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Três upskillings para elevar o potencial do advogado

Aperfeiçoamento na advocacia exige dominar IA, inteligência de dados e negociação, ampliando eficiência, decisões estratégicas e capacidade de atuação do profissional jurídico.

26/1/2026
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O termo “upskilling” pode soar técnico, mas o conceito é simples: aprender novas competências ou fortalecer habilidades. É um movimento de evolução contínua para muitas profissões, inclusive a advocacia. Deixou de ser um diferencial eventual e passou a fazer parte da própria construção profissional.

Entre tantas habilidades necessárias, três se destacam: Domínio de ferramentas de inteligência artificial, Inteligência de dados e Capacidade de negociação, sendo que cada uma delas impacta diretamente na forma como o advogado trabalha. Na somatória, ampliam a qualidade da entrega.

A IA - inteligência artificial já está presente em diversas etapas do trabalho jurídico: na triagem de documentos, na análise de grandes volumes de informação, na revisão de cláusulas contratuais e em diversas tarefas repetitivas. Por isso, compreender como essas ferramentas funcionam e como integrá-las ao dia a dia tem uma organicidade.

Em fevereiro de 2024, a LawSites, blog da LawNext que aborda tecnologia jurídica e inovação, divulgou um levantamento mostrando um avanço significativo da adoção de IA generativa no setor jurídico: 26% das organizações já utilizavam IA generativa ativamente, ante 14% no ano anterior, e 78% dos profissionais esperavam que a IA se tornasse parte central do fluxo jurídico nos próximos anos. A verdade é que essa previsão já se concretizou: escritórios e profissionais atualizados já incorporaram a IA ao trabalho diário para ganhar escala e eficiência.

A tecnologia não substitui o advogado; ela amplia sua capacidade. Quando um processo que antes levava horas passa a ser realizado em minutos, surge espaço para pensamento estratégico, análise crítica e atenção ao cliente.

Mas é importante frisar que upskilling em IA não se resume a indicar comandos; envolve:Entender quais tarefas fazem sentido automatizar (pesquisas, triagens, primeiras minutas, comparação de cláusulas etc.);Saber avaliar a qualidade das saídas: checar inconsistências, potenciais alucinações, viés e limitações Conhecer riscos jurídicos envolvidos: confidencialidade, proteção de dados, propriedade intelectual e responsabilidade profissional;Estruturar modelos de trabalho em que a IA executa a parte repetitiva, enquanto o advogado assume análise, estratégia, julgamento jurídico e relacionamento com o cliente e Compreender a linguagem dos modelos .

Um ponto essencial nesse processo tem sido destacado pelo professor Igor Moraes Rocha, coordenador de Projetos de IA e Dados da PGE/SP - Procuradoria Geral do Estado de São Paulo, em seu artigo “Inteligência artificial, metáforas jurídicas e o risco da ignorância técnica”. Segundo Igor, o debate jurídico sobre IA tem sido marcado por uma captura de discursos técnicos por narrativas genéricas, na qual juristas opinam sobre temas altamente complexos sem compreender como funcionam os modelos, os dados que os alimentam ou a lógica computacional envolvida. Esse afastamento da realidade técnica leva a regulamentações desconectadas do funcionamento real dos sistemas e cria obrigações impraticáveis no contexto empresarial.

A crítica reforça a necessidade de o advogado desenvolver um verdadeiro upskilling em IA. Não se trata de transformar o advogado em um desenvolvedor, mas em um profissional capaz de compreender fundamentos, limitações, trade-offs entre interpretabilidade, desempenho e riscos reais relacionados ao uso de modelos generativos. A falta dessa compreensão mínima leva operadores do direito a participar de discussões, decisões e regulações de forma superficial, criando exigências tecnicamente inviáveis e alimentando insegurança jurídica.

É justamente por isso que o advogado contemporâneo precisa dialogar com especialistas técnicos e entender como os sistemas realmente funcionam.

Habilidade estratégica

A inteligência de dados aprofunda ainda mais essa transformação. Estruturar dados significa transformar históricos, métricas, padrões e informações dispersas em análises que apoiam decisões, reduzindo retrabalho, revelando pontos críticos e aumentando a eficiência dos processos. Essa habilidade também se conecta à gestão de projetos, cada vez mais presente no ambiente jurídico para organizar fluxos, padronizar etapas e garantir clareza nas entregas.

O relatório EY Law General Counsel Study 2025, divulgado no final de 2024, mostra que 87% dos departamentos jurídicos enfrentam desafios com dados fragmentados ou desorganizados, o que limita decisões estratégicas.

