Porandubas Políticas

Porandubas nº 692

Não votar, anular ou votar em branco são atitudes que expressam desencanto, desilusão, indignação.

18/11/2020

Abro a coluna com uma historinha de José Abelha, em A Mineirice. 

As três pessoas 

No confessionário, Monsenhor era rápido. Não gostava de ouvir muita lengalenga. Ia logo perguntando o suficiente e sapecava a penitência que, sempre, era rezar umas ave-marias em louvor de N. S. do Rosário, padroeira de uma cidadezinha de Minas Gerais. Fugindo ao seu estilo, certa feita ele resolve perguntar ao confessando quantos eram os mandamentos da lei de Deus.

– São 10, Monsenhor.

– E quantos são os sacramentos da Santa Madre Igreja?

– São 7, Monsenhor.

– E as pessoas da Santíssima Trindade, quantas são?

– São 3, Monsenhor.

Monsenhor, notando que o confessando só sabia a quantidade, pergunta rápido:

– E quais são essas pessoas?

A resposta encerrou a confissão:

Recados do eleitor

Ufa. Entre mortos e feridos, uns e outros, com salvação para alguns. Quer dizer, um pouco de tudo atingiu a todos. O eleitor foi mais racional que emotivo. Em certas praças, como havíamos previsto, uma abstenção recorde de mais de 30%. O que não significa falta de interesse. Não votar, anular ou votar em branco são atitudes que expressam desencanto, desilusão, indignação. Recados foram dados às pencas. Eis alguns.

1. Política tradicional

Em 2018, Jair Bolsonaro levantou a bandeira da antipolítica, ou, nos termos que usou, a velha política. O eleitor, com sua arma democrática, disse: “espere aí, não é bem assim. Devagar com o andor”. E deu um voto intenso na política tradicional, escolhendo quadros conhecidos.

2.Testado e experiente

Entre um novato, inexperiente, e um perfil já testado na administração, o eleitor preferiu este último. Muitos candidatos são da velha escola. E alguns correm na pista, mesmo com mais de 80 anos, como é o caso de Amazonino Mendes, que lidera a disputa do 2º turno em Manaus.

3.Viés plebiscitário

A eleição, a par de se constituir um freio de arrumação no sistema político, preenchendo lacunas e abrindo portas, teve também um certo viés plebiscitário, que se interpreta como endosso/apoio ou desaprovação ao presidente Bolsonaro. Que não conseguiu eleger nem 10 prefeitos e uma leva pequena de vereadores nos 5.567 municípios do país. De 78 candidatos que registram Bolsonaro como sobrenome, apenas 1 foi eleito: o filho Carlos. A rejeição ao presidente é alta, como se viu em São Paulo, com o desastrado apoio ao candidato do Republicanos, Celso Russomano. O filho Carlos teve 35 mil votos a menos do que obteve na eleição de 2016 , índice que o colocava em 1º lugar. Agora, ficou em 2º. A mãe dos filhos 01, 02 e 03, Rogéria Nantes Bolsonaro, não foi eleita.

4. Partidos repartidos

DEM, PSD e PP são alguns partidos que ganharam musculatura. O PSDB poderá recuperar terreno com Bruno Covas em São Paulo. Elegeu até agora 497. O MDB continuará como o partido de maior número de prefeitos - 777 - mas perdeu 25% de sua bancada no comando municipal. Nenhum partido fez mais de mil prefeitos. No RS, o MDB obteve a melhor performance, com 130 vitórias. O PSDB caiu de 804 para 519 prefeituras vencidas.

5. PT encolheu

Nas eleições municipais de 2012, ápice da popularidade de Dilma e Lula, o PT venceu em 644 cidades. Neste ano, até agora, venceu em 178. E o PSL, rachado por querelas com os Bolsonaros, e com um fundão eleitoral de quase R$ 200 milhões, teve performance lamentável, elegendo apenas 87. Voltou a ser nanico. O Novo, que seria a esperança de novos costumes na política, por enquanto registra apenas uma vitória. E disputará o segundo turno em Joinville, município mais populoso de Santa Catarina.

6. Centrão cresceu

O eleitor decidiu dar mais fôlego ao Centrão, que ganhou volume. O PP fez 672 prefeitos. O PSD, do ex-prefeito paulistano Gilberto Kassab, subiu de 539 para 652. O DEM ampliou sua quantidade de prefeitos em 70%, chegando a 458.

7. PSOL vindo para o meio? 

Uma das maiores novidades do pleito foi a chegada ao 2º turno de Guilherme Boulos, do PSOL. Quem diria que o líder do Movimento dos Sem Teto chegaria a uma ampla cobertura de mídia, ganhando a atenção do eleitorado jovem e muitos eleitores refinados das classes A e B da maior metrópole do país? Pois bem, correu um vento a favor dele, que lhe trouxe uma aura de mocidade, vigor, juventude, renovação. Bom de debate, canalizará os votos do petismo e das rodas intelectuais e artísticas. Na periferia, é carregado pela “tia Luiza” ( Erundina). 

