Quarta-feira, 19 de junho de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Era do Rádio

Meu pai fumava cigarros Yolanda, que, por sinal, era o nome de minha mãe. Eu tomava banho com sabonete Eucalol e passava Antisardina no rosto, para eliminar aquelas malditas espinhas, e Gumex na cabeça, para assentar meus cabelos. Já minhas irmãs usavam Royal Briar, "o perfume que deixa saudade", até porque o Maderas Del Oriente era muito caro e a Água de Colônia, com estampa da catedral e tudo, era privilégio de nossa mãe, quando ia à missa.

Quando tomava o bonde, à saída do colégio, eu ficava no estribo, driblando o cobrador que vinha atrás da gurizada, com notas de dinheiro dobradas entre os dedos. De vez em quando ele registrava o dinheiro recebido, puxando uma alavanca que produzia um som específico. Nós, que notávamos que os toques eram em número menor do que as passagens vendidas, cantávamos : "blim, blim, dois pra Light e um pra mim". A Light era a proprietária da linha de bondes. Aliás, bond queria dizer qualquer coisa, menos referir-se ao veículo que a Electric Bond & Share havia colocado nos trilhos brasileiros. Quando o bonde chegava ao alto da rua Amaral Gama, depois de sair da Voluntários da Pátria, em Santana, já quase sem fôlego pela subida que havia vencido, nós aproveitávamos a diminuição da velocidade dele e saltávamos, como se aquilo fosse um avião e nós trouxéssemos nas costas um pára-quedas, que evitaria que nos esborrachássemos nos macadames, como por vezes acontecia. Macadame era o aportuguesamento da palavra McAdam, talvez o introdutor daqueles paralelepípedos com que eram calçadas as ruas, antes da introdução do asfalto, que teve a grande vantagem de impermeabilizar as ruas, impedindo que a água da chuva penetrasse na terra entre os vãos dos paralelepípedos, nome com que alguém havia batizado os tais macadames, aumentando, assim, o risco de inundação das casas que ficassem no fim de uma ladeira. Coisas do progresso.

Ninguém, absolutamente ninguém que tenha vivido em São Paulo naquele tempo deixará de recordar-se do belo poema que se lia na parede dos fundos do bonde :

"Veja, ilustre cavalheiro,
Que belo tipo faceiro
O senhor tem a seu lado.
E, no entanto, acredite,
Quase morreu de bronquite.
Salvou-a o Rhum Creosotado".

Eu poderia ainda falar tanto do inconfundível perfume do sabonete Lifebuoy como do Edifício Balança Mas Não Cai, que chegava "ao recesso" de nosso lar pelas ondas sonoras da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, sob o prestigioso patrocínio das Casas da Banha e locução do Manoel Barcelos, transmitida em ondas curtas, com seus chiados característicos. Ou seria "sob os auspícios" do misterioso Regulador Xavier, "o remédio de confiança da mulher", cuja propaganda (reclame, se dizia então, fruto da influência francesa, palavra que, muitos anos depois, seria substituída pela norte-americana comercial) era para mim um enigma indecifrável : "número um, excesso; número dois, escassez".

Eu, naquela época, ainda não sabia que o criador do impagável edifício, que depois se bandeou para a televisão, era um cardiologista : Max Nunes.

O rádio nos trazia as "brigas" entre a Emilinha Borba e a Marlene, um expediente publicitário engrossado pelas reportagens da Revisa do Rádio e pelas fofocas do César de Alencar, que a revolução de 64 levou ao ostracismo, juntamente com o cantor Wilson Simonal, bem mais moço do que ele. E havia o vozeirão do Vicente Celestino, que nos explicava porque se havia tornado um ébrio. Mais o Francisco Alves, "o rei da voz", que se apresentava na mesma Rádio Nacional aos domingos, exatamente ao meio-dia, "quando os ponteiros do relógio se encontram". E ainda o Carlos Galhardo, "o rei da valsa", que havia trocado a profissão de alfaiate pela de cantor, com direito a peruca e cachimbo, à la Bing Crosby. Ou as patacoadas da PRK-30 e seus inesquecíveis personagens, como a fadista Maria Joaquina Dobradiça da Porta Baixa, que era apresentada pelo locutor Megatério Nababo d'Alicerce, e que tinha no repertório este emocionante fado:

"Tirei um retrato a cavalo.
Ficou mesmo uma coisa fina.
Ao vê-lo, alguém perguntou:
Quem és tu ? O de baixo ou o de cima".

Ou est’outro :

"As águas dos mares salgados,
donde nos vem tanto sal,
são das lágrimas choradas,
são das lágrimas choradas,
das praias de Portugal".

E havia também aquela dupla extraordinária, que fazia meu pai, que, no cinema, só via filme do Gordo e o Magro, chorar de rir : Murilo Alvarenga, nascido em 1912, e Diésis dos Anjos Gaia, nascido em 1913. Seu avô, meu caro leitor, acaso se lembrará deles ?

