O silêncio tem um custo e seu custo pode ser o próprio sangue.
Entre silêncios, no Irã, vemos morte e destruição. Vemos ruínas onde antes existiam cidades, cultura e civilização. O silêncio não é vão. Não é vazio, tampouco neutro. Ele é ativamente permissivo e se infiltra em lugares concretos em que outrora a palavra era negada, proibida. Ele se infiltra em lugares onde o medo fez morada e se tornou política pública de Estado.
O Irã é um exemplo clássico desse tipo de política doentia: uma civilização milenar, herdeira de impérios, ciência, poesia e poder geopolítico que perde tudo.
Historicamente essa queda começa quando a chamada Revolução Teocrática da República do Irã, na década de 1970, derrubou o Reino Persa para erguer uma pseudo república apresentada como redenção, mas fundada sobre uma falácia: a de que a repressão moral poderia substituir a liberdade política e a razão.
O mundo observou em silêncio a insanidade deliberada de homens maus - e de sistemas que recompensam a crueldade
O silêncio internacional foi conivente com essa maldade que não poupou inocentes, tampouco culpados que se aliaram ao próprio regime: pessoas envolvidas sejam como técnicos, sejam como militares ou intelectuais. Sejam como religiosos que, em algum momento, tornaram-se descartáveis. Fato é, que Regimes baseados em poderes teocráticos não toleram dissenso, nem mesmo dentro de casa.
E nesse dissenso, residia também o silêncio interno. Esse silêncio falava ali por meio de uma população reprimida, vigiada e medrosa.
Nesse medo, como em tudo que advém do medo, reside uma natureza paradoxal: há um parasita que se alimenta do próprio medo, mas também existe ali, entranhado, um poder transformador.
O medo, seja do que for, quando profundo, pode converter indivíduos comuns em forças imprevisíveis, capazes de enfrentar aquilo que os impede de viver.
O Irã contemporâneo se encontra no momento em que o medo silenciado se externa. Uma espécie de ponto de mutação: ali, o que se apresenta já não é uma simples crise política ou moral. Na verdade, há uma corrosão de tudo por dentro.
No Irã, em meio a agitação das ruas, vemos um país outrora grandioso reduzido às cinzas. Vemos o fruto de uma crise política, ambiental e econômica sem precedentes.
Nesse contexto, podemos afirmar que o Irã, hoje, enfrenta uma grave crise hídrica: rios e lagos desapareceram, não apenas devido as mudanças ambientais, mas também, em razão do custo real de décadas de má gestão, barragens mal planejadas, desvio de recursos, priorização militar e ideológica sobre infraestrutura civil e mudanças climáticas que agravaram a escassez.
A água, riqueza primária de uma nação. O fundamento de qualquer civilização, hoje é o símbolo (devido a sua escassez generalizada) do esgotamento do regime promovido pelos Aiatolás.
A falta de água gerou carência de tudo: agricultura, trabalho, dignidade. Gerou a falta de futuro.
O medo advindo dessa falta, levou a população a sentir medo da morte.
De dentro da população Iraniana, sem sombra de dúvidas, ecoa hoje, um medo profundo de que, a qualquer momento, toda a civilização iraniana pode vir a ser enterrada junto com os cadáveres de seus mortos.
E quando falo mortos, refiro-me aos mortos - vivos (como os zumbis que insistem em caminhar ao lado do regime) e aos mortos de fato; mortos fisicamente.
A verdade é que a repressão do regime pode conter protestos por um hiato de tempo, mas ela não fará chover, não encherá os reservatórios de água e não irá suprir a escassez generalizada da população.
Um regime pode controlar corpos, mas não controla a alma sedenta por liberdade. Não controla a física, tampouco é capaz de impedir o colapso ambiental que ele próprio acelerou.
No Irã, em razão de tudo isso, o ano de 2026 começou marcado por silêncios : sejam rompidos, sejam deliberados.
Nas ruas há vida, comoção, luta e gritos de liberdade, mas ainda há silêncio. Um silêncio ensurdecedor de almas fartas e com medo que se escondem em suas casas.
Observando o silêncio podemos extrair a verdade: a verdade exposta, nua e crua de que o Regime opressor e repressor não consegue mais esconder todas as rachadura de um sistema imposto à custa de sangue, suor e lágrimas.
Nós sabemos por meio da história e do estudo das revoluções que, apesar da força que ainda sustenta o regime, não há governo que subsista em lugares onde o povo está farto, cansado, exaurido e menos disposto a pagar o preço exorbitante da obediência cega. Nesse contexto, vemos que a verdade é irônica: aqueles que vivem em silêncio, acabam por se tornar na maioria das vezes, vítimas de outros silenciosos ou silenciados - seja pela indiferença ou pela covardia.
Não há proteção no silêncio. Há adiamento do inevitável. Sabemos que regimes caem quando deixam de ser viáveis e não em razão de serem confrontados e que o confronto é apenas resultado da sua inviabilidade externada pela fome, pela sede, pelo medo, pela falta de recursos básicos mínimos.
O Irã Contemporâneo nos ensina que o controle extremo de mentes e corações levam ao colapso. Nós faz ver que um coração subjugado dói e que essa dor, quando profunda, acaba por levar o corpo (aqui representado pela Nação) e a alma (aqui representada por sua população) a lutar para não sentir dor.
Estamos vendo no Irã, em verdade, o resultado de milhares de corações que batem, mas dóem muito.
Como espectadores da história viva, estamos todos assustados com o que vemos e o que nos assusta não é a luta do povo para continuar vivo em meio ao caos gerado por um governo corrupto e hipócrita, mas sim, o silêncio do mundo diante da dor desse povo.
Aqui, já quase no final dessa análise, eu ouso dizer que o mundo inteiro está em um ponto crucial da História: aquele ponto em que o mundo é obrigado a decidir em qual lado da História irá ficar.
O mundo deverá dizer se está ao lado do silêncio dos inocentes ou se irá apoiar o predador que destruiu uma civilização inteira.