Terça-feira, 15 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Decifra$

por Francisco Petros

O Brasil é o país da patafísica

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Tenho hoje uma convicção: a corrupção é o maior problema do Brasil. Basta conversar com o motorista de ônibus ou de táxi, o cidadão que aporta nos balcões dos departamentos de arrecadação de tributos, aqueles que lidam com as áreas de compras das diversas instâncias do Estado, o Congresso Nacional, os ministérios, etc. A corrupção está infestada nas estruturas brasileiras, de forma generalizada, sem pena nem dó! Não tenho dúvidas quanto a isso!

Já ultrapassamos a barreira, digamos, cultural, da corrupção. Hoje a "dita cuja" é forma de ascensão social, meio de troca política, "prática de negócios", "custo necessário", ou seja lá o que se pense mais. Quando vejo hoje nos jornais que uma quadrilha de fiscais paulistas negociou 143 imóveis, cujo valor é de R$ 62 milhões fico pensando como isto foi possível. Os fiscais ganham R$ 20 mil por mês, o que é uma fortuna frente à média dos assalariados, mas tal valor não é capaz de explicar como eles podem ter adquirido este patrimônio todo. Um tal de José Roberto Fernandes tem 27 propriedades e outro, Eduardo Takeo Komaki outras 11. Toda essa tigrada está soltinha, nas ruas, à espera das providências do Estado e são representantes inequívocos do "Estado Democrático de Direito".

Quase oito meses após a instalação da CPI da Petrobras, esta piada nacional, o relator petista Luiz Sérgio (RJ) fez um relatório inacreditável! Seu parecer ataca frontalmente os delatores, isenta todos os políticos de responsabilidade pelo assalto generalizado à estatal petroleira, incluso o nobre deputado Eduardo Cunha e culpa as empreiteiras – logo estas que financiam as campanhas de suas excelências. Todo este romance surrealista será votado até a próxima sexta-feira. Vocês acreditam?

Ainda no "capítulo Eduardo Cunha" há uma farta discussão se o gajo deve ou não deve continuar na presidência da Câmara dos Deputados, posto nº 3 da sucessão presidencial. Chega a ser ridículo a nação inteira olhar as fotos de sua esposa, de sua filha e do próprio deputado, dentre a documentação das contas suíças (e ilegais) e os políticos acharem que cabe discussão para o tema "Eduardo fica ou não fica". Realmente, o caso é de psicanálise generalizada para a cidadania, pois como é que eu, você (meu caro leitor!), ou qualquer cidadão de bom senso pode aceitar passivamente esta situação ridícula?

Realmente, a corrupção infesta a Nação. Por aqui se instalou a tal da "patafísica". Para os que não conhecem trata-se da "ciência das soluções imaginárias e das leis que regulam as exceções". Esta "teoria" foi estruturada pelo escritor Alfred Jarry. Se Ionesco, Boris Vian e outros se aproveitaram da desta magnífica invenção artística para criarem suas obras vultosas e significativas, no Brasil, a patafísica está sendo levada à sério, como ciência mesmo! Aqui prevalece a exceção: se o deputado é ladrão e pilantra, então vamos mantê-lo no alto posto do Estado. Se a Petrobras quebrou por conta da gatunagem generalizada, vamos deixar os gatunos isentos e condenar, quiçá!, a própria empresa como se pessoa física fosse! Que tal?

Em meio a todo este imenso sofrimento com a "mardita corrupa" pergunto: onde estão as "instituições brasileiras" para se indignar com tudo isso? Onde está a OAB? Onde estão as Igrejas sérias? Onde está a ABI (Associação Brasileira de Imprensa)? Onde estão as Federações das Indústrias dos Estados brasileiros? Onde estão as Associações Comerciais? Onde estão os sindicatos de empresários e trabalhadores? Cadê os intelectuais que repensam e criticam as nossas mazelas? Ou seja, onde está a Nação que se indigna? Ainda se fala que não temos crise institucional...

Nem mesmo a oposição se manifesta majoritariamente. O PSDB manobra por debaixo do pano com o deputado carioca Eduardo Cunha para chegar ao impeachment. Ou seja, conta com um pilantra para atingir o seu objetivo. Realmente, é demais!

Fiquemos certos de uma cousa: tudo isto que afeta ao nosso país, nos afeta diretamente. Se estamos metidos nesta vala de recessão, desesperança, sofrimento, desemprego, etc. é porque em grande parte nos ocupamos do "ócio da cidadania". Neste sentido estrito, o impeachment de Dilma et caterva é muito ruim, pois encontraremos a saída fácil do voto mal concedido. Merecemos a praga petista porque nos desocupamos da política. Merecemos Eduardo Cunha porque nossos valores de cidadania estão corrompidos. Merecemos Renan Calheiros porque acreditamos que vamos levar vantagem sobre todos e todas e que nada nos atingirá.

Despeço-me deixando aos leitores uma crônica de 8/5/1920, de Lima Barreto. O Brasil mudou pouco, como se pode ver por este escrito.

"País rico

Não há dúvida alguma que o Brasil é um país muito rico. Nós que nele vivemos; não nos apercebemos bem disso, e até, ao contrário, o supomos muito pobre, pois a toda hora e a todo instante, estamos vendo o governo lamentar-se que não faz isto ou não faz aquilo por falta de verba. Nas ruas da cidade, nas mais centrais até, andam pequenos vadios, a cursar a perigosa universidade da calariça das sarjetas, aos quais o governo não dá destino, o os mete num asilo, num colégio profissional qualquer, porque não tem verba, não tem dinheiro. É o Brasil rico... Surgem epidemias pasmosas, a matar e a enfermar milhares de pessoas, que vêm mostrar a falta de hospitais na cidade, a má localização dos existentes. Pede-se à construção de outros bem situados; e o governo responde que não pode fazer porque não tem verba, não tem dinheiro. E o Brasil é um país rico. Anualmente cerca de duas mil mocinhas procuram uma escola anormal ou anormalizada, para aprender disciplinas úteis. Todos observam o caso e perguntam: - Se há tantas moças que desejam estudar, por que o governo não aumenta o número de escolas a elas destinadas? O governo responde:- Não aumento porque não tenho verba, não tenho dinheiro. E o Brasil é um país rico, muito rico...As notícias que chegam das nossas guarnições fronteiriças, são desoladoras. Não há quartéis; os regimentos de cavalaria não têm cavalos, etc., etc.- Mas que faz o governo, raciocina Brás Bocó, que não constrói quartéis e não compra cavalhadas?

O doutor Xisto Beldroegas, funcionário respeitável do governo acode logo:

- Não há verba; o governo não tem dinheiro.

- E o Brasil é um país rico; e tão rico é ele, que apesar de não cuidar dessas coisas que vim enumerando, vai dar trezentos contos para alguns latagões irem ao estrangeiro divertir-se com os jogos de bola como se fossem crianças de calças curtas, a brincar nos recreios dos colégios.

O Brasil é um país rico."

Francisco Petros

Francisco Petros é advogado, sócio responsável pela área societária, compliance e de governança corporativa do escritório Fernandes, Figueiredo, Françoso e Petros Advogados. Economista e pós-graduado em finanças. Trabalhou por mais de 25 anos no mercado de capital, em instituições financeiras brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais (2000-2002).