Meio de campo

A caminho da Bombonera: O encontro (e o desencontro) de pai, filho e pai

Rodrigo R. Monteiro de Castro narra a trajetória para chegar ao mitológico estádio La Bombonera, em Buenos Aires, com seu filho.

7/10/2026

O futebol conecta. O mesmo time de futebol conecta muito mais. Cria laço, amizade, afeto, memória. E sugere algumas lições derivadas da vitória ou da derrota e, em qualquer caso, da perseverança.

A conexão entre pai e filho, filho e pai, por conta de uma mesma expectativa, uma mesma torcida, uma mesma paixão, se intensifica dentro do estádio (e alternativamente diante da televisão).

Mais: também pode contribuir para o encurtamento de distanciamentos provocados pelos mais distintos motivos – especialmente, nos tempos atuais, pela utilização abusiva das redes sociais.

Com a definição, semanas atrás, dos resultados das quartas-de-final da Copa Sul-Americana, anunciou-se um duelo histórico: São Paulo e Boca Juniors. Primeiro jogo lá, em Buenos Aires; segundo aqui, em São Paulo.

Surgira, enfim, a primeira oportunidade de ir com o filho ao mítico estádio situado em La Boca, a Bombonera.

O jogo de ida foi marcado para uma terça-feira. Dia de aula. Liguei para mãe, entusiasmado. Queria sua aprovação. Não veio. Mas bilhetes e ingressos já estavam comprados. A viagem aconteceria – e logo com o apoio materno.

Numa cinzenta manhã de setembro, João madrugou para ir a Guarulhos – e não para a escola.

Embarque e voo se passaram sem percalços, ao lado de outros torcedores tricolores. A sensação de pertencimento e de coletividade dominava o ambiente.

Já em Buenos Aires, de lindo céu azul, pai e filho abandonam uma reserva no premiado (e, para aquela data, desnecessário) Don Julio e se dirigiram, sem aviso prévio, à La Brigada, em San Telmo, deliciosa parrilla que expõe em suas paredes apetrechos de centenas de times, locais e internacionais.

Ambiente mais apropriado, sem dúvida, que oferece uma portenha viagem ao mundo do futebol e, naquele momento, recepcionava comensais são-paulinos que esbanjavam orgulho de pertencer e de invadir, para torcer.

Ao final da tarde, chegamos ao ponto de encontro: um hotel decadente na região central, de onde partiríamos para Puerto Madero, base de saída das dezenas de ônibus da torcida, rumo à Bombonera.

Na base, a primeira emoção: umas quinze centenas de uniformizados, de diferentes origens, reunidos em ato de fé, à espera da liberação policial. Sim, nenhum ônibus sairia sem prévia revista e escolta da polícia. Problema: nosso ônibus foi o último a chegar e, pelo tempo de fila, não partiria antes de umas duas horas.

A ansiedade consumia a carne – e intranquilizava o espírito. Não dava para aguardar.

Parei um táxi, negociei o preço do trajeto e impus duas condições: primeira, o carro deveria ir atrás do comboio e não o poderia se desgrudar, por qualquer motivo; segunda, deveria nos deixar no mesmo local que os torcedores organizados. As condições foram aceitas e prometidas. E assim, igualmente uniformizados, partimos, orgulhosos, logo atrás dos batedores.

Invasão – ou intrusão – em marcha. Apreensão no pico.

No segundo ou terceiro semáforo, a frota pegou uma via na contramão. O chofer do táxi titubeou e não a seguiu. Seria multado, ele disse. A promessa estava quebrada. Sem a facilidade da escolta, o trânsito era inevitável. Pior, chegaríamos desacompanhados ao campo, e não em bando, como programado.

Intencionei uma revolta. Mas seria pior. Protestei, porém. A resposta foi desconcertante: - Não se preocupe. Sou Boca. Conheço a região como poucos. Chegaremos juntos.

Acreditar, era o que restava.

No tumultuado trajeto, a cada comentário de que não encontraríamos os ônibus, o motorista apontava umas luzinhas ao longe e dizia: são eles. Logo nos conectaremos. Não eram eles. E não havia sinal de que a conexão se estabeleceria. Eu pensava na mãe. O que dizer a ela se, na chegada, tomássemos umas bordoadas e voltássemos com olhos roxos.

De repente, o táxi se insinuou por ruas semidesérticas, ladeadas por galpões e prédios aparentemente abandonados, que faziam um incompreensível ziguezague. E sugeriam um cenário de Ensaio sobre a Cegueira.  

- Está perdido?

- Já lhe disse que a Boca é minha casa. Logo acharemos os ônibus.

Estava para apostar que chegaríamos ao Forte Apache. E de lá não sairíamos.

Eis que, ao fazer uma curva em cotovelo, se revelou, no horizonte iluminado, a Bombonera e, poucos metros adiante do táxi, em ritmo lento, o comboio.

