Quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Há - havia

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

dúvida do leitor

Algum tempo atrás, um leitor enviou uma colaboração criticando que Migalhas teria escrito que uma poetisa "morava há 40 anos em Campinas". O migalheiro perguntava: "Na expressão 'morava há 40 anos' faz-se presente uma impropriedade gramatical?"

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1) Existem, em português, normas de correlação, de correspondência temporal ou, ainda, de consecução dos tempos verbais (em latim, com regras mais rígidas, "consecutio temporum"), determinadoras de harmonização quanto ao uso das formas dos verbos.

2) Por essas normas é que, na prática, assim se redigem os seguintes exemplos:

a) "Se é clara, a lei dispensa interpretação";

b) "Se for clara, a lei dispensará interpretação";

c) "Se fosse clara, a lei dispensaria interpretação".

3) Com o verbo haver, a situação não é diferente, de modo que, se, com o verbo fazer, se diz "A lei vigorava fazia anos" (e não "A lei vigorava faz anos"), o correto, com o verbo haver, também é "A lei vigorava havia anos" (e não "A lei vigorava há anos").

4) Precisa, nesse ponto, é a lição de Vasco Botelho do Amaral: "Modernamente, contra a índole da língua dos melhores escritores, com frequência se perde de vista o paralelismo das formas verbais, e redige-se: "Há dias que se trabalhava". Evite-se essa construção".1

5) Júlio Nogueira também lembra que, com o verbo haver, "se a relação de tempo é no passado, o verbo deve ir também para tempo passado: 'Ele chegara havia dez minutos' (e não: ' dez minutos')".2

6) Vê-se, assim, que equivocado é o emprego do verbo haver na frase "morava há 40 anos", a qual deve ser corrigida para "morava havia 40 anos".

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1 Apud ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Dicionário de Questões Vernáculas. São Paulo: Editora Caminho Suave Ltda., 1981. p. 133.

2 Cf. NOGUEIRA, Júlio. Programa de Português. 3. série secundária. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1939. p. 190.

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Publicado originalmente em 9/6/2004.

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.