Domingo, 21 de abril de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Orquídeas

"Tudo aqui manda pecar e peca – desde a cigana-do-mato e a mucama, cipós libidinosos, de flores poliandras, até os cogumelos cinzentos, de aspirações mui terrenas, e a erótica catuaba, cujas folhas, por mais amarrotadas que sejam, sempre voltam, bruscas, a se retesar."

João Guimarães Rosa
Sagarana

Não sei bem o que se passa comigo. As ideias vão e vêm com incrível facilidade. Começo a pensar em alguma coisa e logo vem outra ideia, atropelando a primeira. E eu não consigo concluir o primeiro pensamento, que vai de roldão naquele tropel, dando-se uma sensação de desperdício. E também perco o segundo, preocupada em retornar ao primeiro.

Parece que estou ficando louca. É isso: ficando maluca. As pessoas me olham, tratam-me como uma pessoa normal. Mas, no fundo, fica sempre aquela impressão de que elas perceberam o que se passa comigo. Nada comentam certamente com medo de que eu me torne violenta. Possuída por uma legião de espíritos imundos que me arrastem para o mar. Mas eu nunca me enfureço. Nunca. Sou considerada uma pessoa extremamente controlada, prestativa, sempre sorridente. Não consigo ter raiva das pessoas. Pois não. Não há de quê. Não precisa se incomodar. Deixe que eu faço. São expressões que me saem da boca automaticamente. Nem preciso pensar para dizê-las.

Mas o que me mata são esses pensamentos que vão e se perdem, como se uma estrada, de repente, ficasse coberta de neblina. O senhor entende, não é? Conhece aqueles filmes italianos, de bangue-bangue, com gaitinha tocando ao fundo. Pois é. Aquele areal danado, uma secura sem tamanho, um vento soprando rente ao chão. Num relance, rolos de mato seco sendo arrastados pelo vento. Os rolos vão em bando, como a galope, e se perdem no infinito. Ou passam pela tela, da direita para a esquerda, em seqüência. Pois meus pensamentos por vezes são assim, doutor. Rolos de ideias que vão e se perdem. Não têm raiz, não se fixam. O senhor entende, doutor? Entende, não é?

Tento explicar isso ao meu marido. Marido! Ele me olha com ar pachorrento, como se visse uma enceradeira elétrica. Ou um toca-discos que ele gostaria de desligar. Isso passa. Menopausa é assim mesmo. Tento gritar, dizer o que penso, o que sinto, o que vai dentro de mim. Esses anos todos de casados, essa rotina, essa falta de emoção. Servir a filhos, servir a marido. Deveres, deveres, deveres. O corpo se deformando, flácido como um vasilhame sem serventia. Sem serventia! Os seios murchos, sem vida, sem encanto, sem a atração de antes. E esse calor, que me sobe pelo corpo até a cabeça, são como gado em bando, tentando passar pela porteira estreita. São tantos que uns atrapalham os outros. Sai gado nenhum. Nenhuma palavra. Só esse silêncio indignado.

Ele é um bom marido, dizia minha mãe. Um bom marido! Não deixa faltar nada na casa. E quem disse que eu quero televisão? Ou máquina de lavar isto? Ou máquina de lavar aquilo? Alguém me perguntou? Sabe qual foi meu presente no primeiro aniversário de casamento? Sabe? Uma máquina de costura. Elétrica, enfatizou bem ele. Um cinto de castidade teria mais serventia. E pensa que eu demonstrei a minha contrariedade, minha decepção? Pois sim.

De que eu falava mesmo, doutor? Das emoções, creio. Coisas banais me trazem emoções paradoxais. Como as flores, por exemplo. Gosto de flores. Em meu jardim tenho várias plantas, muito floridas. Acácias, baunilhas, quaresmeira. Aquele roxo da quaresmeira, mais parece a luz negra de uma boate. O senhor conhece quaresmeira? Miosótis. Flores pequenas, discretas e muitas. E os hibiscos. Os hibiscos, doutor, me parecem uma flor obscena. É isso mesmo: obscena. Claro que não sou tão ignorante que desconheça que uma flor é o órgão sexual das plantas. Mas há plantas discretas, cuja natureza sexual é compensada por uma certa beleza assexuada. Uma rosa branca, qual uma vestal. Quem imaginaria ali um órgão sexual? Quem, doutor? Já um hibisco, doutor... Aquele pendão saindo lá de dentro. As pétalas escancaradas, sem a mínima vergonha, sem compostura. Sabe, doutor, que quando estou admirando uma flor de hibisco (daqueles hibiscos vermelhos), se alguém fala comigo eu sinto o rosto ficar corado. Um afogueado subindo pelas faces. Maus pensamentos? Isso é grave, doutor?

