A criança nasce sem forma, literalmente sem o ego, organizador da realidade humana. Um ser sem contorno emocional, sem narrativa sobre si mesmo. O que a transforma em alguém é o olhar do outro. O primeiro espelho em que a pessoa se enxerga.
Por esse olhar do cuidador inicial se forma a personalidade, a estrutura emocional, a empatia, a autoestima, a autoconfiança. Não que o ser humano não possa construir um lindo palácio emocional no decorrer da vida, mas a fundação desse edifício será sempre a infância.
Interessante que o Gênesis descreve a terra como sem forma e vazia, o Espírito pairando sobre a face das águas, dando contorno ao caos. Uma mãe faz isso. Um pai faz isso. O rosto de quem cuida é a primeira “cosmogonia” do mundo infantil.
Enquanto dormimos, a serpente - ops! - a indústria da tecnologia trabalha para raptar nossos rostos. Desvia o olhar do filho que busca a mãe. Desvia o olhar da mãe que acolhe o filho. Os smartphones são deliberadamente projetados para capturar a atenção, não como efeito colateral, mas como modelo de negócio. É a chamada economia da atenção: quanto mais tempo um olhar permanece numa tela, maior se torna o lucro. E, no meio, perde-se o encontro.
O termo "mãe geladeira" já descrevia essa presença-ausente antes de qualquer algoritmo, cuidadoras deprimidas que não conseguiam olhar para a criança. Os impactos no desenvolvimento emocional já eram medidos, incluindo transtornos graves. A tela industrializou essa distância que antes era exceção. Hoje é mais difícil olhar para o filho enquanto o Instagram brilha em notificações.
Seria raso separar o fenômeno das questões sociais. Antigamente, havia ruas onde crianças brincavam. Hoje, temos menos espaços de lazer, as praças expõem as pessoas à violência e os pais concluem que o único lugar seguro para o filho é dentro de casa. Na sala, fazendo o quê? A babá eletrônica ajuda a mantê-los quietos nos poucos metros quadrados de um imóvel sem quintal.
O fenômeno ainda não foi completamente decifrado, mas já aciona tribunais e altera leis. Na Austrália, restringir o acesso de crianças a celulares já é norma. Na Califórnia, o Tribunal Superior julgará o caso de uma jovem de 19 anos que alega ter sido viciada ainda na infância por um design deliberado de captura de atenção. Ela responsabiliza as plataformas por terem alimentado sua depressão e seus pensamentos suicidas.
Duas décadas, eis o tempo necessário para uma geração ocupar tribunais e narrar o que fizeram com sua infância. O desafio reside em dar nome a um dano que a própria Justiça desconhece, provando que as redes foram causa determinante no caos de crescer no século XXI.
O Brasil promulgou a lei 15.211/25 e acredito que possui problemas. O art. 24 pressupõe uma configuração familiar harmônica. A gente esquece que muitas famílias no país são violentas. Ao centralizar o acesso digital na figura do responsável legal, o adolescente pode se tornar invisível. Se já não tinha o olhar cuidador do pai ou da mãe, agora não terá o da sociedade.
Nem sempre as redes sociais são veneno. Para um adolescente que sofre violência em casa, elas podem ser a única fresta por onde consegue pedir ajuda; um direct anônimo, um grupo onde alguém escuta. Tirar isso dele em nome da "proteção" não o salva do perigo real. Apenas fecha a última janela.
Na prática, o vínculo obrigatório pode virar ferramenta de chantagem emocional ou punição do agressor sobre o vulnerável. O problema do Brasil é legislar por impulso. Um caso ganha manchete, a pressão cai sobre os parlamentares, e os sábios constroem uma lei do dia para a noite sem considerar tantas camadas. O relatório que fundamenta a lei fala em adultização, ansiedade crônica, perda do brincar. Temas que merecem debate, mas acompanhados da reflexão sobre o contexto brasileiro, o que se diferencia da Europa.
Eis um paradoxo, o desvio do olhar acontece dos dois lados. Sem regulação, as plataformas sequestram a atenção dos pais para os filhos e dos filhos para os pais, e o resultado é uma geração que forma suas emoções diante de telas, não de rostos. Mas a lei que restringe o adolescente pode ocultá-lo dos olhos da sociedade. E sabemos, sem incertezas, o “mal” que habita em muitos lares brasileiros
Não é sobre escolher entre proteger ou não. Trata-se de não criar, em nome da proteção, um novo tipo de abandono.