A Alerj - Assembleia Legislativa do RJ derrubou o veto do governador e recriou um bônus que pode chegar a 150% do salário para policiais civis envolvidos na chamada "neutralização de criminosos".
A expressão "neutralização" é justamente o ponto mais polêmico, porque abre margem para interpretações perigosas e amplia o risco de que a letalidade policial seja tratada como critério de produtividade.
Por que isso gerou tanta indignação?
Esse tipo de incentivo pode estimular confrontos letais, reforçando uma lógica de "abate" em vez de investigação, inteligência e prevenção. Não é a primeira vez que o Rio de Janeiro experimenta algo assim: uma gratificação semelhante existiu nos anos 1990 e foi extinta após denúncias de aumento da violência policial.
O que está por trás do debate
- A segurança pública no RJ vive uma crise crônica, e parte da classe política aposta em medidas de confronto direto;
- Especialistas alertam que políticas baseadas em letalidade não reduzem crime de forma sustentável;
- Defensores da medida dizem que é um reconhecimento ao risco da atividade policial;
- Críticos afirmam que isso transforma o Estado em incentivador de mortes.
A volta de uma política que nunca deveria ter existido
A recriação da chamada "gratificação faroeste" reacende um debate urgente: que modelo de segurança pública estamos escolhendo? Ao premiar policiais civis por "neutralizações", o Estado não está apenas reconhecendo o risco da atividade policial.
Está, na prática, criando um incentivo financeiro para a letalidade. É a institucionalização da lógica de que "matar dá bônus".
Essa política já existiu nos anos 1990 e foi abandonada após denúncias de abusos e aumento da violência policial. Sua volta revela uma insistência em soluções fáceis, rápidas e perigosas para problemas complexos.
O incentivo perverso: quando o Estado coloca preço na morte
Atrelar remuneração a resultados letais desloca o foco da polícia: em vez de investigação, inteligência e prevenção, cria-se uma cultura de confronto. O policial passa a ser avaliado não pela qualidade do trabalho, mas pela quantidade de "inimigos neutralizados".
Isso distorce a missão da polícia, que é proteger vidas, não eliminá-las.
É "pena de morte"?
O Brasil não tem pena de morte, exceto em caso de guerra declarada. Mas políticas que premiam letalidade policial funcionam, na prática, como uma forma indireta de pena de morte, porque:
- Incentivam confrontos em vez de investigação;
- Aumentam o risco de execuções extrajudiciais;
- Criam um ambiente onde matar vira critério de mérito, não de exceção.
Ou seja: não é pena de morte "legalizada", mas pode produzir efeitos semelhantes, mortes sem julgamento, sem devido processo e sem garantia de inocência.
A lógica da guerra: territórios como trincheiras
A gratificação faroeste se apoia em um imaginário de guerra. Nas favelas e periferias, o policial vira soldado, o morador vira suspeito e o suspeito vira alvo.
É uma política que transforma territórios inteiros em zonas de combate, onde o devido processo legal é substituído por uma sentença sumária aplicada no calor da operação.
Essa lógica não reduz o crime. Ao contrário: alimenta ciclos de violência, fortalece facções e milícias e aprofunda a desconfiança entre população e polícia.
O policial também vira vítima dessa política
Um ponto frequentemente ignorado é que essa política coloca o próprio policial em risco. Ao criar um bônus por "neutralizações", o Estado estimula comportamentos que aumentam a probabilidade de morte do agente.
O policial passa a ser pressionado — explícita ou implicitamente — a buscar o confronto. Operações se tornam mais agressivas, a exposição ao risco aumenta e a reação dos criminosos se torna mais violenta.
Por que isso aumenta o risco para o policial?
Uma política que premia resultados letais cria um ambiente onde:
- O confronto passa a ser visto como caminho de valorização profissional;
- Operações se tornam mais agressivas;
- A pressão interna aumenta;
- O policial se expõe mais;
- A lógica de guerra se intensifica.
Ou seja, a gratificação faroeste não protege o policial: ela o empurra para o abismo.
O policial vira alvo duas vezes
Primeiro, porque entra em confrontos desnecessários. Segundo, porque criminosos passam a reagir com mais violência ao perceberem que o Estado está premiando letalidade.
Isso cria um ciclo de escalada: mais agressividade de um lado gera mais agressividade do outro.
Segurança pública não se faz com adrenalina
O policial precisa de:
- Salário digno;
- Treinamento técnico;
- Inteligência e investigação;
- Equipamentos adequados;
- Apoio psicológico;
- Protocolos claros.
Nada disso é substituído por bônus por morte. Pelo contrário: o bônus sabota tudo isso, porque transforma o policial em peça descartável de uma política que só produz mais violência.
Uma polícia cidadã não nasce do nada
Se o objetivo fosse realmente valorizar a polícia, o caminho seria outro. Uma polícia cidadã depende de três pilares fundamentais:
Bem-paga
Quando o policial ganha mal:
- Aumenta a vulnerabilidade à corrupção;
- Cresce o desgaste psicológico;
- O profissional precisa fazer "bico";
- A profissão perde atratividade;
Salário digno não é luxo — é política de Estado.
Bem-educada
Educação aqui não é apenas formação técnica. É:
- Direitos humanos;
- Gestão de conflitos;
- Comunicação não violenta;
- Inteligência policial;
- Investigação moderna;
- Cultura de legalidade.
Bem-preparada
Preparação envolve:
- Equipamentos adequados;
- Tecnologia;
- Protocolos claros;
- Supervisão;
- Apoio psicológico;
- Treinamento constante.
Uma polícia mal equipada e mal treinada é perigosa para todos — inclusive para os próprios policiais.
O que muda quando a polícia é cidadã
Quando esses pilares existem:
- A população confia mais;
- A polícia vira parceira, não ameaça;
- A investigação melhora;
- A violência diminui;
- O ciclo de confronto perde força.
É o oposto da lógica de "guerra", que só produz mais guerra.
A quem interessa uma polícia que mata?
Certamente não à população. Certamente não ao policial. Certamente não ao Estado. Interessa a quem lucra politicamente com o discurso da guerra. Interessa a quem prefere espetáculo a resultados reais.
Segurança pública não se constrói com cadáveres
O Rio de Janeiro já experimentou décadas de políticas de confronto. O resultado está diante de todos: violência persistente, facções fortalecidas, milícias em expansão e uma população que vive entre o medo do crime e o medo da polícia.
A gratificação faroeste é um atalho perigoso que promete eficiência, mas entrega apenas mais sangue. Segurança pública não se constrói com cadáveres — constrói-se com cidadania, inteligência e respeito à vida.
O Rio de Janeiro merece mais. Seus policiais merecem mais. E sua população merece viver em um Estado que valorize a vida, não a morte.
Conclusão
É a reedição de uma política que já fracassou quando o Rio ainda tinha ônibus com trocador e telefone público que funcionava. Agora, volta travestida de coragem administrativa, como se pagar por mortes fosse sinônimo de eficiência.
O Estado diz que quer valorizar o policial. Mas valorizar não é empurrar o agente para o confronto, é tirá-lo dele. Não é premiar o tiro, é evitar que ele seja disparado. O resto é conversa fiada para animar plateia.
No fim das contas, a gratificação faroeste não melhora a segurança, não fortalece a polícia e não protege o cidadão. Serve apenas para alimentar a fantasia de que violência se resolve com mais violência. É uma ilusão confortável para quem governa e perigosa para quem vive — e morre — nas ruas.
O Rio de Janeiro já viu esse filme. Ele não termina bem. E, como sempre, quem paga o ingresso não é quem escreve o roteiro.