Quarta-feira, 21 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Causo

"Há informações preliminares do Instituto de Criminalística que nos permitem concluir que ..."

Promotor de Justiça Francisco José Taddei Cembranelli, apud Migalhas de 14.4.2008

"Quando a polícia militar chegou ao local o populacho já estava começando a pôr fogo na cerca de madeira pintada de branco que circundava toda a casa do acusado, pesasse embora ser noite de lua cheia e as roseiras do jardim estarem a exibir, sem o mais mínimo pundonor, um perfume escandaloso", assim começaria o Garcia Marquez a descrição daquela quase morte anunciada. Isso se passou na cidadezinha do interior do Estado em cujo centro havia como era de mister uma igreja matriz junto à qual havia como também era de esperar a casa paroquial na qual a Sebastiana, baiana chegada à cidadezinha há trinta ou quarenta anos, quando menos gorda certamente era, preparava os acepipes paroquiais que era como se chamavam as lautas refeições dos párocos que ali se sucediam e como também era imperioso, a ensejar visitas arcepiscopais com suspeita freqüência segundo as comadres locais.

A tal casa paroquial tinha um diretor que desempenhava os misteres específicos tais como ajeitar a bela igrejinha para as missas diárias, a começar pela das seis que ele acolitava fizesse chuva ou frio ou caísse neve se disso se pudesse excogitar ali, acompanhado sempre da Alice, sua companheira de anos e anos de vida cristã e que lhe dera três filhos um dos quais já os presenteara com dois netos, um dos quais a levar o conceituado nome do avô. O qual, quando não estava na casa paroquial ou secundando o padre Ignácio, estava a colher cana em seu sítio Santa Gertrudes ou a plantá-la ou a lavrar a terra que os tempos estavam muito bons para o álcool agora tornado combustível dos mais apreciados tanto no país como no Exterior que é o que lhe diziam em Piracicaba e como se anunciava no jornal das dez.

Se tudo ali era aquela paz beatífica, por que o populacho ? e, mais do que isso, por que o fogo ? e por que ali ? Eis as perguntas que qualquer pessoa minimamente curiosa haveria de fazer sem necessidade de ser um dos inúmeros jornalistas que ali haviam vindo até mesmo com câmera de televisão fixando a moça com o papel na mão a repetir para si mesma o pequeno texto que deveria representar logo mais tendo a mesma igreja como pano de fundo, cujo relógio lá no alto marcaria então seis horas, dita hora do Angelus, eis o que é um diretor de TV arguto! e que esperava a moça dizer pronto ! e ele a dar a senha é cinco é quatro é três e a moça ajeitando o corpo e o vestido pintalgado de flores é dois é um e ela fica séria e já!

"A pequena cidade de Conceição do Este acordou hoje sob o impacto da notícia que correu pelas tranqüilas e arborizadas ruas do lugarejo : dois cadáveres, dois pequenos cadáveres foram encontrados nesta manhã no interior da casa paroquial escondidos dentro de uma geladeira". Corta para o prédio ao lado onde se lê Casa Paroquial e o cameraman mostra roseiras e mais roseiras ali sorridentes alheias à desgraça ocorrida intra muros e que as flores, a julgar por sua alegria, até aquele momento desconheciam. Novo corte rápido e a mesma repórter de cabelos esvoaçantes entrevista homens e mulheres na pracinha local, mais velhos e mais moços, indagando o que o senhor acha disso ? qual é a opinião da senhora ? E os cidadãos até então orgulhosos de sua pacata cidadezinha vêm o nome dela sendo enxovalhado nos noticiários da televisão, quem apagará essa nódoa que caiu sobre a nossa urbe ? Como disse o prefeito municipal, também alvo de entrevista, o qual confiava na ação enérgica de nossas autoridades constituídas para que um crime hediondo como esse, dito assim mesmo com agá, embora minúsculo, pois o prefeito era formado em Direito, não quedem impunes, assegurados evidentemente a todos os suspeitos os constitucionais direitos relativos à presunção de inocência sentenciou ele que havia feito muitos júris por ali o que lhe havia granjeado a simpatia do eleitorado local sendo granjeado uma palavra que os advogados gostam muito de empregar em suas arengas verbais inda mais diante de uma câmera de televisão, ano próximo haverá eleição para deputado e nunca se sabe o que.

