Há um consenso silencioso que permeia a rotina dos escritórios de advocacia e departamentos jurídicos: o tempo, o recurso mais escasso e valioso da profissão, está sendo consumido por um ciclo interminável de reuniões.
É curioso observar como a digitalização, que prometia eficiência, acabou multiplicando encontros. O que antes exigia uma sala física e uma agenda compartilhada, hoje se resolve com um clique no calendário virtual. O resultado é uma avalanche de convites, notificações e câmeras ligadas, que transformam a jornada do advogado em uma sequência de horas frente à tela, discutindo o que fazer em vez de fazer.
Os dados confirmam o que a experiência cotidiana já denuncia. O Microsoft Work Trend Index (Índice de tendências de trabalho da Microsoft, em tradução livre) de 2024 revelou que os profissionais gastam até 57% da semana em reuniões, sendo que quase metade delas é considerada pouco produtiva.
No universo jurídico, onde o tempo é literalmente convertido em valor, esse fenômeno assume uma dimensão crítica, cada reunião improdutiva representa não apenas perda de faturamento, mas também desgaste cognitivo e dispersão estratégica.
A sobrecarga de reuniões também impacta o bem-estar das equipes. Estudos da American Psychological Association (Associação Americana de Psicologia, em tradução livre) apontam que a fadiga digital e a sensação de improdutividade estão entre os principais fatores de esgotamento em profissionais do conhecimento.
No caso dos advogados, que lidam com prazos, conflitos e pressão por resultados, esse esgotamento assume contornos ainda mais severos. A reunião deixa de ser um espaço de colaboração e se transforma em um obstáculo ao desempenho.
A revolução silenciosa da IA
A boa notícia é que a inteligência artificial começa a se apresentar como uma aliada concreta na reconstrução dessa lógica.
O que antes era um problema organizacional, agora pode ser enfrentado com instrumentos tecnológicos capazes de devolver ao advogado o que ele mais precisa: tempo para pensar, decidir e criar valor. É um movimento que vai além da automação de tarefas, trata-se de uma reconfiguração cultural, um deslocamento da advocacia reativa e presencialista para uma advocacia orientada por dados, resultados e propósito
Ferramentas baseadas em IA já são capazes de transcrever automaticamente reuniões, identificar pontos de decisão, resumir discussões e enviar tarefas para os sistemas de gestão.
O que antes dependia de um estagiário atento ou de anotações dispersas agora é realizado por algoritmos de linguagem natural que entendem contexto, reconhecem vozes e produzem registros estruturados. A reunião passa a ser um insumo de dados e não apenas um evento social
Essa mudança altera a dinâmica das equipes jurídicas, a figura do advogado que “precisa estar em todas as reuniões” começa a perder sentido e em seu lugar surge o profissional que acompanha resultados, confia em registros automatizados e toma decisões baseadas em relatórios precisos.
Isso não apenas libera tempo, mas eleva a qualidade da informação. O conhecimento jurídico, quando devidamente documentado e estruturado, se transforma em ativo organizacional, e não em dependência pessoal.
Do presencialismo digital à cultura de resultados
O conceito de “presencialismo digital” define bem a contradição que ainda domina muitos ambientes corporativos.
O termo expressa a mentalidade herdada da era industrial, quando o valor do trabalhador estava associado à sua presença física. Na advocacia, essa lógica foi transposta para o universo online com um certo verniz de modernidade: câmeras ligadas, janelas abertas e uma infinidade de reuniões que mantêm a ilusão de produtividade. Mas o verdadeiro trabalho intelectual, aquele que exige reflexão, estratégia e análise crítica, continua sendo empurrado para as margens da agenda.
Peter Drucker já alertava que a eficácia é uma questão de foco, não de esforço. O excesso de reuniões dilui a atenção e destrói o espaço de concentração que o pensamento jurídico necessita.
Jim Collins, ao estudar empresas que alcançaram a excelência, observou que os líderes excepcionais são obcecados por simplificar o que realmente importa e eliminar o que não agrega valor. É exatamente isso que a IA oferece à gestão jurídica: a capacidade de filtrar ruídos, automatizar registros e liberar energia humana para a criação de valor estratégico.
Tempo, propósito e motivação na advocacia moderna
Essa reconfiguração do tempo é, em última análise, uma revolução silenciosa na forma de gerir o Direito. Em vez de medir o desempenho por horas de reunião ou tempo de presença, os líderes começam a medir por resultados concretos, satisfação do cliente e qualidade do serviço prestado. Daniel Pink, em seus estudos sobre motivação, destaca que a autonomia, o domínio e o propósito são os verdadeiros motores do engajamento.
Ao eliminar as tarefas repetitivas e os encontros desnecessários, a IA reforça esses três pilares, a autonomia aumenta porque os advogados têm mais controle sobre seu tempo. O domínio se expande porque há espaço mental para o estudo e a especialização e o propósito se renova porque o trabalho volta a ter significado: servir o cliente e entregar soluções jurídicas com impacto real.
IA como instrumento de governança e transparência
A Harvard Business Review publicou recentemente um estudo que demonstra que empresas que automatizam a gestão de reuniões registram ganhos de eficiência superiores a 25%. Esses ganhos são apenas a superfície do fenômeno.
No contexto jurídico, a IA também amplia a transparência e a rastreabilidade das decisões. Quando as deliberações são registradas automaticamente e transformadas em tarefas rastreáveis, o escritório ganha uma camada adicional de governança.
