Migalhas de Peso

Inteligência artificial e as suas fronteiras éticas no Jurídico

Entenda até onde a IA pode ir no Direito e por que o fator humano continua indispensável.

6/5/2026
Publicidade
Expandir publicidade

O uso da inteligência artificial tem alcançado muitas pessoas para os mais diversos fins que podem ir de coisas simples, como uma dúvida do dia a dia, até as mais complexas, como atividades jurídicas complexas.

No entanto, com essa disseminação, surge também uma pergunta importante: a informação correta sobre como utilizá-la também se disseminou na mesma velocidade?

Esse descompasso é perigoso, porque quando a IA é usada sem critérios, sem compreensão de suas limitações e sem senso crítico, cresce a tendência de tratá-la como um oráculo infalível e capaz de resolver problemas com precisão matemática e substituir o esforço humano. 

O problema é que isso gera expectativas irreais e também cria um risco real à própria cognição humana. 

Ao delegar até mesmo as mínimas tarefas, aquelas que poderíamos resolver facilmente, abrimos mão da imaginação, da criatividade e do julgamento ético que só o ser humano possui. E é justamente nessa zona de conforto intelectual que reside o maior perigo.

Quais são os riscos de delegar decisões à IA sem supervisão crítica?

No ambiente jurídico, escritórios já usam ferramentas capazes de responder dúvidas, estruturar documentos, revisar contratos e até sugerir estratégias que vêm se tornando parte da rotina, muitas vezes com a mesma naturalidade de consultar um assistente humano. 

Mas até que ponto realmente estamos integrando essa tecnologia com a inteligência humana, ética profissional e supervisão adequada?

Segundo a jornalista e escritora Laura G. de Rivera, “[...]o verdadeiro perigo da IA é a estupidez humana[...]”.

A tecnologia, por si só, não garante precisão, racionalidade ou justiça, ela só responde ao comando que recebe. Quando implementada sem critérios, sem governança e sem senso crítico, a IA pode ampliar erros humanos em vez de corrigi-los.

Ainda em sua entrevista, a jornalista reforça esse ponto ao afirmar que “Quando delegamos decisões importantes, que podem até envolver vida ou morte, o risco é muito alto, sobretudo porque estudos mostram que os humanos tendem a acreditar que, se um computador diz algo, deve ser verdade, mesmo que pensemos diferente.” 

Isso coloca o gestor diante de alguns riscos: O risco tecnológico, pela possibilidade de respostas imprecisas ou enviesadas, e o humano, pela tendência de delegar decisões importantes a sistemas automatizados sem a devida validação.

Ao levantar essa reflexão, o objetivo não é desacreditar a inovação, mas reforçar seu papel como uma ferramenta estratégica que multiplica a capacidade humana e não como um substituto acrítico dela. 

Podemos confiar plenamente na IA para lidar com informações sensíveis?

Em um relatório divulgado pela BBC News, emissora pública do Reino Unido, a organização apresentou dados preocupantes após testar quatro dos modelos de linguagem mais populares do mercado.

A análise examinou como essas IAs utilizaram informações de reportagens da própria BBC ao responder perguntas sobre notícias. O estudo identificou um volume significativo de respostas com erros, incluindo informações imprecisas, trechos distorcidos e interpretações que não correspondiam ao conteúdo original. 

A conclusão da emissora é que os assistentes, no estágio atual, ainda não podem ser considerados fontes totalmente confiáveis para notícias e podem induzir o público ao erro.

Então o que acontece quando sistemas inteligentes falham em campos que exigem precisão, contexto e responsabilidade, como o ambiente jurídico?

A IA pode ser tratada como uma solução plug-and-play?

Apesar do entusiasmo em torno da automação, muitos escritórios ainda caem na armadilha de tratar a Inteligência Artificial como um simples recurso plug-and-play, algo que basta apenas “instalar” para começar a gerar resultados imediatos. Essa visão ignora que a IA não é um equipamento, é uma tecnologia estratégica, e, como toda estratégia, ela exige governança, supervisão e competência humana.

Ou seja, a ferramenta precisa de contexto, parâmetros, validação contínua e alinhamento com as diretrizes éticas e operacionais do escritório. Sem isso, ela dá origem a soluções improvisadas que podem criar mais problemas do que benefícios, como informações imprecisas, análises superficiais, tarefas automatizadas sem critério e decisões tomadas com base em respostas não verificadas.

Os estudos feitos pela BBC deixam claro que sistemas inteligentes não podem ser tratados como uma fonte infalível. Eles continuam dependentes de dados, treinamento e validação, e, acima de tudo, dependem do olhar crítico de profissionais capazes de interpretar, corrigir e contextualizar suas respostas.