Por mais de 50 anos eles formaram uma dupla caipira que de caipira não tinha nada, a não ser o forçado sotaque e a fantasia com camisa de tecido xadrez e chapéu de palha. Apareceram em mais de 20 filmes, mas gravaram pouquíssimas músicas. Faziam paródias e imitavam os repentistas nordestinos, coisa de um Zé Preá versus Mano Meira ou Ontõe Gago. No duelo mais famoso, eles se referiam a animais com duplo sentido. O burro do teu pai tem puxado muita carroça ? Não tanto quanto a galinha de tua irmã. Por falar nisso, a cadela de tua mãe está melhor? Morreu trasdantontem, atropelada pela elefoa da tua vó.

Começaram com isso nos anos trinta e vieram depois escolher Getúlio Vargas, o todo poderoso ex-membro do Ministério Público do Rio Grande do Sul, para alvo de suas críticas políticas. Certo dia, um carrão preto parou diante do hotel onde Alvarenga e Ranchinho, esse o nome da "dupla que é uma navaia", estavam hospedados. Dois homens mal-encarados os levaram, com as respectivas violas, até o prédio do Catete, sede da Presidência da República. Getúlio, que era fã da dupla, queria uma apresentação especial, para ele e seus convidados. E lá ficaram cantando até alta madrugada.

Entre outras prospectivices, inventaram um bordão notável para o patrocinador do programa. Havia, na ocasião, duas fábricas de fogos de artifício: Adrianino e Caramuru. O programa era patrocinado pelo segundo, que fabricava "fogos que não dão chabu". "Mas que é chabu, compadre ?" perguntava um. "Sei lá, compadre. Eu só uso Caramuru !" respondia o outro. Vejam a inteligência do diálogo, que se utilizava de uma palavra inexistente sem dizer qual o seu significado.

Quando o Chico Buarque escreveu sua maravilhosa Construção, ele, certamente, se inspirou em certa música do Alvarenga e Ranchinho, cujos versos terminam sempre por uma proparoxítona. A antológica Drama da Angélica era uma valsinha sem qualquer complicação rítmica, compasso ternário, naquele pa pa pum, pa pa pum próprio dessas valsas. É uma letra longuíssima, quase impossível de ser decorada, da autoria de M. G. Barreto. Graças ao meritório registro que vem promovendo a gravadora Revivendo, é possível aos mais velhos matarem saudade e aos mais novos conhecerem a criatividade da dupla. Eis a longa letra da música:

"Ouve o meu cântico,
quase sem ritmo,
que é a voz de um tísico
magro, esquelético.

Poesia épica,
em forma esdrúxula,
feita sem métrica,
com rima rápida

Amei Angélica,
mulher anêmica
de cores pálidas
e gestos tímidos.

Era maligna
e tinha ímpetos
de fazer cócegas
no meu esôfago.

Em noite frígida,
fomos ao Lírico
ouvir um músico,
pianista célebre.

Soprava o zéfiro,
ventinho úmido,
então Angélica
ficou asmática.

Fomos a um médico
de muita clínica
com muita prática
e um preço módico.

Depois do inquérito,
descobre o clínico
o mal atávico,
mal sifilítico.

Mandou-me, célere,
comprar noz vômica
e ácido cítrico
para o seu fígado.

O farmacêutico,
mocinho estúpido,
errou na fórmula,
fez de propósito.

Não tendo escrúpulo,
deu-me sem rótulo
ácido fênico
e ácido prússico.

Corri, mui lépido,
mais de um quilômetro
num bonde elétrico
de força múltipla.

O dia cálido
deixou-me tépido.
Achei Angélica
já toda trêmula.

A terapêutica,
dose alopática,
dei-lhe uma xícara
de ferro ágate.

Tomou num fôlego,
triste e bucólica,
essa estrambólica
droga fatídica.

Caiu no estômago,
deixou-a lívida,
dando-lhe cólicas
e morte trágica.

O pai de Angélica,
chefe do tráfego,
homem carnívoro,
ficou perplexo.

Por ser estrábico,
usava óculos:
um vidro côncavo,
outro convexo.

Morreu Angélica
de um modo lúgubre
moléstia crônica
levou-a ao túmulo.

Foi feita a autópsia.
Todos os médicos
foram unânimes
no diagnóstico.

Fiz-lhe um sarcófago,
assaz artístico
todo de mármore,
da cor do ébano.

E sobre o túmulo
uma estatística,
coisa metódica
como Os Lusíadas.

E numa lápide,
paralelepípedo,
pus esse dístico
terno e simbólico:

"Cá jaz Angélica,
moça hiperbólica
beleza helênica,
morreu de cólica!"

"He, he, Caramuru !", como diziam eles enquanto eram aplaudidos.

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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

Como pontua o jornalista Juca Kfouri na apresentação do livro, os casos contados são deliciosos e exemplares, tanto para o bem quanto para o mal.

E, em cada linha, o autor transpira personalidade, seja na fluida linguagem, seja na criativa construção da narrativa: garantias de uma prazerosa leitura.

Cada exemplar da obra custa apenas R$ 35,00.