- Eu não disse? Aí estão. Chegaremos juntos.

Chegaríamos juntos! Impressionante e emocionante. Rodamos uns poucos quarteirões na cola dos batedores em motos e, enfim, apareceu a primeira barreira. Os ônibus foram autorizados a prosseguir, o táxi não. Mais uma quebra de promessa.

- Senhor, não chegaríamos ao ponto mais próximo ao lado da torcida?

- Mas a polícia não me deixou passar. Lamento. Mas pode seguir a pé.

- Podemos ir uniformizados?

- Por suposto. Daqui, não encontrarão torcedores do Boca, além de mim.

- Certeza?

- Pode confiar.

- Confio. Muito obrigado.

- Faça-me um favor.

- Por suposto.

- Não vença o jogo.

Naquele momento, e após a magia do encontro com a frota, eu confiaria no que ele dissesse, até que Milei fosse normal.

Descemos e caminhamos por uma centena de metros e nos deparamos ... com a torcida, que descia eufórica dos ônibus. Nosso motorista estava certo. Ele conhecia tudo. Torcedor rival, conduziu-nos com segurança. E não normalizou o Milei.

O trajeto até o estádio – sim, um estádio, velha-guarda ou velha-estrutura, sem complexo de arena – estava teatralmente traçado, com tapumes em todas as intersecções, para que torcedores adversários não se chocassem, física ou visualmente.

Mais: passamos por oito barreiras policiais, que controlavam, repetidamente, a posse do ingresso ou que apenas pretendiam impor respeito (ou medo). Após a última, surgiu a imponente construção em azul e amarelo, palco de espetáculos históricos. E também a escadaria que parecia não ter fim – como o pé-de-feijão -, que nos levaria às nuvens de uma cidade que, naquela noite agradavelmente fria, não tinha nuvens.

Ao vencer as centenas de degraus, o prêmio: do alto, sim, do ponto mais alto do estádio, reservado (ou relegado) à torcida adversária, se via, lá embaixo, a grama, quase tão sagrada como a do Morumbi, sobre a qual o time do pai e do filho promoveria uma conexão (também quase) divina.

- Estamos na Bombonera!

- Para ver o São Paulo!

A emoção de João, em sua primeira vez, encontrou a minha, também na primeira vez com ele.

E foi aí que se me revelou um desencontro, talvez o meu maior desencontro.

Nunca havia vivido algo parecido com meu pai. Ele, como toda a minha família, corintiano. Que jamais compreendeu a minha desconexão e a jogava na cara, em momentos de atrito. Mas que, com o tempo, em segredo – não tão guardado – passou a torcer pelo time do filho, pelo filho – sem jamais trair o seu próprio time. E ainda mais, anos depois, pelo time do neto – e da neta, que não foi para Bombonera porque estava estudando para o vestibular.

Ali, nas alturas, no meio de dois mil são-paulinos, que cantavam incansavelmente e não se importavam com a hostilidade da torcida adversária, lamentei não ter dado a meu pai a alegria que João me dava; mas tive a certeza de que ele, não apenas aceitou a minha escolha como, de algum lugar e naquele momento, cantava e incentivava o Tricolor.

Ao final do jogo, após mais de uma hora de espera dentro do estádio, cansados, tristes pelo resultado, mas em paz, fomos para o ônibus. Novamente, um dos últimos da fila. A saída aconteceria em comboio. Tomaria tempo. Talvez muito tempo.

Começamos a andar, para ver aonde chegaríamos. A rua terminou em outra, mais larga e movimentada, por onde torcedores do Boca caminhavam. Não muitos.

Três homens, em ritmos diferentes, vieram em nossa direção. Os três nos disputavam, como possíveis passageiros. Um deles, o mais grosseiro e com aspecto de bicheiro, se sobrepôs aos outros.

Perguntei o preço da corrida. Ele respondeu. Não estava caro. Eu não tinha intenção, naquele momento, de barganhar. Indaguei sobre a segurança de caminhar com ele até o carro, uns 100 metros adiante, uniformizados, no meio de torcedores locais.

- Comigo, estão em segurança. Conheço tudo por aqui e todos me conhecem.

- Bora?

- Bora, papai.

Colunista

Rodrigo R. Monteiro de Castro advogado, professor de Direito Comercial do IBMEC/SP, mestre e doutor em Direito Comercial pela PUC/SP, coautor dos Projetos de Lei que instituem a Sociedade Anônima do Futebol e a Sociedade Anônima Simplificada, e Autor dos Livros "Controle Gerencial", "Regime Jurídico das Reorganizações", "Futebol, Mercado e Estado” e “Futebol e Governança". Foi presidente do IDSA, do MDA e professor de Direito Comercial do Mackenzie. É sócio de Monteiro de Castro, Setoguti Advogados.

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