Segunda-feira, 21 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Estendimento – Existe?

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

dúvida do leitor

Um leitor que se identifica apenas como Marco, envia a seguinte dúvida ao Gramatigalhas:

"Encaminho a seguinte dúvida ao ilustre prof. José Maria da Costa: É incorreto o uso da palavra 'estendimento', no sentido de alargamento, ampliação, etc., como na frase: 'É inadmissível o estendimento do prazo'. Tal dúvida me ocorreu pelo fato de que, embora tal palavra não se encontre abonada pelos Dicionários Aulete, Houaiss ou Michaelis e até pelo próprio VOLP, é sabido que palavras como 'atendimento' e 'fornecimento' são utilizadas e admitidas normalmente. Ora, se os verbos 'atender' e 'fornecer' podem gerar 'atendimento' e 'fornecimento', por que 'estender' não pode gerar 'estendimento'? Agradeço pela atenção."

envie sua dúvida

1) Um leitor traz os seguintes argumentos para análise: a) indaga, primeiro, se existe a palavra estendimento no sentido de alargamento ou ampliação; b) reconhece que o vocábulo não é registrado pelos principais dicionaristas, nem pelo VOLP; c) mas observa que tais obras registram atendimento e fornecimento; d) por fim, observa que, se os verbos atender e fornecer podem gerar atendimento e fornecimento, estender também poderia gerar estendimento.

2) Ora, quando se quer saber se uma palavra existe ou não em português, deve-se tomar por premissa o fato de que a autoridade para listar oficialmente os vocábulos do nosso idioma é a Academia Brasileira de Letras.

3) E essa autoridade, a ABL a exerce por via da edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa.

4) Uma simples consulta ao VOLP mostra que, a par do verbo estender, não se registra nenhum substantivo correspondente: nem estendimento, nem estendição ou algo similar. Tais substantivos, por consequência óbvia, não existem em nosso léxico.

5) Em tais circunstâncias, se se quer usar um substantivo com esse significado, a solução é buscar um verbo sinônimo de estender, que tenha um substantivo correspondente, exatamente como procedeu o leitor, que trouxe alargamento e ampliação. Ou seja: a solução é escolher, nesse rol, o vocábulo que mais se amolde à acepção pretendida pelo contexto.

6) Por fim, quanto aos argumentos trazidos pelo leitor para justificar a possível existência de estendimento, importa tecer as seguintes considerações: a) por um lado, com o mesmo radical dos verbos, não é incomum encontrar registrados pelo VOLP substantivos equivalentes de ação, um acabado em ção, e outro, em mento (abreviação e abreviamento, acomodação e acomodamento, acusação e acusamento); b) por outro lado, também se encontram substantivos que apenas admitem ser terminados em ção (abdicação, acentuação, aquisição); c) e também se encontram outros que somente admitem término com o sufixo mento (abastecimento, abatimento, acabamento); d) isso significa, por um lado, que formar substantivos terminados em ção ou em mento não é uma faculdade que assiste discricionariamente ao usuário do vernáculo; e) por outro lado, isso faz forçosamente concluir que a ABL, por meio do VOLP, continua sendo a autoridade para definir oficialmente a lista dos vocábulos que integram o idioma pátrio; f) por um lado, se o vocábulo se encontra listado na referida obra, então ele existe em português; g) por outro lado, se ele não se encontra ali registrado, então simplesmente não existe, e seu emprego não se acha autorizado no vernáculo.

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.