Escritórios jurídicos avançados já entenderam que a IA deve estar integrada a um ecossistema de gestão, controle e responsabilidade. Isso inclui definir protocolos de uso, treinar equipes, estabelecer fluxos de validação humana e garantir que cada automação esteja alinhada ao propósito institucional. Em outras palavras, os sistemas só geram eficiência real quando se apoiam na inteligência humana e não quando tentam substituí-la.

Como usar a IA de forma segura e responsável no escritório?

A tecnologia não é uma vilã, desde que usada do modo correto. Para que a IA seja realmente aliada na gestão jurídica, algumas dicas importantes devem ser consideradas:

  1. Defina em quais etapas a IA pode ajudar e em quais ela não deve ser utilizada sem revisão humana;
  2. Nenhuma resposta gerada pelos modelos de linguagem deve ser aplicada diretamente sem supervisão, a conferência humana evita erros críticos e garante responsabilidade;
  3. Capacitar colaboradores é indispensável, quanto maior o domínio sobre a tecnologia, menores os riscos de uso inadequado;
  4. Crie protocolos sobre quem usa, para que usa, como valida e como registra, governança sólida reduz falhas e aumenta confiabilidade;
  5. A IA deve ampliar a capacidade humana, não ocupar funções estratégicas que exigem interpretação, contexto, ética e julgamento;
  6. Nem toda tecnologia serve para qualquer escritório, escolha soluções que dialoguem com fluxo, compliance e maturidade operacional da sua equipe.

A IA's jurídicas tem sido incentivadoras ao uso da inteligência artificial, impulsionando uma gestão mais eficiente e inteligente dos escritórios jurídicos, capaz de compreender e responder questões sobre o próprio escritório.

No entanto, o ecossistema jurídico também assume o papel de orientar gestores a compreenderem como integrar essas inovações de maneira estratégica, responsável e alinhada à governança necessária para operações jurídicas profissionais.

Quando falamos em IA, não estamos tratando de um recurso isolado, mas de uma transformação que exige visão de liderança, revisão de processos, definição de protocolos e supervisão humana qualificada. É exatamente nessa interseção entre tecnologia e competência humana que a inteligência artificial atua ajudando escritórios a evoluírem sem abrir mão da segurança, da ética e da inteligência crítica que a advocacia demanda.

A plataforma se dedica a capacitar gestores a pensar estrategicamente sobre automação, controle, qualidade e impacto operacional, seja por meio de conteúdos, workshops, consultorias ou benchmarks que orientam escritórios a estruturar práticas responsáveis pelo uso da inteligência artificial.

Por que decisões éticas não podem ser delegadas à IA?

Formar uma opinião e tomar uma decisão são processos que exigem senso crítico, algo que nenhuma tecnologia, por mais avançada que seja, é capaz de reproduzir plenamente.

Justamente por isso é tão importante estabelecer limites claros sobre o que a inteligência artificial pode fazer e, principalmente, o que ela não deve fazer. Quando a escolha envolve análise cuidadosa, responsabilidade ou princípios éticos, essa função não pode ser delegada à máquina.

A IA oferece benefícios relevantes em tarefas técnicas, repetitivas e mecânicas, proporciona agilidade, reduz retrabalho e otimiza fluxos que antes demandavam tempo excessivo de profissionais qualificados. Esse é o campo em que a inovação realmente brilha.

O problema surge quando ultrapassamos esse limite e permitimos que os modelos de linguagem assumam funções que dependem de interpretação humana: Pensar sobre um caso, ponderar consequências, decidir entre caminhos possíveis e, acima de tudo, fazer escolhas guiadas por valores éticos.

Quando isso acontece, os benefícios se tornam inválidos e o risco aumenta. A tecnologia não sente, não interpreta contexto histórico, não acessa empatia e não reconhece nuances sociais ou morais.

A fronteira é clara: A IA pode apoiar, automatizar e acelerar, mas não pode pensar por nós. Quando escritórios jurídicos confundem esses papéis, deixam de usar a IA como ferramenta de fortalecimento e passam a transformá-la em um ponto de fragilidade.

Autor

Eduardo Koetz Eduardo Koetz é advogado, sócio-fundador da Koetz Advocacia e CEO do software jurídico ADVBOX . Especialista em tecnologia e gestão, ele também se destaca como palestrante em eventos jurídicos.

Veja mais no portal
cadastre-se, comente, saiba mais

Artigos Mais Lidos