Além disso, um estudo feito pela Colins Levy chamado “Developing Data Literacy in Legal Tech”, reforça que a alfabetização em dados se tornou habilidade estratégica para profissionais do Direito.

A alfabetização em dados transforma a operação jurídica ao permitir decisões mais proativas, maior previsibilidade, redução de riscos e entregas mais estratégicas.

Na prática, um advogado com boa inteligência de dados consegue enxergar padrões, ao identificar contratos que geram conflitos, fornecedores que exigem mais atenção ou tribunais com maior imprevisibilidade; produzir relatórios estratégicos: indica cenários e consequências prováveis e apoiar decisões de negócio, propondo ajustes contratuais e recomendações embasadas em evidências, não apenas intuição.

À medida que a IA se torna cada vez mais presente na rotina, a inteligência de dados ganha um papel ainda mais relevante: quanto melhor o advogado entende seus próprios dados, necessidades e padrões, melhores serão seus prompts e maior será a qualidade das respostas obtidas. Afinal, a alma da IA é a informação e informação só existe quando os dados estão claros, organizados e bem estruturados.

Habilidade apoiada em dados

A habilidade de negociação completa esse conjunto de habilidades essenciais ao advogado. Negociar, além de já fazer parte da nossa rotina em diversos aspectos, é parte constante da atuação jurídica, seja em contratos, operações comerciais ou resoluções consensuais. A negociação exige leitura de contexto, comunicação clara, empatia, capacidade de construir soluções equilibradas e estratégia. E, quando essa habilidade se apoia em dados, o resultado é muito mais robusto.

Um advogado que se prepara com informações, métricas e análises chega mais seguro à mesa de negociação, sua argumentação se torna mais precisa, suas propostas ganham consistência e suas decisões passam a ter fundamento concreto.

A relevância dessa habilidade tem sido reforçada também em estudos recentes. Em 25 de novembro de 2024, a The University of Law (law.ac.uk) publicou a matéria “The power of negotiation in the legal profession”, destacando que:

“O conhecimento jurídico é essencial, mas a verdadeira marca de um grande advogado é a capacidade de traduzir esse conhecimento em estratégias de negociação eficazes. Seja lidando com clientes, negociando com a parte contrária ou gerenciando relacionamentos com terceiros, a habilidade de negociação é fundamental. É uma competência que não deve ser negligenciada na formação jurídica.”

A pesquisa enfatiza que um profissional com habilidades negociais bem desenvolvidas lida melhor com clientes, mantém relações profissionais mais fortes e conduz acordos de modo mais inteligente.

Do ponto de vista de upskilling, a negociação jurídica envolve pelo menos três camadas: Técnica de negociação: compreender conceitos como BATNA (melhor alternativa caso não haja acordo), ZOPA - zona possível de acordo, gerenciamento de concessões, construção de opções e leitura dos interesses reais por trás das posições apresentadas; Habilidades comportamentais: escuta ativa, clareza de comunicação, empatia, manejo de emoções e controle de tensão e Capacidade analítica: uso de dados, histórico, benchmarks de mercado e cenários simulados para fundamentar propostas e avaliar riscos, conectando negociação com inteligência de dados e com IA.

Advogados que desenvolvem essa competência não apenas reduzem litígios ou constroem acordos mais eficientes; eles também conduzem negociações contratuais mais equilibradas, alinham expectativas com áreas internas, estruturam parcerias com mais clareza, fortalecem relações profissionais e tomam decisões mais estratégicas na gestão do negócio jurídico. O advogado que sabe negociar se destaca não apenas pelos resultados que entrega, mas pela forma como conduz conversas complexas, resolve impasses e cria soluções que geram valor para todas as partes envolvidas.

Em um mercado jurídico cada vez mais exigente e competitivo, dominar inteligência artificial, compreender e estruturar dados e desenvolver habilidade negocial não é apenas um diferencial, é o que define a maturidade profissional do advogado contemporâneo. Essas competências tornam o advogado mais preparado para lidar com operações sofisticadas, apoiar decisões estratégicas e construir soluções assertivas.

Advogados que incorporam essas habilidades ampliam sua capacidade de atuação, passam a participar de discussões mais estratégicas, ganham autonomia e se tornam indispensáveis. São profissionais que, não apenas acompanham ou esperam as mudanças, mas passam a impulsioná-las, porque entendem que o futuro se espera em movimento.

Autor

Tayná Santana de Faria Advogada contratualista da Lee, Brock, Camargo Advogados e pós-graduanda em Direito dos contratos, execução contratual e responsabilidade civil.

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