Lula, paciência

O PT de José De Filippi disputará o 2º turno em Diadema com Taka Yamauchi, do PSD. Será a única chance do petismo resgatar uma nesga da grande nuvem que o acolhia no ABC paulista. O eleitor dá um recado ao lulismo: paciência, a vez de vocês passou. 

8. Embalando acm neto 

O eleitor, como já se disse antes, decidiu endossar as candidaturas de indicados por bons gestores. No caso da Bahia, Bruno Reis, o vice de ACM Neto, decidiu a parada no 1º turno. E assim, o DEM se habilita, a partir do maior colégio eleitoral do Nordeste e quarto do Brasil, a compor com o PSDB com vistas ao pleito de 2022. 

9. O eleitor medroso 

Tenho repetido que a pandemia também decidiu interferir no processo. Influenciou o não votante, o voto nulo e em branco, e ainda carregou o voto com a escolha de perfis mais comprometidos com a melhoria dos serviços públicos. Portanto, o voto dado ou não dado agregou a componente da crise sanitária. Punindo uns, parabenizando outros. 

10. Ninguém é imbatível 

Um recado fica muito patente: ninguém é imbatível. E pessoas autossuficientes caem do pedestal, ao perceberem que seus sonhos de grandeza não se realizam. Vejam o caso da Joice Hasselmann. PSL. Teve pouco mais de 82 mil votos, quando em 2018, concorrendo para deputada federal, teve cerca de 1 milhão de votos em São Paulo.

11. E agora, José? 

Valho-me dos versos iniciais do poema do fabuloso Carlos Drummond de Andrade:

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
 

Fazer o quê? 

  1. Bolsonaro – vamos fazer as contas de ganhos, perdas e danos. Ganhos? Não os vejo.
  2. Candidatos ao 2º turno – Que verbos, adjetivos, ênfases, promessas e compromissos devemos anunciar?
  3. Centrão – Ante nosso avanço nas urnas, devemos renegociar nossos feudos no governo.
  4. Partidos grandes – MDB, DEM, PSD – Vamos olhar, com um olho, para o centro-direita; e com o outro para o centro-esquerda.
  5. Bruno Covas e Boulos – Como atrair votos conservadores do Russomano em São Paulo? Como atrair os votos da esquerda sem ganhar a pecha de extensões do petismo?
  6. Lula, Gleisi, José Dirceu – Que mudanças precisamos fazer? Como renovar o partido? Que bandeiras deveremos levantar?
  7. Redes bolsonaristas – Perdemos de goleada. Vamos incrementar as fake news? Com informações de fraudes eleitorais? Vamos insinuar que os ataques ao sistema do TSE têm a ver com fraudes?
  8. João Doria – O que devo fazer agora na campanha do 2º turno? Continuar escondido e aparecer apenas na frente da Coronavac ou aparecer de soslaio em alguns eventos?
  9. Gabinete do ódio – Vamos esperar pelas diretrizes dos nossos comandantes? Continuar a linha de ataques, com insinuações de conspiração ou dar um tempo para acomodação das placas tectônicas da política?
  10. Paulo Guedes – Paro o trem da economia até ver a onda passar ou continuo a correr na locomotiva? Afinal, perdedores e vencedores deverão chegar ao nosso confessionário, contar pecados ou desfilar hosanas. Os gastadores contarão com que armas? E os guardadores do cofre lutarão com que armas? E se o comandante das tropas decidir estourar os diques da contenção de gastos? 

A geopolitica da intervenção

Registro mais um livro na praça, que tem o título acima e o sub-título A Verdadeira História da Lava Jato, de Fernando Augusto Fernandes, um dos grandes criminalistas do país. Fernando acompanhou passo a passo o roteiro de investigações e, nesse livro, desvenda a complexa engrenagem formada (e combinada) para culpar os investigados. Esteve presente em muitos depoimentos. Trata-se de uma obra indispensável para quem deseja desvendar os subterrâneos da operação que se tornou bandeira política para alguns protagonistas. 

Fecho a coluna com um pensamento 

A ambição desmesurada 

No meu livro Marketing Político e Governamental, cito um pensamento do cientista político Robert Lane, em Political Life, que explica como a ambição desmesurada pelo poder funciona como um bumerangue. "A fim de ser bem-sucedida em política, uma pessoa deve ter habilidades interpessoais para estabelecer relações efetivas com outras e não deve deixar-se consumir por impulsos de poder, a ponto de perder o contato com a realidade. A pessoa possuída por um ardente e incontrolável desejo de poder afastará, constantemente os que a apóiam, tornando, assim, impossível a conquista do poder".

Veja mais no portal
cadastre-se, comente, saiba mais

Colunista

Gaudêncio Torquato jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.