ele sabia onde ficava A TORRE DA DERROTA. Mandaram-me procurar ali o ZÉ DE LIMA RUA LAURA MIL E DEZ. Lá fui. "Chove muito ali", segundo me disseram, "e A MALA NADA NA LAMA". Sorte dos galináceos, disse eu, pois O GALO AMA O LAGO. "Em compensação", retrucou-me o informante, "O LOBO AMA O BOLO". Achei a casa e vi que dali SAÍRAM O TIO E OITO MARIAS.

Agora era o meu mestre quem fazia cara de espanto, que fingi não perceber. "Conversei com eles e, pondo um ponto final em nossa entrevista, indaguei: ANOTARAM A DATA DA MARATONA?".

O chá estava muito bom, mas eu tinha de ir. Fiz a última provocação. "Se o dono do bar se chamasse Adão, certamente ele se apresentaria: MADAM, I'M ADAM. E diria à esposa EVA, ASSE ESSA AVE". Ele riu que engasgou. E retrucou com a frase bastante conhecida: "SOCORRAM-ME! SUBI NO ÔNIBUS EM MARROCOS".

"Caro mestre, foi um prazer enorme reencontrá-lo. Lembro-me que na classe todos diziam que você era um mestre na arte de construir palíndromos. Era um cobra no assunto, como dizíamos. Um amigo que não te conhecia certa vez até brincou indagando-me como era A CARA RAJADA DA JARARACA".

O rosto dele se desanuviou de vez, pois já se havia dado conta dos palíndromos que eu havia incluído em minhas frases.

Rimos muito os dois com a brincadeira, despedimo-nos, e ele, muito solene, arrematou: "RIR, O BREVE VERBO RIR".

Sempre é tempo, meu caro mestre. Sempre é tempo.

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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

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