Quarta-feira, 19 de junho de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

arte de pensar, A

À memória de Steve Jobs, um homem que pensava e fazia

Estatisticamente falando, quantas pessoas receberão este texto? Dessas pessoas, quantas iniciarão sua leitura? Dessas, quantas o lerão até o fim? Dessas poucas, quantas refletirão sobre o seu conteúdo? Dessas, quantas expressarão por escrito seu pensamento a respeito daquilo que leram? Acompanhe o que acontece na seção destinada aos leitores deste noticioso e tire suas conclusões.

Estivéssemos na Idade Média, quais seriam as respostas a essas mesmas perguntas? E, no entanto, pessoas, desde a invenção da escrita, procuram comunicar-se. Hoje em dia, até mesmo durante uma sessão de cinema noto algum ansioso manipulando seu telefone celular, a transmitir a alguém algo que lhe veio à mente. Não dá para esperar o término da exibição do filme? Ele, efetivamente, está "vendo" aquele filme? Saberá resumi-lo a alguém depois da sessão?

Quando isso tudo começou?

Os primeiros seres humanos, seja lá o nome técnico que se lhes dê, tinham um problema: a sobrevivência. Isso significava terem de obter alimento e não se deixarem transformar em alimento alheio. Essa necessidade dúplice levou-os a inventarem um instrumento que os auxiliasse a comer carne fornecida por animais de outra espécie e, ao mesmo tempo, não serem comidos por animais mais fortes (clique aqui). Mais tarde o porrete foi substituído pela lança, esta pelo arco e flecha, aperfeiçoando-se a arte de matar, com riscos cada vez menores para o candidato a matador. De geração em geração o cérebro do ser humano foi-se aperfeiçoando, até que aquele porrete inicial chegasse à bomba atômica, a coroação na arte de atacar e defender. O cérebro humano chegou à tecnologia, que, por exemplo, levou Santos Dumont a tornar real o sonho de Ícaro e de Leonardo da Vinci.

Isso foi bom ou foi mau? Santos Dumont, pelo menos, expressou dramaticamente seu desencanto por sua invenção (clique aqui). Certamente o Coronel Paul Tibbets, que deu a seu avião o nome da própria mãe (Freud explica?) e despejou as bombas atômicas, que, por sinal, tinham os freudianos nomes de "Little Boy" e "Fat man", sobre o Japão, a primeira sobre Hiroshima e a outra sobre Nagasaki, não tinha motivos para orgulhar-se de seu feito (clique aqui).

Erich Fromm, já na década de 70, intuíra haver um sério perigo na associação entre o culto da tecnologia e as naturais tendências necrófilas do ser humano. "A fusão da técnica com a destrutividade não se mostrava ainda visível por ocasião da Primeira Guerra Mundial. Havia pouca destruição por parte dos aviões, e o tanque era apenas uma evolução das armas tradicionais. A Segunda Guerra Mundial trouxe uma mudança decisiva: a utilização do avião para a mortandade em massa. Os homens que jogavam as bombas mal tinham consciência de que estavam liquidando ou matando pelo fogo milhares de seres humanos, em poucos minutos. As tripulações aéreas eram uma equipe: um homem pilotava o avião, outro incumbia-se de sua navegação, outro jogava as bombas. Não estavam preocupados com o ato de matar e mal tomavam consciência de um inimigo. Estavam preocupados era com o manuseio de seu próprio avião, uma complicada máquina, construída segundo as linhas mestras referidas em planos meticulosamente organizados. O fato de que, como resultado de seus atos, muitos milhares e, algumas vezes, mais de cem mil pessoas seriam mortas, queimadas e mutiladas era, sem dúvida, do conhecimento deles cerebralmente, mas dificilmente compreendido sob o ponto de vista afetivo. Era um fato, por mais paradoxal que isso possa soar, que não lhes competia. Foi provavelmente por isso que eles – ou, pelo menos, a maior parte deles – não se sentiram culpados por atos que pertencem à lista dos mais horripilantes que um ser humano pode realizar". O nome do livro diz tudo: Anatomia da Destrutividade Humana.