Isso reduz conflitos internos, aumenta a responsabilidade de cada membro da equipe e permite auditorias internas mais precisas. Em tempos de ESG e compliance, essa rastreabilidade é um ativo competitivo, um escritório que documenta suas decisões com o apoio da IA demonstra profissionalismo, previsibilidade e controle de processos, características cada vez mais valorizadas por clientes corporativos.
A resistência cultural e o novo papel da liderança
Contudo, é importante reconhecer que a introdução da IA na rotina jurídica enfrenta resistências culturais. A advocacia, por tradição, é uma profissão baseada em confiança e presença e a transição para uma cultura orientada por dados e tecnologia desafia crenças enraizadas. Muitos advogados ainda associam a liderança à vigilância e o trabalho à visibilidade.
Superar essa visão requer um processo de educação gerencial, no qual o gestor aprende a confiar mais em indicadores do que em impressões e a valorizar resultados mais do que discursos. É um processo que envolve desapego e humildade.
O líder precisa compreender que o controle absoluto é uma ilusão e que a verdadeira liderança está em criar sistemas confiáveis que funcionem mesmo sem sua presença constante.
As lideranças mais modernas já perceberam que o papel do gestor jurídico não é controlar, mas inspirar. A IA oferece os instrumentos que sustentam essa nova forma de liderança, na qual o controle vem dos dados e a energia é direcionada para a construção de cultura e propósito.
Autogestão e confiança nos dados
Essa perspectiva dialoga com os conceitos desenvolvidos por Frederic Laloux em “Reinventando as Organizações”. Segundo o autor, as organizações de vanguarda são aquelas que confiam nas pessoas e estruturam processos que favorecem a autogestão.
A IA, quando bem aplicada, torna-se uma facilitadora desse modelo. Ela oferece transparência, registra dados de forma neutra e reduz a subjetividade que tantas vezes gera conflitos de percepção em ambientes jurídicos.
O advogado autogerido não é aquele que trabalha isolado, mas aquele que toma decisões informadas. Ele confia nas métricas e nos registros automáticos para orientar suas prioridades. O gestor, por sua vez, deixa de ser o centro do fluxo de informação e passa a ser o arquiteto do sistema que garante que todos tenham acesso à informação certa, no momento certo.
Produtividade, cliente e valor agregado
O impacto dessa transformação vai além da produtividade individual. Quando um escritório reduz o tempo gasto em reuniões e aumenta a qualidade de suas decisões, ele melhora a experiência do cliente. A comunicação se torna mais objetiva, os prazos são cumpridos com maior previsibilidade e as soluções jurídicas ganham consistência.
A IA, nesse contexto, atua como um elemento invisível que organiza o caos informacional e devolve clareza ao processo decisório. O cliente percebe o resultado, mesmo sem ver o algoritmo, ele sente a fluidez do atendimento, a assertividade da estratégia e a segurança na execução.
O novo significado das reuniões
A cultura de reuniões intermináveis, muitas vezes travestidas de alinhamentos, é um sintoma de insegurança gerencial. Ela surge quando a liderança teme perder o controle e acredita que estar presente é sinônimo de estar no comando. A IA desmistifica essa crença ao oferecer visibilidade em tempo real sobre o andamento das atividades.
O gestor passa a enxergar dados concretos de produtividade e engajamento, podendo agir de forma proativa em vez de reativa. É a passagem da reunião como instrumento de controle para a reunião como espaço de conexão humana. As reuniões que permanecem são aquelas que importam: estratégicas, criativas e voltadas à tomada de decisão.
Em perspectiva histórica, esse momento marca uma transição comparável à introdução do computador pessoal na advocacia. Na época, também houve resistência. Muitos acreditavam que as máquinas tirariam a complexidade do trabalho jurídico, mas o que se viu foi o oposto: a tecnologia ampliou o alcance da advocacia e criou novos campos de atuação.
Hoje, a inteligência artificial repete esse papel, mas com um componente adicional de profundidade analítica. Ela não apenas executa tarefas, mas aprende com os dados e devolve inteligência para a tomada de decisão. A IA está para o advogado contemporâneo assim como a biblioteca esteve para o jurista clássico: uma fonte de poder intelectual e diferenciação competitiva.
Tempo útil e propósito renovado
A advocacia contemporânea exige uma nova métrica de sucesso: não o tempo gasto, mas o valor gerado. Quando a IA assume o papel de registrar, sintetizar e organizar, o advogado volta a ocupar o lugar que lhe é natural: o de pensar estrategicamente, interpretar a lei e aconselhar com sabedoria.
A gestão jurídica do futuro será aquela que souber equilibrar inteligência artificial e inteligência emocional, tecnologia e cultura, dados e empatia.
O convite à reflexão
Há, portanto, um convite implícito à reflexão. Quantas horas de reunião ainda serão necessárias para perceber que o verdadeiro valor está no que acontece entre uma reunião e outra? A IA não veio para acabar com os encontros, mas para ressignificá-los, cada minuto economizado em uma reunião desnecessária é um minuto devolvido àquilo que realmente importa: a criação de valor jurídico, o desenvolvimento humano e a inovação.
A advocacia que abraça essa visão não perde sua essência, ao contrário, reencontra-a.
O Direito sempre foi, em sua origem, uma disciplina voltada à organização racional da convivência humana. Nada mais coerente, portanto, do que usar a tecnologia para organizar também o tempo e a comunicação dos que o praticam.
A inteligência artificial não é o futuro da advocacia, ela é o instrumento que permitirá que o Direito cumpra seu papel no presente: ser justo, eficiente e humano.