Porandubas Políticas

Porandubas nº 325

O mensalão terá repercussão sobre o processo eleitoral ? É previsível que o discurso frequente a mesa dos debates.

25/7/2012

Abro a coluna com o deputado Newton Cardoso, ex-governador de Minas Gerais, fonte cheia de histórias hilárias.

Assumiu o governo de Minas e, no dia seguinte, foi ao aeroporto para viajar no helicóptero da administração estadual. Ao tomar conhecimento de que aquele "trem" tinha o nome de seu adversário, foi logo dando bronca no piloto :

- Não entro de jeito nenhum nesse trem com o nome do Hélio ( ).

O piloto, constrangido, respondeu :

- Mas governador, esse helicóptero é do governo do Estado e não do ex-governador Hélio.

Newtão não quis saber :

- Esse trem agora vai se chamar Newtoncóptero. Falei e tá falado.

Outra historinha envolvendo o folclórico ex-governador. Resolveu passear de carro com a família. O carro pifou na estrada. O mecânico, que o socorreu, diagnosticou :

- São os burrinhos dos freios; estão danificados. Acho bom trocar logo esses burrinhos.

Cardoso deu a bronca :

- Calma, seu mecânico, meus filhos não descerão dos burrinhos de jeito nenhum.

Mensalão na reta final

O mensalão, ufa, chega à reta final. 3 de agosto, início da partida. Previsão de término : segunda quinzena de setembro. São 38 réus, 50 mil páginas de documentos, 90 horas de julgamento, 15 sessões do plenário, 600 testemunhas em 42 cidades brasileiras. Fase de inquirição de testemunhas : 4 anos. Alegação final dos réus tem 2,8 mil páginas. Voto do relator Joaquim Barbosa tem mil páginas. Voto do revisor Ricardo Lewandowski, também mil páginas. Para efeito de comparação, lembremo-nos do caso Collor : 8 réus, 38 páginas de processo (1994). O interesse é tão grande que o STF está pedindo reforço de segurança junto à Força Nacional. Mídias nacional e internacional com luzes e holofotes acesos.

Projeções

Hipótese 1 : condenação de todos os réus. Penas duras. Menos provável. Hipótese 2 : absolvição de todos os réus. Pouco provável. Hipótese 3 : condenação de alguns e absolvição de outros. Razoável. Esta é uma projeção por muitos considerada a mais viável. As penas serão variadas. Mas poucos acreditam em penas muito duras. Os operadores do esquema poderão receber penas mais pesadas. O caso mais emblemático a suscitar dúvidas e interrogações envolve o ex-ministro José Dirceu. Haverá novidades, como a versão mais recente do ex-deputado Roberto Jefferson, que denunciou o esquema : Lula ordenou a operação. Esta é a bombástica declaração do advogado de Jefferson, Luiz Francisco Corrêa Barbosa. Como se recorda, logo após denunciar o caso, o presidente do PTB inocentou Lula : "eu contei e as lágrimas desceram dos olhos dele. O presidente Lula é inocente nisso".

Estratégias

Entre as estratégias dos advogados de defesa, uma das mais anunciadas diz respeito ao desdobramento dos casos, o que poderia, caso a tese fosse aceita, fazer com que os autos dos processos de alguns réus voltem às instâncias inferiores, permanecendo no STF apenas os processos abrigando réus com prerrogativas de foro, conforme visão do ministro Marco Aurélio Mello. Outros defenderão o argumento de que os recursos do mensalão provinham do caixa 2 de campanhas. Há, ainda, os que defenderão a ideia de que alguns réus não tomavam conhecimento e nem eram responsáveis pelo caixa do PT.

O fator Russomanno

A última pesquisa Datafolha sobre os candidatos à prefeito de São Paulo tem aberto grande polêmica sobre os competidores, a partir da hipótese sobre os dois competidores que entrarão no corredor do segundo turno. Dois dados surpreenderam : o crescimento de 2 pontos de Celso Russomanno, do PRB, que chegou aos 26% e a expansão da taxa de rejeição de José Serra, que chega aos 37%. Minha interpretação : Russomanno abocanhou uns pontinhos que eram do cantor Netinho de Paula, que se retirou do pleito; Serra, que é conhecido por quase todo o eleitorado de 8,5 milhões, aumenta rejeição nas margens, onde não é bem avaliado. Seu desafio será o de diminuir drasticamente a rejeição, algo entre 15% a 20%. Mas a grande pergunta é : Russomanno sustentará seu índice ?