Do Erich Fromm para cá supúnhamos que a utilização do cérebro o aperfeiçoaria cada vez mais, até que ele descobrisse que, vivendo o ser humano em interação com os demais seres vivos, tudo aquilo que ele faz tem efeito boomerang: volta-se a favor ou contra ele. Logo, no limite, diminuir a destrutividade natural seria contribuir decisivamente para preservar o ambiente e, por tabela, a espécie humana. Em suma, o cérebro humano se imporia à tecnologia (clique aqui). Não preciso de muito esforço para demonstrar que isso tudo é só aparência. Na verdade, é o contrário o que vem acontecendo (clique aqui). Ou seja, o cérebro humano perde terreno a cada dia.

Veja se não é. Teus avós sabiam o nome e data de nascimento de todos os seus parentes. O dia de aniversário de cada um era lembrado e festejado. Teus pais liam frequentemente livros e mais livros, e, com isso, armazenavam conceitos, que eram elaborados pelo cérebro, que, assim, produzia ideias. Além disso, sabiam o número dos telefones dos amigos e dos parentes todos.

É claro que continuamos a festejar os aniversários dos amigos e parentes, mas quem nos lembra das datas respectivas não é mais o cérebro da vovó, mas o Facebook. O cérebro ficou dispensado desse trabalho. Não guardamos mais os números dos telefones no cérebro, mas no telefone celular. O cérebro ficou dispensado também desse trabalho. Não mais precisamos pensar para escrever um trabalho técnico ou científico. Vamos ao Google e baixamos tudo o que desejamos. "Cortar e arrastar" é o nome que se dá a uma operação que consiste em manter no computador dados e informações, que passam daqui para lá sem ser armazenados no cérebro. O cérebro ficou dispensado de mais esse trabalho.

Se o cérebro evoluiu à medida que o homem foi precisando dele, agora que adotamos "cérebros externos" para armazenarmos dados passivamente (eles não interagem entre si como faziam quando eram armazenados no cérebro humano), é óbvio que ele, a cada geração, irá ficando cada vez menor, à medida que o abdome do ser humano ficará cada vez maior, principalmente pela pouca movimentação das pernas. E, obviamente também, ficaremos, cada vez mais, menos humanos, pois a tecnologia nos coisifica. A ideia de que o controle remoto da televisão está a nosso serviço é só em parte verdadeira. Dependo tanto dele que não sei o que fazer quando não o encontro. Levantar-me da poltrona, caminhar até o aparelho de televisão e mudar de estação acessando o botão do monitor? Nem pensar. É claro que mais tarde, para compensar as caminhadas naturais que eu não faço, eu vou "andar" na esteira rolante da academia de ginástica. Há coisa mais artificial do que isso?

Tua avó fazia tricô e crochê que, além da economia, ativava o cérebro. Eu fazia tapetes de arraiolo. Você, porém, prefere ir (de carro) ao shopping comprar a blusa pronta. Ou até Miami, onde tudo isso é baratíssimo. Ela fazia bolo, docinhos, temperos caseiros e tanta coisa mais na cozinha. Você, hoje, prefere ver televisão e pedir pizza pelo telefone.

Se eu disser que certamente seus filhos não sabem fazer nem empinar papagaio, também chamado pandorga ou pipa (clique aqui), nem jogar bolinha de gude, nem o jogo da amarelinha, nem pular corda, nem atirar pião de madeira, você me dirá que, em compensação, eles são craques no vídeo game. Aí eu lhe cito um mestre, que é do tempo em que pensar não doía tanto, Millôr Fernandes: "O jogo de xadrez é excelente para desenvolver a capacidade de jogar xadrez".

Substitua "xadrez" por "vídeo game" e verá que estamos na mesma: qual foi o grande campeão de xadrez que contribuiu para o aperfeiçoamento da Humanidade?

Alguns tecnófilos ficam abismados diante de certas proezas técnicas (clique aqui), que, realmente, nos impressionam. Acho importante deixar claro que, a meu ver, sem a tecnologia não teríamos o progresso que os tempos modernos, como diria Carlitos (clique aqui) nos proporcionam. Assim, antes que você diga que a homenagem ao recém-falecido gênio contradiz o que está no texto, eu já retruco: uma coisa é inventar o avião; outra coisa é o uso que alguém resolva fazer dele.

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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

Como pontua o jornalista Juca Kfouri na apresentação do livro, os casos contados são deliciosos e exemplares, tanto para o bem quanto para o mal.

E, em cada linha, o autor transpira personalidade, seja na fluida linguagem, seja na criativa construção da narrativa: garantias de uma prazerosa leitura.

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