(Cotovelos apoiados no tampo de vidro da mesa, as mãos entrelaçadas, apoiando o queixo, o moço de branco apenas ouvia, atento, aqueles desabafos. Ouvia com atenção e grande dose de compreensão. Não analisava, não esboçava qualquer sinal de enfado ou aprovação. Era como admirar uma torneira aberta jorrando. Olhava com interesse profissional aquela mulher de meia idade, bem vestida, com traços delicados, sentada elegantemente à sua frente. Diria que era ainda bonita, se a máscara de sofrimento permitisse a ela mostrar o seu rosto natural. As mãos dela seguravam firmes os braços de madeira da poltrona onde estava sentada, como se a mulher quisesse impedir-se de levantar. Vez por outra, durante a exposição, as mãos se desgrudavam dali, como que arrancada, e gesticulavam fartamente. Logo em seguida, dando pelo excesso, uma força interior trazia as mãos para a posição primitiva. Elas crispavam contra o braço do móvel, aprisionando o corpo, que aparentava querer soltar-se.)

Ultimamente, doutor, a coisa é com as orquídeas.

A princípio, as orquídeas brancas, as catléias imaculadas. Aquelas flores leitosas me encantaram. Aquele alvor de pureza. Eu ficava horas (acredite, doutor: horas) na loja do shopping observando aquelas enormes pétalas (ou sépalas, não sei) que se abrem aos pares. O labelo caindo para fora. A orquídea exercia uma atração inexplicável. Eu ficava enfeitiçada, olhando ali parada. Os empregados da loja, que vieram a me conhecer, nem estranhavam mais aquela minha postura. Parada, pregada ali, como um pássaro diante da serpente.

Passei a comprar orquídeas. Deixava de comprar coisas para mim, comida até, para levar para casa orquídeas. O jardim foi-se enchendo de vasos. Fiz um ripado para protegê-las. E a cada dia aquela adoração, aquele enfeitiçamento. Meu marido inteiramente indiferente àquela minha obsessão. Incapaz de perceber que alguma coisa não ia bem comigo. Aquilo não era normal, como perceberia qualquer pessoa que tivesse um mínimo de sensibilidade.

Hoje aconteceu algo que me fez vir aqui, doutor. Não sei bem como descrever. Algo tão ridículo, tão descabido. Mas aconteceu. E eu me decidi a vir consultá-lo. Antes que enlouqueça de vez.

Eu olhava uma catléia branca, com um sombreado no seu interior, em torno do labelo. Aproximei-me dela a ela continuou a me atrair, como se me chamasse. E eu cada vez mais perto. Aí (a mulher procurava as palavras, sem levantar os olhos) eu passei a beijar aquela flor. Beijar uma flor, doutor! Olha a loucura. Eu beijando uma flor. Beijei, lambi, chupei aquela flor, com uma ansiedade, uma emoção envolvente, insopitável mesmo. É isso, doutor: insopitável.

(O médico notava a alteração da respiração. O peito arfante da cliente denotava a revivência da experiência narrada. A fronte apresentava gotículas de suor, não percebidas, por certo, pela senhora. As narinas dilatavam-se, naquele respirar ritmado. As mãos crispavam-se com mais intensidade, à medida que a narrativa prosseguia.)

A coisa não parou aí doutor. Ainda não era o bastante. A medida que eu me excitava, ia ficando furiosa. Aquele beijar, aquele lamber não me satisfaziam. Havia alguma necessidade interior, que eu não sei qual seja, que ainda estava longe de ser saciada. Aquele estado de loucura foi crescendo e eu me pus a morder aquelas pétalas. Como se elas fossem coisa viva. Coisa humana, quero dizer. Mordi, estraçalhei aquela primeira orquídea. E depois a seguinte, e outra, e outra. E a insatisfação continuava. E eu mordi folhas, mordi troncos. O senhor não imagina como é agradável sentir os dentes penetrando no tronco da árvore. Retirar bocados da casaca de ipê, por exemplo. Aquele gosto agridoce na boca.

(Os olhos da mulher estavam fechados. Ela agora falava para si própria. O corpo ia-se entesando, as mãos pregadas nos braços da cadeira, como raízes de orquídea presa no tronco de uma árvore; os braços esticando, empurrando o corpo para trás. A cabeça sendo jogada para além do espaldar apoiando-se na nuca. Qual um plano inclinado, apoiado apenas nos calcanhares, a mulher retesou-se ao máximo. O corpo ondulou convulsivamente. Um dramático suspiro, como a sorver todo o oxigênio da sala, seguido de um grito saído lá do fundo daquela mulher sofrida. Um urro animal, que atravessou a parede e ribombou lá longe, no distante.

O médico, com ar grave, levantou-se e deu a volta à mesa. Ao chegar do outro lado, a cliente, tensão aliviada, respirava placidamente. O corpo agora estava flácido, invertebrado, esparramado na poltrona. A cabeça também pendia, olhos semicerrados. Pareceu-lhe ouvir algum sussurro. Nos lábios, um sorriso de prazer. Um sorriso que, por certo, o marido há muito que não via.)

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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

Como pontua o jornalista Juca Kfouri na apresentação do livro, os casos contados são deliciosos e exemplares, tanto para o bem quanto para o mal.

E, em cada linha, o autor transpira personalidade, seja na fluida linguagem, seja na criativa construção da narrativa: garantias de uma prazerosa leitura.

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