Ordem na Banca

Contratação na advocacia: Quando o status decide, a cultura e o caixa pagam a conta

Um filtro prático para escolher modelo de contratação, cláusulas essenciais e talento aderente ao seu sistema de gestão.

25/2/2026

Introdução

No meu último artigo, eu tratei do status como variável de risco gerencial: quando o reconhecimento vira identidade, o fundador começa a administrar percepção em vez de administrar o negócio. Neste novo, vamos ao ponto onde esse fenômeno costuma ficar mais caro e mais silencioso: a contratação.

A maior parte das crises de cultura em sociedades de advogados não nasce de “gente ruim”. Nasce de um erro de critério. O sócio contrata para compor palco, não para sustentar sistema. Contrata para parecer grande, não para entregar bem. Contrata para reduzir a própria ansiedade, não para aumentar a capacidade do escritório. E, como todo erro de critério, ele não aparece no primeiro mês. Ele aparece quando a folha cresce, a margem cai, a equipe se fragmenta e a governança vira um debate emocional.

A tese prática é simples: contratação é alavanca de reputação. E reputação de longo prazo se constrói com autoridade, não com vitrine.

Cena de bastidor: A contratação que parecia “estratégica” (até virar passivo)

Reunião de sócios. O fundador anuncia, com orgulho, a chegada de um nome “forte”: currículo impecável, boa presença, ótimo networking, “vai trazer mercado, vai trazer clientes”. A equipe respira aliviada, porque o fundador vende isso como solução para sobrecarga e crescimento.

Três meses depois, o que mudou não foi a carga. Foi o clima. A nova contratação não se encaixa no método, dribla processos, negocia diretamente com o fundador, cria exceções, desloca autoridade técnica para autoridade social. A operação vira refém de um protagonismo. E o fundador, para não “perder a contratação”, começa a tolerar o que antes (talvez) não toleraria.

O ponto aqui não é moral. É econômico e de governança: quando o status entra como critério de escolha, ele pede privilégios. Privilégios viram precedentes. Precedentes viram cultura. Simples assim.

Status na contratação: Como ele se disfarça

A contratação contaminada pelo “palco” costuma vir com linguagem bonita. Algumas frases típicas:

“Precisamos de alguém com nome.”

“Vai ajudar no posicionamento.”

“O mercado vai perceber.”

“Esse perfil eleva o nível.”

“Tem uma presença que impõe respeito.”

Nada disso é, por definição, errado. O problema está no que fica fora da frase:

  • Qual resultado mensurável se espera dessa contratação em 90 e 180 dias?
  • Que impacto isso tem na margem e no custo de coordenação?
  • Essa pessoa trabalha dentro de método ou depende de exceção?
  • Ela soma à cultura ou exige que a cultura se adapte a ela?
  • A reputação que ela traz é autoridade técnica ou capital social de curto prazo?

A diferença entre autoridade e vaidade, aqui, é objetiva: autoridade reduz incerteza e aumenta previsibilidade. Vaidade aumenta custo de coordenação e cria dependência do fundador.

Modelos de contratação na advocacia (e o erro de escolher pelo símbolo, não pela função) Se a contratação é estratégica, o modelo também é. E o fundador precisa parar de escolher modelo por conveniência emocional ou pelo que vê os outros fazendo.

Contrato CLT: Vantagens e desvantagens (em lógica de gestão)

Vantagens gerenciais frequentes:

  • mais previsibilidade de disponibilidade e subordinação;
  • maior controle sobre rotinas e padrões de entrega;
  • melhor aderência a desenho de cargo e metas de processo.

Desvantagens gerenciais frequentes:

  • custo fixo maior em cenários de instabilidade;
  • risco de inchar estrutura se a operação não estiver bem dimensionada;
  • tendência do fundador a “comprar presença” em vez de comprar resultado.

Contrato de associação: principais características (em lógica de governança)

Quando bem desenhado, pode:

  • alinhar remuneração com produtividade e resultado;
  • reduzir rigidez de custo em ciclos de baixa;
  • ampliar velocidade de composição de time em áreas específicas.

Quando mal desenhado, vira:

  • zona cinzenta de expectativa, pertencimento, papel e performance;
  • insegurança de regras do jogo (o que gera política interna);
  • disputa por alocação de casos e “território”.

Associação entre sociedades: vantagens e desvantagens (estratégia, não improviso)

Pode ser alavanca de:

  • complementaridade técnica e acesso a mercados;
  • eficiência em projetos, diligências e demandas de volume.

Mas exige:

  • critérios claros de qualidade e responsabilidade;
  • governança de fronteira: quem fala com cliente, quem decide, quem assina, quem responde.

Sócios de serviço e de capital: Diferenças e funcionalidades (a parte que mais gera ressentimentos)

Este tema é explosivo porque mexe com status interno. Se a sociedade não define de forma clara:

  • o que é mérito;
  • o que é influência;
  • o que é capital (financeiro e relacional);
  • o que é entrega (técnica e comercial)...