Projeções

Vamos à história. Em julho de 2008, Marta liderava o pleito, seguida por Geraldo Alckmin. Marta chegou a ter 35%, enquanto Alckmin exibia confortáveis 32%. O prefeito Kassab, que assumira no lugar de Serra, tinha 8%. Na oportunidade, este consultor fez para ele a leitura : poderia quebrar a polarização entre PT x PSDB por meio de uma campanha positiva, alegre, jovial, para cima. E assim ele fez. Subia degraus a cada pesquisa. Quebrou a polarização. Passou Marta Suplicy e desbancou Alckmin. A história derruba a tese de que a polarização é algo irremovível. Pode, sim, ser ultrapassada. Nesse caso, há possibilidades de crescimento para Fernando Haddad e Gabriel Chalita. Será difícil para Russomanno sustentar sua taxa. Terá apenas 2 minutos e alguns segundos de TV e rádio.

TV, o comício eletrônico

Que ninguém se engane. A TV será o maior cabo eleitoral da campanha municipal nos municípios que contam com mídia eletrônica. Será a vitrine de candidatos e de suas propostas. O fluxo de atenção obedecerá a uma lógica : início dos programas de rádio e TV (21 de agosto) até 5 de setembro, boa audiência. Eleitores querem saber quem é quem e quais são as propostas. De 5 a 20 de setembro, queda da audiência. O eleitorado, após tomar conhecimento das campanhas de cada candidato, faz um intervalo. Assiste, esporadicamente, alguns programas. À medida que a campanha se aproxima do final, a audiência tende a crescer. Os eleitores querem conferir abordagens e consolidar suas visões/julgamentos/decisões sobre candidaturas.

Balança capenga

Há mistério cercando os pesos da balança da Anatel. A Agência avaliou desempenho das operadoras, pede providências e compromissos com qualidade. Até aí tudo bem. Entre Claro, Vivo, TIM e Oi, esta última é a que apresenta menor índice de reclamação. Da moldura avaliativa, emerge a instigante questão : por que a Vivo não foi punida pela Anatel ? Há mais complexidade em alguns chips que imagina nossa pequena capacidade de compreensão.

Desemprego e eleições

Só agora começam a aparecer os primeiros sinais de desaceleração da economia, a partir do freio na indústria. O mercado de trabalho é o território dos efeitos. Anuncia-se, aqui e ali, fechamento de postos de trabalho. O desemprego começa a mostrar sua carranca. Eleições sob um pano de fundo de contingentes desempregados apontam para o perfil de um eleitor contrariado, nervoso, insatisfeito, indignado. Os danos serão mais visíveis nos maiores centros eleitorais, a partir de São Paulo.

Mensalão e eleições

O mensalão terá repercussão sobre o processo eleitoral ? A primeira leitura é a de que os eleitores conseguirão distinguir as coisas. Mas, nas capitais onde se constata polarização clássica entre petistas e tucanos, é previsível que o discurso do mensalão frequente a mesa dos debates. Haverá, como se sabe, alguns debates, promovidos pelas redes de TV. E é provável que o assunto acenda a polêmica principalmente na segunda metade de setembro.

Parcerias

Nas 85 maiores cidades do país - com mais de 200 mil eleitores - PMDB e PT dobraram as alianças. Nesse grupo, em 2008, o PMDB apoiava 10 candidatos petistas. Hoje, apoia 20. Já a recíproca mudou um pouco. Em 2008, o PT apoiava um peemedebista em 6 cidades. Hoje, endossa um peemedebista em 3 cidades. O PMDB também reduziu acordos com o PSDB. Já o PSB do governador Eduardo Campos diminuiu o apoio aos candidatos petistas, privilegiando seus próprios quadros. E manteve acordos com o PSDB e o PSD do prefeito Kassab. Resumo do quadro : PMDB dá sinais de expandir aliança com PT e PSB faz o caminho inverso, expressa distanciamento.

