Domingo, 20 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Vernissage

 

Vernissage, dizem os nossos dicionários, é aquela festa que indica a inauguração de uma exposição de obras de arte. Um autêntico galicismo, diriam nossas avós. Francesismo, se quiserem. Por extensão, creio que se poderia empregá-la para designar o dia em que se dá o lançamento de um livro. Por que não?

O dia em que se abre uma exposição de fotografias pode ser chamado de vernissage? Sim, me direis, culto que sois. E de uma exposição de esculturas? Idem, haveríeis de retrucar-me, digo-o eu em português bolorento. Pois saiba, se ainda não o sabe, que a palavra francesa decorre de um fato pitoresco: no dia da inauguração de uma exposição de pinturas a óleo, ainda se sente no ar o cheiro do verniz, que muitos artistas usam (ou usavam, vá lá) para conservar a tela. Daí nasceu a palavra vernissage, francesa, com certeza. Logo, como as fotografias, as gravuras e as esculturas não são, normalmente, envernizadas, não se poderia falar em vernissage quando a inauguração diz respeito a gravuras, fotografias e esculturas. Entretanto, se se usa, como de fato se usa, dessa palavra também para referir-se à inauguração de uma exposição dessas, por que não haveríamos de utilizá-la para designar a chamada noite de autógrafo? Eis minha proposta.

Pois o Migalhas (clique aqui) vem de informar a seus mais de 300.000 leitores que no dia 10 de Dezembro, a partir das 19h, na livraria FNAC, situada na Avenida Paulista, fundos com a Alameda Santos, haverá a vernissage relativa ao lançamento do livro Justiça & Caos, da autoria de um certo migalheiro, cujo nome não me ocorre no momento. Julgo ter sido uma temeridade essa informação.

Pensem comigo. Que dos mais de 300.000 destinatários do festejado jornal eletrônico, apenas metade dos leitores tenha tomado conhecimento daquele aviso. A outra metade é composta daqueles leitores que naquele dia tiveram um TPM que os impediu de ler a notícia. Refiro-me ao terror de advogadas e advogados: um Texto Para Minutar, seja ele de Apelação, Agravo ou um REsp. Ou tem hora marcada no dentista, ou seja lá o que for. Ainda assim, 150.000 pessoas tomaram conhecimento daquela informação.

Digamos que a metade desse número corresponda a leitores que não vêm com bons olhos o autor do livro. Ou porque se convenceram de que ele não sabe escrever, ou porque ele é pernóstico, ou porque cuida de temas irrelevantes, ou. Nosso número já baixou para 75.000 pessoas.

Admitamos que esses remanescentes não tenham maiores restrições ao autor, para sermos otimistas. Ou pessimistas, não sei bem. Mesmo assim, metade deles não está disposta a enfrentar o trânsito de São Paulo para dirigir-se à Alameda Santos, onde fica a ampla garagem da livraria FNAC, livraria na qual, como noticiado pelo Migalhas (clique aqui), em data de 10 de Dezembro haverá o lançamento do livro Justiça & Caos. Resta a outra metade, nada menos do que 37.500, se me não falha a matemática, mais gente do que a maioria dos torcedores que se dispõem a ver um Fla x Flu ou um San-São. Ou um Come-Fogo, para homenagearmos a brava gente de Ribeirão Preto.

Se todo esse público se dispuser a vir à tal vernissage, que será do já caótico trânsito daquele trecho da cidade de São Paulo? Se passeata de professores, que reúne uma ínfima parte disso, já rende homenagens às mães deles, imagine o que será das orelhas da falecida mãe do autor daquela obra literária em tais circunstâncias?

Pensemos, por tudo isso, em um número mais factível: 10%. Não me refiro a 10% do número de leitores que receberam aquele exemplar do Migalhas, mas à décima parte do último número levado em consideração para expressar o meu estado de quase pânico. Ou seja: 3.750 pessoas.

Façam as contas. Uma fila de 3.750 pessoas exigiria qual espaço para acomodá-las todas ao mesmo tempo no mesmo lugar? Calcule, otimisticamente, 30 centímetros quadrados por pessoa, vá à máquina de calcular e terá a resposta em metros. Ou quilômetros, não sei bem. Talvez será melhor falar em pessimisticamente. Isso, porém, não é problema meu, mas do DSV. Ele que destaque para lá tantos marronzinhos quantos necessários forem para a boa ordem do tráfego. Meu problema é muito outro.