...ela cria uma fábrica de ressentimentos.

Contratações temporárias, parcerias e modelos híbridos

São excelentes quando o escritório tem maturidade de escopo e gestão de projeto. Quando não tem, viram:

  • retrabalho;
  • desalinhamento de padrão;
  • “terceirização do caos”.

Observação necessária: aspectos jurídicos e regulatórios variam. A decisão do modelo deve ser feita com orientação especializada e aderência às regras aplicáveis. O meu foco aqui é o que o fundador frequentemente ignora: o impacto gerencial do modelo.

Pontos-chave nas contratações de advogados: O que precisa estar claro para evitar guerra fria interna

Direitos e deveres das partes (em linguagem de operação)

Antes de falar de cláusula, o escritório precisa responder com clareza operacional:

  • o que é “bom trabalho” aqui dentro;
  • quais são as entregas não negociáveis;
  • quem decide o quê;
  • como se mede desempenho;
  • como se dá feedback e correção de rota.

Sem isso, qualquer modelo vira palco, porque o único critério passa a ser a percepção.

Cláusulas essenciais: Confidencialidade, não concorrência e exclusividade

Mais importante do que listar cláusulas é alinhar intenção: elas não servem para “punir”. Servem para proteger ativos do escritório, como:

  • informação confidencial;
  • carteira de clientes e relacionamentos;
  • metodologia, modelos e materiais;
  • reputação e risco.

O erro comum do fundador é acreditar que cláusula substitui governança. Não substitui. Cláusula sem rito de gestão é papel (morto). Rito sem cláusula é ingenuidade. O equilíbrio é o que nutre o sistema de gestão.

Processo seletivo estratégico: O filtro anti-palco (com prática aplicável)

Aqui está o coração deste artigo: um processo seletivo que protege o escritório de contratar “imagem” e importar problema.

Identificação de talentos alinhados à cultura organizaciona

O fundador precisa definir, antes de entrevistar, quais são os 5 critérios culturais inegociáveis. Exemplos que funcionam muito bem em sociedades:

  • sobriedade com cliente e com ego;
  • respeito a método e padrão;
  • capacidade de aprender e ser corrigido;
  • colaboração real, sem vaidade territorial;
  • maturidade para operar sob métricas.

Cultura não é discurso. Cultura é comportamento repetido sob pressão.

Avaliação de competências técnicas e comportamentais

A avaliação técnica é necessária, mas não suficiente. O risco do palco mora no comportamental. Sugestão de perguntas que revelam aderência:

“Me conte um erro relevante que você cometeu e como você comunicou isso.”

“Qual foi a última vez que você teve que seguir um método com o qual não concordava totalmente?”

“Você prefere autonomia total ou critérios claros? Por quê?”

“Como você reage quando um cliente questiona seu preço?”

“Qual foi a sua contribuição real para o resultado do time, não apenas para o seu?”

Respostas excelentes não são as mais eloquentes. São as mais consistentes.

Assessment de competências (menos achismo, mais evidência)

Três avaliações simples elevam muito a qualidade da decisão:

  • um case técnico curto;
  • uma simulação de conversa com cliente;
  • uma simulação de alinhamento interno.

Quem vive de palco costuma performar bem na vitrine e mal no alinhamento interno.

Políticas de contratação inclusivas e sustentáveis

Inclusão, aqui, não é discurso de marketing. É estratégia de risco e performance:

  • amplia repertório e reduz clonagem cultural;
  • fortalece marca empregadora;
  • melhora retenção quando existe trilha de desenvolvimento real.

Sustentabilidade de contratação é esta conta: contratar bem é mais barato do que demitir tarde.

Exercício de gestão: O “filtro de contratação” (o que é e como usar)

Para finalizar, quero propor um exercício de gestão para o fundador aplicar imediatamente, com um objetivo muito específico: evitar que a decisão das suas contratações seja guiada por encanto, urgência ou status.

Em outras palavras: é um check final de 1 página, para ser usado no fim do processo seletivo, antes de fazer proposta, para responder a duas perguntas simples e decisivas:

  • Estou contratando autoridade (capacidade de entrega, método e maturidade)?
  • Ou estou contratando “palco” (um perfil que parece forte, mas cobra exceções e vira custo de governança)?

Quando usar

Use esse filtro após as entrevistas e testes, quando você já tem evidências mínimas do candidato, e precisa tomar a decisão com critério.

Como funciona (em 5 minutos)

Você avalia o candidato em dois blocos e dá notas 0, 1 ou 2 para cada item.

Escala de nota (para não virar achismo)

  • 0 = não demonstrou (ou não trouxe evidência);
  • 1 = demonstrou parcialmente / com inconsistência;
  • 2 = demonstrou com clareza, consistência e exemplos.