Obama e a economia

Barack Obama está com dificuldades de expandir o cofre da campanha. Em 2008, conseguiu juntar quase US$ 600 milhões. Hoje, não chegou a captar US$ 100 milhões. É a economia, estúpido. O empate com Mitt Romney tem como desenho de fundo a posição nada confortável da economia norte-americana.

Pacto de não agressão ?

José Serra quer firmar pacto de não agressão com Celso Russomanno. Quem acredita nisso ? Difícil. Na hora H, todos os candidatos puxam a navalha cortante da expressão.

SOS para as crianças

A cada ciclo de férias, a pauta de tragédias se expande. Continuam a morrer crianças em hotéis e parques de diversão no país nesses tempos de insegurança geral. É assustador ! A última morte foi segunda feira, em um hotel de Águas de São Pedro. Uma criança de 4 anos brincava num balanço. Uma das barras de sustentação do brinquedo caiu sobre a menina. O Estado não fiscaliza nem pune os desvios que se acumulam. Vidas humanas destruídas na esteira da irresponsabilidade. Vamos apoiar entidades como a ONG Férias Vivas (clique aqui), fundada por Fernando Pinto Zacharias e Silvia Maria Basile.

Trabalho perde função

Há greves em 7 ministérios, em agências e autarquias Federais. Calcula-se em 150 mil o número de servidores abarcados pelos movimentos. Pela lógica, o Ministério do Trabalho e Emprego seria a entidade a negociar com as lideranças das greves. Pois bem, o Ministério não cuida disso. A pasta está esvaziada. Primeiro, porque Dilma percebeu que ali é um território muito disputado pelas Centrais sindicais, a partir da Força Sindical. Por isso, baixou um decreto transferindo ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão a responsabilidade de negociar com os servidores públicos e gerir o cadastro nacional das entidades sindicais que representam o funcionalismo. Ou seja, o Ministério do Trabalho perdeu peso na frente de articulação com os servidores.

54º Congresso de Hotéis

De 26 a 28 de julho, o CONOTEL 2012 reunirá autoridades, gestores e executivos da cadeia hoteleira para debater as principais questões do setor no Centro de Eventos Fecomercio, na capital paulista. Na abertura do evento, este consultor fará uma análise da conjuntura neste momento em que o setor conta com a aprovação do Plano Brasil Maior pela presidente Dilma Rousseff. O Congresso deve contar também com a presença de Valdir Moysés Simão, secretário executivo do Ministério do Turismo; Maurício Lucena Do Val, diretor de Políticas de Comércio e Serviços do MDIC; Marco Antônio Viana Leite do Ministério do Desenvolvimento Agrário; Valéria Barros, do SEBRAE Nacional; Ângela Pimenta Peres, do SESI; Enrico Ferni, presidente da ABIH Nacional; e Bruno Omori, da ABIH/SP. O evento é uma realização das quatro principais entidades do setor : ABIH Nacional (Associação Nacional da Indústria de Hotéis), FBHA (Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação), e FOHB (Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil e Resorts Brasil). Entre os temas abordados, "Brasil como ambiente macroeconômico para aceleração do turismo"; "Modelos internacionais da relação de parceria entre governo e hotelaria"; e "Inovação como ferramenta preventiva contra estagnação do mercado hoteleiro". Mais informações (clique aqui).

Conselho às autoridades policiais

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos candidatos e seus assessores. Hoje, sua atenção se volta às autoridades policiais :

1. A insegurança voltou a provocar pânico em São Paulo. O momento é propício para uma profunda reflexão sobre a capacitação dos quadros policiais. Que devem receber urgente orientação/treinamento sobre condutas de abordagem dos cidadãos.

2. É inadmissível que os assustadores eventos policiais, que culminaram com o assassinato de um publicitário e de um imigrante italiano, sejam debitados na conta da banalização, como se fossem casos normais. A população quer ver atos e decisões substantivas voltadas para aperfeiçoar as ações da polícia.

3. Caso persistam as situações de extrema violência, como as que se viram em São Paulo, nos últimos dias, a indignação social culminará com o repúdio aos governantes do momento. E a arma que o povo usará será o voto.

"Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia". (José Saramago)

"Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar". (José Saramago)

"O que as vitórias têm de mal é que não são definitivas. O que as derrotas têm de bom é que também não são definitivas". (José Saramago)

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Colunista

Gaudêncio Torquato jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.