De fato, qual a rotina em uma cerimônia dessas? Segundo minha pessoal experiência, o futuro leitor vai até o caixa com o livro que havia pego na prateleira, paga o livro e vem até a fila de autógrafo. O autor do livro lhe dá um sorriso e uma breve saudação, o que consome alguns preciosos segundos. Em seguida o candidato a leitor estende o livro, que é recolhido pelo autor, que o abre naquela página onde a moça do caixa havia posto um papelzinho com o nome do comprador, contando que o autor, naquela idade, não vai estar a lembrar o nome de toda pessoa que, no devido tempo, lhe dirá "Lembra-se de mim? Quanto tempo, hein? Você não mudou nada!". Mesmo que seja o irmão do escritor. E outras frases semelhantes que servem para inflar o ego do conceituado escritor e atrasar a cerimônia programada. Ato seguinte, o autografante lança no livro uma frase com letra ilegível, lança uma rubrica e a data, fecha o livro e o devolve ao futuro leitor. Com essa onda de telefone celular que mais parece um bombril, tantos são os mil e um instrumentos que abrigam, e como fatalmente haverá um ou uma acompanhante, a quem o futuro leitor ou futura leitora pedirá: "Benhê, pode fotografar a gente?", mais tempo a ser considerado. Aí o autografante levanta-se, fica ao lado do ou da adquirente da preciosa obra literária e fala "xixi", para aparecer sorrindo na foto. Se se cuidar de leitora, ele fatalmente encerrará aquela mini-cerimônia com um respeitoso ósculo na face esquerda. Mediram o tempo?

Pois minha experiência mostra que é impossível dedicar a cada leitor menos do que um minuto de tempo, isso em média, considerando as moçoilas beijoqueiras numa ponta e os senhores de rosto grave e ar de crítico literário, a outra, teremos um minuto no meio da curva de Gauss, como diria a Maria Helena.

Se a minha bexiga nesse dia se comportar como não costuma fazê-lo, eu não terei de levantar-me a cada meia hora para ir depositar a água que vou tomando enquanto fico ali sentado naquela prazerosa sauna que geralmente são as salas de autógrafo de livros, temeroso de uma desidratação. Isso significa que deverei valer-me de 3.750 minutos até que o último leitor, já com olheiras e barba crescida, seja por mim atendido. "No céu os últimos serão os primeiros" será a piadinha que lhe direi, para tentar compensar aquele tempo de espera. Qual tempo?

Se a minha calculadora não me trai, 3.750 minutos equivalem a mais de 40 horas. Ou seja, o primeiro leitor já foi para casa, deitou-se na cama dele, dormiu, acordou no dia seguinte, tomou banho, barbeou-se, foi trabalhar, voltou para casa e eu ali, com um massagista ao meu lado, como se fosse aquilo uma partida de tênis de Roland Garros, a contornar as sucessivas câimbras na mão direita que tanto me atormentarão.

Tomado de pânico, ante a absoluta falta de condições físicas para uma partida desse jaez, se me permitem a má palavra, estou pensando em reduzir meus cálculos, para que, chegando a uns 25 leitores, se tantos, minha saúde não corra os riscos que já me preocupam. Pensem nisso, antes de resolverem atender ao convite que lhes foi precipitadamente feito.

Escrevo isso, estejam certos, exatamente para mostrar a todos a irresponsabilidade de quem resolveu divulgar que no dia 10 de Dezembro, a partir das 19h, na FNAC da Avenida Paulista, haverá o lançamento do aguardado livro Justiça & Caos.

Se puder, não vá.

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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

Como pontua o jornalista Juca Kfouri na apresentação do livro, os casos contados são deliciosos e exemplares, tanto para o bem quanto para o mal.

E, em cada linha, o autor transpira personalidade, seja na fluida linguagem, seja na criativa construção da narrativa: garantias de uma prazerosa leitura.

Cada exemplar da obra custa apenas R$ 35,00.