A regra é: nota não é opinião; nota é evidência. Se você não tem evidência, a nota não pode ser 2.

Bloco A: Autoridade (o que você quer contratar)

Aqui você mede se a pessoa vai fortalecer o seu sistema, e não virar exceção dentro dele. Dê nota 0-2:

  • Entrega previsível em padrão: Trabalha com método? Entrega com clareza? Cumpre combinado? Sabe reportar andamento?
  • Aderência a processo (sem atalhos pessoais): Consegue seguir fluxo, padrão e revisão, ou precisa “do jeito dela” para funcionar?
  • Maturidade emocional sob pressão: Como reage a crítica, prazo, conflito e objeção? Fica defensiva ou ajusta rota?
  • Colaboração real: Integra com o time ou cria política, disputa de território e competição interna?
  • Capacidade de aprender com correção: Recebe feedback, melhora e sustenta melhora?

= Some a pontuação do Bloco A.

Bloco B: Risco de palco (o que vira custo de governança)

Aqui você mede o que costuma virar problema invisível: exceções, privilégios, dependência do fundador e ruído cultural. Dê nota 0–2:

  • Precisa de exceção para performar: “Para eu entregar bem, preciso que…” (acesso direto ao sócio, regras especiais, bypass de processo);
  • Baixa tolerância a feedback: Justifica, se defende, terceiriza culpa, resiste a correção;
  • Disputa de território: “Meu cliente”, “minha área”, “meu jeito”. Pouca visão de time;
  • Dependência do fundador: Tende a trazer tudo “para você decidir”, busca validação constante, contorna lideranças;
  • Foco excessivo em símbolos de status: Sala, título, exposição, privilégios, acesso. Mais preocupado com sinalização do que com entrega.

= Some a pontuação do Bloco B.

A regra de decisão (o que fazer com o resultado)

Você não precisa de matemática sofisticada. Precisa de disciplina de critério.

  • Se o Bloco B (risco de palco) estiver alto, você provavelmente não está contratando talento. Está contratando complexidade;
  • Se o total do Bloco B for igual ou maior que o total do Bloco A, a contratação tende a virar passivo: exceção, desgaste, política interna e custo de coordenação;
  • Se o Bloco A for claramente maior e o Bloco B ficar baixo, a contratação tende a ser saudável: entrega, integração e previsibilidade.

Uma frase para você guardar: quando o risco de palco entra alto, o escritório vira refém de governança improvisada.

Para dar nota com evidência (e não “sensação”)

Para que o filtro seja sério, as notas devem se apoiar, como já mencionado anteriormente, em três evidências rápidas:

  • Um case curto técnico, com padrão e prazo definidos;
  • Uma simulação de conversa com cliente (objeção, prazo, cobrança, preço);
  • Uma simulação de alinhamento interno (como ela coordena com pares, segue fluxo e comunica).

Quem é bom de “palco” costuma performar bem na entrevista (assista no YouTube: Entrevista com Estagiário). Quem é bom de autoridade performa bem no método.

O objetivo final do filtro

O objetivo não é criar burocracia. E sim proteger três ativos do escritório:

  • cultura (o que você tolera vira norma);
  • margem (exceção custa caro);
  • governança (dependência do fundador destrói autonomia).

Você contrata pessoas. Mas, na prática, você também contrata comportamentos. O filtro existe para garantir que você não esteja importando, sem perceber, o problema que vai gastar seus próximos 12 meses.

Em suma

O fundador que quer construir um escritório que não quebre quando o dinheiro sobra precisa tratar contratação como arquitetura, não como impulso.

O palco pode até ajudar na entrada, mas é a operação que sustenta a permanência. Autoridade, neste contexto, é ter critérios que funcionam em silêncio: método, cultura, indicadores e governança.

Vaidade é quando a decisão de gente é tomada para sinalizar poder e prestígio. E isso, cedo ou tarde, aparece exatamente onde o fundador não quer: no caixa, no clima e na mesa do Conselho de Sócios.

Colunista

Lara Selem é advogada, professora, escritora, palestrante, conselheira, advisor especialista em Gestão Legal, Sociedades de Advogados e Planejamento Estratégico para a Advocacia. Executive MBA pela Baldwin Wallace College (2002, EUA), especialista em Gestão de Serviços Jurídicos pela FGV-EDESP (2003, São Paulo, SP), Leading Professional Service Firms pela Harvard Business School (2006, Boston, EUA), Culture & Business in Arabic World pela Emirates Academy of Hospitality Management (2009, Dubai, UEA), Psicologia Transpessoal pela Unipaz (2015, Brasília-DF), Business Law in Practice for Transnational Lawyers pela Fordham Law School (2014, NY, EUA), Structural Issues in Law Firm Management pela Fordham Law School (2024, NY, EUA), Board Program pela StartSe (2025, São Paulo, SP).

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