Sexta-feira, 22 de março de 2019

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Prezados Senhores

quarta-feira, 8 de março de 2006

dúvida do leitor

O leitor Dirceu Xavier envia-nos a seguinte mensagem:

"Prezados Senhores. Em resposta a consulta formulada, o Dr. José Maria da Costa informa que, num "e-mail" enviado para um homem, com cópia para uma mulher, o tratamento deveria ser "Prezado Senhor", pois a mulher que a recebe "... não participa da conversa" (Migalhas 1.096 – 26/1/05 – "Gramatigalhas" – clique aqui). Sendo assim, gostaria de saber qual a construção adequada quando a mensagem é dirigida simultaneamente a um homem e a uma mulher. Neste caso, vale o tratamento "Prezados Senhores"? Desde já, antecipo meus agradecimentos."

E o leitor José Sidou Goes Miccione também assim se manifesta :

"Em eventos formais, e para homenagear as mulheres, aqui em Macapá, costuma-se iniciar as palestras "Bom dia a todos e a todas" Está correto? Agradeço a atenção."

envie sua dúvida

1) Uma primeira observação que se deve fazer é que sexo é uma questão biológica, enquanto gênero é classificação gramatical. É preciso não fazer confusão.

2) Para confirmar, veja-se que determinados idiomas, além do masculino e do feminino, também têm o gênero neutro, algo inaceitável quando se fala de sexo. Em tais línguas, animais, que sabidamente têm sexo, muitas vezes, pertencem ao gênero neutro. Por outro lado, seres assexuados – como o garfo e a colher – não deixam de ter seu gênero. Alguém, por acaso, iria procurar uma razão por que garfo é masculino em português, e por que colher pertence ao feminino?

3) Com essas premissas, deve-se dizer que, em português, o masculino é um gênero não marcado, o que significa que admite seres de ambos os sexos, enquanto o feminino é um gênero marcado, o que implica que abrange apenas seres do sexo feminino. Por isso, quando se diz "O homem é mortal", no vocábulo homem se incluem seres de ambos os sexos (ou alguém acha que a mulher vai ficar para semente?). Já quando se diz "A mulher teve grandes conquistas nas últimas décadas", está claro que o vocábulo quis abranger tão-somente seres do feminino.

4) É por essa razão – e não por machismo multissecular – que, quando se juntam seres do masculino e do feminino, a resultante será o masculino plural: "Prezados Senhores", os ouvintes, os telespectadores, os candidatos...

5) Desse modo, longe de demonstrar gentileza, cuidado ou respeito, acaba evidenciando desconhecimento do sistema de tratamento de nosso idioma principiar uma manifestação por um dos seguintes modos: "Brasileiros e brasileiras..."; ou "Companheiros e companheiras..."; ou, ainda, "Senhores Advogados e Senhoras Advogadas..." Muito pior, então, é dizer "Bom dia a todos e a todas". Afinal, se existe um pronome que tem total abrangência, esse é o todos.

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.