Gramatigalhas

Para compor ou Para comporem?

Para compor ou Para comporem ? O Professor esclarece a dúvida.

12/3/2014

A leitora Erotilde Miranda envia ao autor de Gramatigalhas a seguinte mensagem:

"Tenho dúvidas quanto à flexão do verbo em frases como: 'Desginar os servidores para compor a Comissão...' ou 'Designar os servidores para comporem a Comissão...' Grata,"

E o leitor  Geovane Lopes de Oliveira  enviou a seguinte dúvida:

"Prezados e prezadas, quando um verbo é precedido da preposição 'a' ele dever ser flexionado? Sempre ou só às vezes? Neste último caso, quando? Exemplo: (1) 'Nosso pai sempre nos incentivou a ser forte' ou 'Nosso pai sempre nos incentivou a sermos fortes' (2) 'A miséria compele-nos a não ter prurido' ou 'A miséria compele-nos a não termos prurido' (seria possível: 'A miséria compele a não termos prurido'?) (3) '...a imprescindível descoberta dos comportamentos a serem adotados...' (trecho retirado da obra 'Teoria dos princípios', de Humberto Ávila, 5ª ed., Malheiros, p.24) ou '... a imprescindível descoberta dos comportamentos a ser adotados...' Aproveitando o ensejo... nos dois primeiros exemplos que formulei eu fiquei em dúvida quanto à posição do pronome 'nos'... se me puderem esclarecer também sobre próclise, mesóclise e ênclise (se não for dúvida demais!) eu ficaria ainda mais grato. Cordialmente,"

1) Um leitor diz ter dúvidas quanto à flexão do verbo em frases como: a) "Designar servidores para compor comissão..."; b) "Designar servidores para comporem comissão..."

2) Para se ver que essa é uma dúvida trazida de modo recorrente, outro leitor indaga qual ou quais as formas corretas nos seguintes exemplos: a) "Nosso pai sempre nos incentivou a ser fortes"; b) "Nosso pai sempre nos incentivou a sermos fortes”; c) “A miséria compele-nos a não ter prurido"; d) "A miséria compele-nos a não termos prurido"; e) "... comportamentos a ser adotados..."; f) "... comportamentos a serem adotados...".

3) Em frases como as apontadas, o que se tem é um verbo no infinitivo e precedido por uma preposição – para ou a. E a questão, em suma, busca resposta para a seguinte indagação: Usa-se o infinitivo não flexionado (compor ou ser) ou o infinitivo pessoal (comporem ou sermos), quando precedido pela preposição para ou a?

4) Quanto ao uso do infinitivo flexionado ou não, de um modo geral, leciona Said Ali que a escolha depende de cogitarmos somente da ação ou do intuito ou da necessidade de pormos em evidência o agente da ação: no primeiro caso, preferimos o infinitivo não flexionado; no segundo, o flexionado.

5) Também para Hêndricas Nadólskis e Marleine Toledo, "muitas vezes, a opção entre a forma flexionada ou não flexionada é estilística e não gramatical. Quando mais importa a ação, prefere-se a forma não flexionada; quando se realça o agente da ação, usa-se a forma flexionada".

6) Celso Cunha, que cita o primeiro autor, em complementação, diz tratar-se, em verdade, de um emprego seletivo, mais do terreno da Estilística do que, propriamente, da Gramática.

7) Assim também leciona Artur de Almeida Torres a esse respeito: "o infinitivo poderá variar ou não, a critério da eufonia, se vier precedido das preposições sem, de, a, para ou em". Exs.: a) "Vamos com ele, sem nos apartar um ponto" (Padre Antônio Vieira); b) "... os levavam à pia batismal sem crerem no batismo" (Alexandre Herculano); c) "Careciam de obstar a que se escrevesse o que faltava do livro" (Alexandre Herculano); d) "Os manuscritos de Silvestre careciam de serem adulterados" (Camilo Castelo Branco); e) "Obrigá-los a voltar o rosto contra os árabes" (Alexandre Herculano); f) "... obrigava a trabalharem gratuitamente" (Alexandre Herculano); g) "... fanatizados que aparecem sempre para justificar o bom quilate da novidade" (Camilo Castelo Branco); h) "... tantos que nasceram para viverem uma vida toda material" (Alexandre Herculano).

8) Veja-se que eufonia, em última análise, significa um som agradável, e a atenta leitura mostra que os exemplos acima não repeliriam outra construção, como é fácil verificar: a) "Vamos com ele, sem nos apartar ..."; b) "Vamos com ele, sem nos apartarmos ..."; c) "... os levavam à pia batismal sem crerem no batismo"; d) "... os levavam à pia batismal sem crer no batismo"; e) "Obrigá-los a voltar o rosto contra os árabes"; f) "Obrigá-los a voltarem o rosto contra os árabes"; g) "... fanatizados que aparecem sempre para justificar o bom quilate da novidade"; h) "... fanatizados que aparecem sempre para justificarem o bom quilate da novidade"; i) "... tantos que nasceram para viverem uma vida toda material"; j) "... tantos que nasceram para viver uma vida toda material".

9) Nesse assunto de uso do infinitivo flexionado ou não flexionado, resguardados certos parâmetros mínimos de correção, de bom-senso e de eufonia, é oportuno rememorar a frase de José Oiticica, de que Aires da Mata Machado Filho lamentou não ter sido o autor, de modo que lhe restava apenas a satisfação de repetir: "Mandem os gramáticos às favas e empreguem o infinitivo à vontade".

10) Tais palavras, a bem da verdade, não deixam de ter suporte no que Júlio Nogueira disse com muita propriedade: "Além das sumárias indicações..., difícil será estabelecer regras seguras. É este um dos assuntos que têm dividido os competentes na matéria, dando lugar a fortes dissídios. Em alguns casos, a preferência entre a forma invariável e a variável é apenas de intuição natural, por eufonia, orientação perigosa, pois o que a uns parece agradável ao ouvido, a outros soa mal. Nisto, como no mais, os clássicos não são acordes, nem podem, pela prática generalizada, servir de modelo".

11) Remate-se com a observação de Pasquale Cipro Neto e Ulisses Infante de que "o infinitivo constitui um dos casos mais discutidos da língua portuguesa", e "estabelecer regras para o uso de sua forma flexionada, por exemplo, é tarefa difícil" e, "em muitos casos, a opção é meramente estilística".

12) De modo prático para os exemplos da primeira consulta, deve-se dizer que, em todos os casos em que o infinitivo vem precedido de preposição dessa natureza (sem, de, a, para ou em), estão corretos ambos os modos de fala: a) "Designar servidores para compor comissão..."; b) "Designar servidores para comporem comissão..."

13) E, quanto aos exemplos da segunda consulta, também todos os exemplos estão igualmente corretos: a) "Nosso pai sempre nos incentivou a ser fortes"; b) "Nosso pai sempre nos incentivou a sermos fortes"; c) "A miséria compele-nos a não ter prurido"; d) "A miséria compele-nos a não termos prurido"; e) "... comportamentos a ser adotados..."; f) "... comportamentos a serem adotados...".

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Colunista

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.