Comecemos pelo princípio : o diretor da casa paroquial naquele trágico dia saiu da missa das seis, que se encerrou, salvo erro excelência, às sete horas da manhã, e se dirigiu ao prédio ao lado para providenciar sua arrumação dado o fato notório de ter havido no sábado transato como declarou depois seu advogado à imprensa o casamento da filha do dono da padaria Esmeralda, nome dado em homenagem a uma filha precocemente falecida do pai do seu co-proprietário o senhor Osório, excelente fotógrafo amador em Araraquara especialista em chiaro/oscuro digo desde já, com a filha de um fazendeiro de uma cidade próxima, cujo nome nos escapa, com festança a mais não poder na tal casa paroquial que tinha e tem um salão especialmente dedicado a tais efemérides, com palco e tudo o mais, quando não está sendo ocupado com cursos de preparação de noivos ou encontros de casais com Cristo nos quais o Mauro e a Alice têm papel preponderante sendo exemplares pais de família como são e ainda se permitem ficar, por requisição e determinação do mesmo pároco, parados dentro do templo na missa dominical das dez horas em frente à fila de fiéis distribuindo a santa comunhão em ambas as espécies como ministros extraordinários da eucaristia que eles são: Corpo de Cristo ! Amém ! Corpo de Cristo ! Amém! dando ao padre Ignácio algum tempo para descansar que a messe é basta, como diz ele.

Quando foi ele, excelência, levantar aquela caixa enorme de isopor, que é o nome comercial de um produto que se destina à feitura não só dessas caixas térmicas como até mesmo a feitura de lajes, veja vossa excelência o que é a ciência! sendo poucos os seus usuários que sabem ser isopor nome registrado pelo fabricante, o que lhe dá direito exclusivo de uso, assim como os fabricantes de gilete, que eu nem sei se alguém ainda usa em face desses barbeadores azuizinhos ou amarelos que pesam nada e se joga fora com suas duas lâminas e tudo depois de oito nove barbas feitas, depende da espessura da barba de cada um, é claro, falo de um número médio, sendo que o meu tio, por exemplo, com aquela cara de árabe, me disse que o aparelho de barbear dele cego já está na terceira barbeada com ele, além da maizena que as donas de casa também pensam que é nome comum e é nome próprio com copyright e tudo, assim explicou o advogado ao juiz em sua longa exposição em seu devido tempo. Quando foi levantar aquela caixa de isopor, foi aquele susto.

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E o desembargador Gonçalves Nogueira, relator do processo, que está aí com saúde para comprovar o que eu digo, repetiu escandalizado a seus pares, os não menos ilustres desembargadores Sérgio Braz e Oliveira Ribeiro, assiste inteira razão ao insigne defensor do réu pronunciado, sendo, de fato, inteiramente incrível que uma testemunha fosse ouvida nada menos do que dez vezes em um mesmo processo, dez vezes ! vejam Vossas Excelências, disse ele respeitoso dirigindo-se a seus colegas de turma julgadora, só faltando mandar consignar o fato no Guiness Book ad perpetuam, os quais disseram acompanho! acompanho ! quando Sua Excelência propôs a despronúncia do acusado visto que nem mesmo se teria havido crime tinha sido demonstrado pelo laudo de folhas, sendo mais razoável que, como lucidamente sustentado oralmente nesta sessão de julgamento pelo insigne defensor aqui presente, que se cuidasse de uma brincadeira de dois meninos que, tentando esconder-se dentro da caixa de isopor e notando que as roupas os impediam de lograr seu intento, deliberaram desnudar-se para que seu propósito fosse alcançado graças à menor fricção de um corpo desnudo contra outro corpo desnudo. E, desgraça das desgraças, assim que eles os meninos ali se acomodaram no interior da tal caixa de isopor, caiu-lhes sobre o tênue corpo a tal tampa que, por azar ímpar, se fez travar pelo encontro fatídico das partes masculina e feminina daquele malfadado fecho qual casal de desavergonhados cães a exibirem sua cara alegre língua de fora arfando a cara dele voltada para cá e a cara dela da cadela voltada para lá talvez por vergonha do que acabam de fazer em público. É o que está nos autos do processo TJ/SP número duzentos e um ponto oitocentos e vinte e oito ponto três, se duvidar consulte no site do tribunal, agora com novo visual mais bonito e mais eficiente como disse o serviço de relações públicas pelo jornal do advogado.

Isso para não falar que uma decisão de despronúncia não produz coisa julgada material porque o feito pode ser reaberto a qualquer momento, olha o sofrimento do réu ! se novas provas aparecerem, sendo que ao ser publicado o tal acórdão já fazia mais de dez anos que os dois meninos haviam tão tragicamente falecido.

1Transcrição parcial de capítulo do livro Menas Verdades – Causos Forenses ou quase (no prelo)

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A B C D E F G H I J L M N O P Q R S T U V X Z

* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

Como pontua o jornalista Juca Kfouri na apresentação do livro, os casos contados são deliciosos e exemplares, tanto para o bem quanto para o mal.

E, em cada linha, o autor transpira personalidade, seja na fluida linguagem, seja na criativa construção da narrativa: garantias de uma prazerosa leitura.

Cada exemplar da obra custa apenas R$ 35,00.